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A Concepção Teológica sobre o Homem

Falar sobre como o homem foi concebido ao longo da história, é analisar o homem morto, póstumo. Essa análise se faz, necessariamente, à luz de nossa visão atual sobre a sociedade e sobre os mecanismos que a compõem. Ainda que busquemos certo distanciamento para discorrer com propriedade sobre certas questões, nosso juízo de valor sempre aparece nas entrelinhas do que dizemos e isso se reflete na análise histórica e, no caso, teológica, que fazemos sobre a concepção de homem.

Podemos analisar como o homem foi concebido nos momentos mais importantes da história, como na Era Medieval, Grécia clássica, Modernidade, Pós-Modernidade, hiper-ultra-mega pós modernidade etc. No entanto, ainda que discorramos sobre os aspectos intrínsecos a cada época, o importante é tentarmos entender não as divergências de pensamento pelo qual o homem foi concebido, e sim, no ponto crucial que interliga cada fase do olhar sobre o próprio homem: sua concepção de divindade.

Não importa a época que analisemos, sempre encontraremos a seguinte constante: a procura do homem pela transcendência espiritual. Nunca bastou ao homem a vida que vivemos. Sempre procuramos por mais, por explicações que dêem um sentido aos percalços da existência, alguma rota de fuga que nos leve a acreditar que seremos imortais, que poderemos entender o mundo e a nós próprios a partir da premissa de que há uma entidade mítica que nos protege, faz planos para a nossa vida e no qual todos os caminhos se unem: Deus.

Este desejo por transcender deu origem à Filosofia e a todos os demais campos do saber humano. Nossa vida não nos basta e não aceitamos o limite biológico de nossa existência: queremos mais. Queremos ir além. Como animais dominantes dentro da natureza, não conseguimos assimilar que talvez haja somente os oitenta anos, quando muito, para nossas realizações pessoais. Há que haver algum mistério que, quando solucionado, demonstre a justiça e perfeição de nosso ciclo vital. De acordo com o filósofo Voltaire, o desejo do homem pela existência de Deus, reflete-se em seu anseio por justiça, sem a qual, a sociedade não se sustentaria:

“Por que razão será impossível uma sociedade de ateus? Porque se considera que homens sem freio nunca poderiam fazer vida coletiva – viver juntos; que as leis nada podem contra os crimes secretos – ocultos; que faz falta um Deus justiceiro que castigue, neste mundo ou no outro, os malvados que conseguiram ludibriar a justiça humana.” (VOLTAIRE, 1974, p. 104)

Hoje a sociedade acredita, em grande parte, no Deus único. Muitas concepções sobre Deus são então construídas para que as diversas religiões possam utilizar de seus preceitos, de forma a arrebatar corações com promessas futuras. E se acreditamos no Deus único, isso pode nos levar a considerar que a própria idéia que fazemos de Deus se relaciona, de forma indissociável, com a própria idéia que fazemos de nós próprios. Ora, se há tantos anos somos formados por uma cultura que valoriza o individualismo, faz todo sentido que sustentemos nossa concepção religiosa sobre um único Deus, igualmente solitário. Chegamos então a uma bela constatação: Deus nos fez à sua imagem e semelhança e o homem faz Deus, constantemente, também à sua imagem e semelhança. Com isso, podemos afirmar que Deus é, senão uma criação social como atestam os ateus, ao menos um desdobramento das questões concernentes à sociedade. Sobre o monoteísmo, diz o escritor e ex-jesuíta Jack Miles:

“O grande motivo de orgulho do monoteísmo é que a realidade definitiva vive em sua casa e em nenhum outro lugar. A tristeza do monoteísmo é que tudo tenha de ser acomodado nessa casa única” (MILES, 2009, P. 274)

Há muitos exemplos que atestam a idéia de que mudamos a imagem de Deus conforme vamos mudando: na Grécia, os deuses eram vários. Havia deuses específicos para cada área da vida humana e era certo que diversos rituais eram realizados para que todos fossem celebrados. Como sabemos, os gregos tinham ideais sociais muito diferentes dos atuais e o todo era visto em detrimento da parte. A frase atribuída a Pitágoras: “mente sã, corpo são”, é um exemplo que demonstra como o homem grego via o mundo: embora houvesse a distinção clara e que é realizada até hoje sobre a dualidade corpo e espírito, os gregos acreditavam que era preciso uma confluência de fatores, mais de uma determinante para que fosse alcançada a paz de espírito, a alegria pelo conhecimento, de forma que não se acomodassem sobre os escombros de seus conceitos ancestrais:

