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O Caminho da Arte

A arte consiste em trazer algo do abstrato para o concreto,  e trans­formar esse algo em “obra de arte”. No mundo antigo e até a Idade Média, ao menos, ela era basicamente imitação. Ou seja, o artista se confundia com o artesão, e era tão mais valorizado quanto mais perfeita era a imitação que fazia da natureza. Com o avanço da razão e da técnica, nos modernos, a imitação passou a perder valor. Imitar agora passa a ser apenas técnica, coisa de máquina. A arte em função disso mudou. De mera imitação, passou a buscar de outra forma aquilo que fazia através da imitação da natureza.

Um olhar moderno sobre a arte dos antigos nos deixa, numa visão superficial, sem saber como ela podia desencadear nas pessoas o que desencadeava. Pois ela desencadeava um mundo, como afirmou Hei­degger em A origem da obra de arte, quando nos disse que a arte vem antes de tudo, e sobre ela vem o próprio mundo. Mas como uma imi­tação da natureza poderia fundar um mundo?

Esta dificuldade de entender a arte dos antigos mostra mais uma vez como o avanço da razão nos deixa cegos para nosso passado. Pois os antigos se aproximavam, em sua forma de se relacionar com a na­tureza, com aquilo que éramos quando crianças. Em nossa infância já foi fascinante a possibilidade de imitar a natureza. Desenhar um cavalo, um cão, ou uma paisagem, era algo mágico. E esta arte de imitação dos antigos era, em sua essência, da mesmíssima natureza de nossa arte atual, ainda que o avanço da razão e da técnica tenha nos cegado para este aspecto. Pois em ambos os casos o que fascina é o fato de trazermos algo do abstrato e colocarmos no concreto, ou seja, no nosso mundo. Algo que desencadeia em nós e em nossos semelhantes uma admiração, que se concretiza numa obra, que é por seu turno um documento do que somos: um caminho entre o abstrato e o mundo concreto. E ver o que aconteceu na transição dos antigos para os mo­dernos, no que concerne à arte, é de suma importância para que possa­mos ver o que este caminho tem a nos revelar.

Já vimos as inversões que o avanço da razão provocou no mundo do ser humano. No que concerne à arte, os antigos estavam mais pró­xi­mos ao não-ser. Ou seja, sua vida era “mais mágica” que a nossa. A razão, em seu avanço, expulsa o mágico cada vez mais para o fundo de nosso esquecimento. Mas não era tanto assim nos antigos. Por isso, sua arte era imitação da natureza. Pois não havia este abismo entre o abstrato e o mundo concreto, abismo que se formou e se apro­fundou pela interdição crescente que o avanço da razão provocou. Em função disso, a imitação dos antigos, como a das crianças, tinha algo de viva, ainda que hoje não consigamos ver isso. E com o avanço da razão todo um mundo novo surgiu, o mundo dos modernos. Este novo mundo é composto por uma série de características, um conjunto delas, que não subsistem sozinhas, mas somente num todo. Desta forma a técnica, que transformou a imitação em coisa sem importância, trouxe com ela uma outra arte. Ou uma outra arte trouxe com ela a técnica, tanto faz. O que importa é que nesta nova realidade há uma nova arte, em que a imitação passa a ser coisa de máquina. Uma nova arte que faz do artista uma espécie de xamã: ele tem de ser cavalo do abstrato, para poder dar um salto, atravessando o abismo, e desta forma deixar o abstrato vir para o concreto, tornando-se obra de arte. Mas o processo de chegar a ela não se deixa ver claramente, pela profun­da diversidade entre a origem e o produto, apartados pela interdição. Em função disso, agora a obra de arte adquire um caráter estático, na forma de objetos e mercadorias, como tudo o que diz respeito à moder­ni­dade. De tal forma que a técnica dos modernos e a arte dos modernos são ambas aspectos do mesmo mundo moderno. Um mundo moderno que expulsou o mágico e transformou a imitação em “coisa de criança”.  E é.

Tomemos apenas um exemplo da visão de mundo dos antigos, e como ela é desconsiderada em sua totalidade pelos modernos. No diálogo “Menon”, de Platão, Sócrates nos fala das estátuas de Dédalo. E nos diz que existem dois tipos dessas estátuas. Uma é feita com os pés unidos e a outra separados. As primeiras, segundo Sócrates, valem mais, pois não andam, sendo que as segundas, por poderem andar, têm menor valor, pois podem fugir. Da mesma forma que um cavalo domesticado valeria mais que um cavalo selvagem.

Diante dessa afirmação de Sócrates, o que costumamos fazer normalmente é, em primeiro lugar, não considerar sua afirmação como algo digno de nota. Ficamos mais no argumento desenvolvido, do qual o relato é mero artifício didático, e não nos detemos na afirmação em si, que nos passa despercebida. Mas, se perguntássemos a algum aluno ou mesmo professor de filosofia o que ele pensa disso, diria que, ora, é óbvio que Sócrates não poderia acreditar em tal disparate. Porém, supondo-se que acreditasse, isso naturalmente deve ser impu­tado ao seu incipiente conhecimento da natureza. Pois, é obvio, estátuas não andam.