“(…) quando se faz necessário dar início ao filosofar, eles ensinam essa lição mais claramente do que qualquer outro povo. Não como algo que se dá, em primeiro lugar, na adversidade: tal como presumem, com efeito, aqueles que derivam a filosofia da aflição, mas, sim, na felicidade, numa puberdade madura, no interior da serenidade flamejante de um momento de vida vitorioso e corajoso”. (NIETZSCHE, 2008, p. 32)

Outro exemplo de como deus muda conforme mudam os homens, fica explícito na própria Bíblia. Embora os cristãos acreditem que as escrituras de seu livro sagrado tenham sido redigidas por homens tomados pela revelação divina, não podemos nos abster de constatar, à luz da razão, que foram homens os seus redatores. Sendo homens, levaram muito de si e da visão que tinham sobre o cristianismo para compor as peças que formam o antigo e novo testamento. Por este motivo, fica evidente como a trajetória do perfil psicológico de deus vai mudando no decorrer das narrativas. Podemos observar, por exemplo, que o antigo testamento faz alusões claras sobre a importância da terra para o homem: do pó viemos e ao pó retornaremos; Caim sofrerá com terras improdutivas; os homens deverão tirar seu sustento da terra; a terra é prometida e usurpada por Deus conforme o comportamento dos humanos e assim por diante. Se a importância da terra nestes versículos é tão grande, devemos justificá-la em razão dos desígnios de Deus ou do período histórico a que faz alusão?

Enfim, o que quero dizer é que sob a perspectiva teológica o homem muda e com isso, muda a própria imagem de Deus. Mas em nenhum momento, ao menos que eu tenha conhecimento, o homem deixou de acreditar em “algo por trás do que indicam os nossos sentidos”. Poderíamos afirmar que chega a ser uma característica comum a todos os homens e o que muda nesta busca por algo que lhes acrescente sentido, é tão somente os caminhos que serão percorridos nessa jornada.

Para o homem de fé, o que acredita em algum tipo de milagre transcendental, as vias são atraentes e diversificadas: há os protestantes e dentro dessa corrente cristã, diversas igrejas prontas a apontarem o caminho do paraíso – ainda que cobrem por tal mapa; existem também os católicos e na esfera papal, a teologia da libertação, o catolicismo ortodoxo, entre outros; há também os espíritas que nos fazem aceitar nossas provações como resgates kármicos; para os alternativos, existe o budismo e afins, que cultuam Deus embora afirmem que a entidade não exista; para os exigentes, há o sincretismo que reúne diversas esferas religiosas: pais de santos que rezam o pai nosso, não passam embaixo de escadas, trazem a pessoa amada em sete dias e cultuam mortos e a santíssima trindade.

Ou seja, não faltam opções no mercado religioso para o homem que procura se religar ao aspecto divino, a fim de fugir do consumismo desenfreado e de suas desilusões terrenas. Todas as religiões, sem exceção, propõem esse caminho alternativo e parecem trazer no bolso da algibeira regras de condutas e soluções prontas que nos façam felizes. E é neste aspecto que, acredito eu, recai a contradição religiosa – e que em contrapartida, nos remete ao assunto que aqui tratamos: a concepção do homem sob a ótica teológica. Pensemos tal contradição:

Analisando o material de nossa apostila, podemos encontrar diversas citações a respeito da barbárie a que estamos submetidos em razão de nossa política econômica neoliberal. A busca pelo todo é apresentada, então, como alternativa para a fragmentação perniciosa à qual o homem moderno está curvado. Somos levados, pela globalização sistêmica do ideal de consumo, a comprar produtos que satisfaçam nossos desejos momentâneos. Trabalhamos para consumir e ficamos restritos às margens que nos definem como produtores e consumidores. Esta é a relação que se estabelece entre os indivíduos modernos: o escambo de afeto, de produtos, de desejos. E é isso que o material de nossa apostila pretende atacar: a busca do certo no lugar errado.  Para ilustrar rapidamente:

“É possível perceber uma espécie de otimismo ingênuo na sociedade moderna, enquanto ela acredita que é possível vencer o mal tanto dentro quanto fora de si, apenas com a razão e a educação; para os cristãos, é necessária a graça de Deus e o amor” (p. 48);

“O Materialismo moderno tira das pessoas a necessidade de se sentirem responsáveis” (p. 63);

O homem moderno quando não se sente confortável com suas questões terrenas, faz compras. Busca por produtos que o deixem mais bonito, mais elegante, mais feliz. Na sociedade atual, lugar de ser feliz é no supermercado. Isso gera angústia, pois novos produtos surgem com as promessas de felicidade estampadas em seus rótulos. Como no livro de Alice, as embalagens contêm inscrições: beba-me, coma-me. Mas ao contrário do que ocorre no país das maravilhas, não crescemos quando os consumimos. Tampouco encontramos lagartas falantes que nos mostrem o caminho, sorrisos sem gato, rainhas brancas. Nada muda quando bebemos e comemos. Permanecemos iguais. E isso nos desespera – nos faz trocar de produtos, de rótulos, de embalagens. Ave tecnologia, mãe de todas as nossas ambições consumistas, ajudai-nos a ter uma televisão moderna como a do vizinho, pela qual pagaremos pequenas fortunas. Ajudai-nos a não enxergar que em pouco tempo vamos querer outro aparelho: mais fino, mais moderno, com ultra sensores megalo pixels blaster modernos. E mais caros. Descartemos o televisor antigo e busquemos a felicidade onde não podemos encontrar, no produto que ainda não exibimos. O sociólogo Zygmunt Bauman reflete sobre o assunto:

“(…) automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que ‘novas e aperfeiçoadas versões’ aparecem nas lojas. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra? Para o parceiro, você é a ação a ser vendida ou o prejuízo a ser eliminado.” (Bauman, 2004, p. 14).

Mas não! Bradarão os cristãos: só Deus pode salvá-los de realidade tão assombrosa. Deus é o caminho e a Verdade e através dele encontrareis vossa paz. Encontrareis vosso lugar no mundo e todas as promessas de felicidade vos serão reveladas. Vossa submissão voluntária aos desígnios do Criador fará com que vos torneis homens livres. Seus mandamentos, se seguidos à risca e a contento, serão os remos de um barco que vos levará adiante, numa imensidão estonteante de lindas paisagens e amor infinito.

E é aí que voltamos à contradição. Vejam bem: o neoliberalismo e todas as formas de manipulação econômica só fizeram com que o homem se perdesse em seus tortuosos caminhos e vida desregrada. Nossos valores morais foram substituídos por valores monetários. Valemos o que produzimos e o quanto consumimos. Mas desde sempre, basta que mantivéssemos os nossos olhos abertos, as religiões nos propuseram saídas alternativas: exaltemos o homem de fé, pois dele será o reino dos céus!

Mas procuramos este reino e não achamos nada. Os caminhos apontados pela teologia nunca nos deixarão mais felizes ou mais tranqüilos, pois partem de uma premissa que tais possibilidades só existem no além-túmulo. Satisfazer nossos desejos terrenos é ir contra os desígnios divinos. Esta vida em que vivemos, dizem os teólogos de todas as espécies, nos estrutura para recebermos o amor de Deus quando chegar o momento: e o momento nunca é agora. O momento é sempre depois, um dia: no céu, no paraíso, nos hospitais espirituais, no dia do julgamento. É sempre depois que seremos felizes e para isso, basta que sejamos infelizes agora.

A submissão voluntária que pregam as igrejas, os templos, os terreiros, as lojas maçônicas e todo e qualquer outro modelo institucional religioso, pregam contra a vida – ao menos contra esta. O homem passa a ter que manter olhos atentos sobre sua conduta para que não profane mandamentos e preceitos divinos. A religião então controla suas paixões, não permite a intensidade que é intrínseca aos instintos humanos: repudia o sexo, perverte a moralidade estabelecida e joga para o plano dos céus uma felicidade que deveríamos procurar em vida, na terra. Propõe que o homem veja o mundo e a si mesmo por um viés teológico, com os olhos voltados para as nuvens, quando bastaria a este homem que olhasse para frente, para trás e para dentro. O homem não se reconhece quando compra, mas tampouco se realiza quando reza.

São duas as concepções que nos são apresentadas nesta disciplina institucional para que entendamos a concepção humana: econômica e espiritual. Evidentemente que o Claretiano, como instituição católica e missionária, sugere a catequese nas entrelinhas: concebamos o homem de maneira teológica – o que não se sustenta. O neoliberalismo, por sua vez, é apresentado como o caminho da economia: o que não nos consola.

Com isso, afirmo que todos os aparatos utilizados pelas revelações divinas para demonstrar que somente quando o homem voltar a se olhar por uma perspectiva teológica, com juízo de valor concreto é que voltaremos a ser felizes – como se algum dia tivéssemos sido – são infrutíferos. Nem as religiões nem as políticas econômicas conseguirão nos trazer plenitude, coesão, felicidade. Somos homens, somos mulheres. Somos seres insatisfeitos por natureza e essa insatisfação reside em não nos contentarmos, como já dissemos, com a vida que nos é apresentada. Não nos basta que entendamos a vida como um ciclo finito, desprovido de qualquer sentido transcendental. Nosso desejo reside no objeto que não podemos ter, no produto que não pudemos comprar. E esse desejo, quando bem canalizado, transforma-se em potência e nos faz ir adiante. Mas não nos basta ir adiante, queremos ir além – além túmulo. Queremos a certeza de que os laços que nos unem não são apenas laços estabelecidos dentro de um período que acaba. Não nos basta ter o amor de uma mãe, de um filho: queremos que este amor estenda-se aos confins espirituais, queremos rever nossos ancestrais sentados ao lado direito de Deus pai todo poderoso.

E assim concluo tentando responder às questões propostas:

Como a pessoa foi concebida e tratada durante a história?

A pessoa foi concebida e trata durante a história sempre de maneira teológica. Nunca nos libertamos de tais amarras religiosas. Nunca pudemos exceder, testar nossos limites, pois até os homens de nenhuma fé são obrigados a submeterem-se a leis e preceitos morais que são intrinsecamente arraigados aos mandamentos divinos. Todas as interpretações que se fez e se faz sobre a idéia de homem passam pelos ideais religiosos estabelecidos. Desta maneira, penso que a pessoa sempre foi concebida pela história numa relação desfavorável de poder: ou submetendo-se à religião ou às engrenagens econômicas. Somos atores, quando deveríamos querer ser palco.

A atual sociedade (capitalista neoliberal) trata a pessoa adequadamente?

Responder como o neoliberalismo trata o homem já é interpretar a questão como um juízo de valor, uma vez que o termo “tratar” já estabelece uma relação de dominação. Culpamos o neoliberalismo como se não participássemos deste processo que nos restringe a meros consumidores. Como um demônio que parece se impor apesar de nossas súplicas, responsabilizamos o sistema econômico por sermos o que vamos nos tornando e acabamos por esquecer que não são as máquinas que estabelecem as regras do jogo capitalista: são os próprios homens.

Essa busca humana por uma satisfação que só se concretiza pelo poder de compra torna a todos nós escravos de nós mesmos. Assim, acredito que o homem não seja tratado pela sociedade neoliberal nem bem nem mal, uma vez que ele não se configura como um mero receptor de suas ações e preceitos. Acredito que o homem seja um agente condicionador das relações que terminam por ser estabelecidas, das quais nada poderemos fazer enquanto continuarmos a nos enxergar como algozes ou vítimas de tal sistema. Para usar de um pouco de metáfora, volto à analogia do teatro: somos todos personagens de um grande palco e nos é facultado o direito de nos despirmos das vestes que já não servem mais. Contudo, não poderemos acusar o costureiro de tê-las feito, em razão de já as termos usado.

__________
Texto: Natachy Petrini
(Licencianda em Filosofia)
  CEUCLAR

Apoio Bibliográfico:
Ser Pessoa – Uma Proposta Humanista. Material didático mediacional do curso de Filosofia do Centro Universitário Claretiano, 2011.
BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Zahar, 2005. 212 p.
MILES, Jack. Deus uma Biografia. Companhia de Bolso, 1995. 555 p.
NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na Era Trágica dos Gregos. Hedra, 2008. 124 p.
VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São Paulo, Martins Fontes, 1973. 207 p.

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