Aqui o que interessa para nós é ver que Sócrates acreditava, sim, no que estava dizendo. Pois, se achasse que isso não ocorria desta forma, jamais faria tal afirmação. Sócrates era o tipo de “chato”, ou filósofo, se preferirmos nomear desta forma, que se atinha a tudo e discutia tu­do. Se suspeitasse se tratar de um equívoco, seria o primeiro a denunciar. Acontece que para ele, e para os gregos antigos e todos os povos antigos, da mesma forma que é para as crianças, uma estátua era como o restante da natureza. Se possuía pés livres, podia andar, é óbvio. A denotar que a arte de imitação não era para os antigos o que é para nós. Quanto às estátuas poderem andar de fato ou não, isso depende de nós conside­rarmos a possibilidade mágica, que ultrapassa a razão, como algo real ou não.

A transição dos antigos para os modernos aprofundou a interdição do não-ser que a razão provoca, tornando a vida em geral previsível, estática e morta. Mas a parte interditada continua a existir, e lá de seu confinamento nos manda sinais. Uma das maneiras como ela nos manda é através da arte. A arte moderna torna-se assim, mais do que a antiga, algo a interpretar. Mais do que compreender, a arte moderna deve ser sentida. Uma obra de arte é tão mais importante quanto mais ela desencadeie nas pessoas a percepção de algo que nos toca a todos. O artista mergulha no abstrato e de lá traz cernes, que depois trabalha através de seu método, o qual faz parte de seu “standard de raciona­lidade”3, para poder transformar o achado em algo no mundo. Se tem sucesso, a obra pode tornar-se um ponto em que o mundo se funda, transformando-o. Mesmo que muitas vezes não seja de todo inteligível, ela torna-se símbolo do ponto onde aquela cultura específica se situa. Mas a cegueira inerente à modernidade esconde o processo de criação de uma visão mais clara.

Tal característica da arte moderna enseja muitas vezes uma injusta incompreensão. Outras vezes, uma suspeita mais ou menos própria de ser um embuste. Como disse Schopenhauer em relação à filosofia dos idealistas alemães, o sucesso de uma linguagem rebuscada como a de Kant os encorajou a rebuscar, mesmo sem conteúdo. Esta é a opinião de Schopenhauer, bem entendido. Mas de fato, no caso da arte moder­na, às vezes alguns artistas se sentem encorajados pelo sucesso de rabiscos ilustres, e tentam os seus. E há os que, mesmo assim, topam com algo que depois se torna relevante. Pois é assim mesmo que a arte acontece, ao menos no estado inicial de incipiência do artista: ele inicia sempre procurando algo que não sabe ao certo o que é, num engano dos outros e dele mesmo. Porém, pode suceder que o abstrato venha, e ele tenha que tentar despejá-lo no mundo, se tiver “standard de racionalidade” que lhe valha.

Mas o fato que queremos destacar aqui é o fato de este rio da arte estar vindo desde os antigos e acompanhar, como tudo, o movi­mento de aprofundamento da razão, e sua consequente interdição crescente do não-ser. E como os demais rios do abstrato, e suas pegadas, este também nos manda sinais. Sinais que temos que tentar decifrar, pois estão a nos dizer algo sobre o que buscamos. E quanto mais avançamos no aprofundamento da razão, mais interpomos obstáculos ao não-ser, mais represamos a essência, e mais ela nos envia sinais. “O indesejado bate à porta.” Se não formos abri-la, pode suceder que ele a derrube.

Não temos a pretensão de, neste breve escrito, abarcar toda a produção da arte e interpretar os seus sinais. Mas queremos ao menos começar, para mostrar que é pertinente que observemos isso. Para tanto tomaremos a arte que denominamos literatura. Pois, por ser ela constituída basicamente de relatos compostos de palavras, que é dis­curso racional, é a que mais se presta a ser compreendida à luz da razão. Antes disso, porém, queremos destacar o que vemos em comum nos diversos modos da arte.

Ora, muitos de nós, ou quem sabe todos, temos o anseio de criar obras de arte, e com isso sermos reconhecidos. Mas somente alguns seguem este anseio, por motivos que seria por demais extenso con­si­derar de forma exaustiva. Ou pelo peculiar lugar ou momento em que vive sua vida, ou por um desequilíbrio, que o afasta de outras de­man­das, ou por uma vontade maior que o comum de se fazer notar, ou por uma sensibilidade ou capacidade diferenciada, ou por várias destas causas conjugadas e outras ainda, o fato é que alguns de nós se tornam “ar­tis­tas”. Mas entre o anseio e o acontecer do artista existe um tempo mais ou menos significativo em que ele desenvolve a sua técnica. So­mente depois que a domina o artista se habilita a transformar seu ímpeto em algo concreto no mundo, produzindo sua obra. Pois, já que tem neces­sariamente de mergulhar no abstrato, deve possuir no mundo concreto um ponto sólido, para poder voltar e transformar seus achados em algo com o qual tocará o seu tempo. Por isso a arte moderna às vezes assumiu formas muito determinadas, como o cubismo, que con­sistem em portos claros de retorno, e por isso permitem um mergulho mais fundo.

Pois bem, quanto à literatura, como em relação às demais formas de arte, ela existe desde que existe o ser humano. E consiste basicamente em relatos compostos por palavras, seja em prosa, seja em verso. E aqui já vemos uma diferença dentro da própria literatura, uma diferença que queremos também tratar de forma breve. Pois a técnica específica que um artista detém, que faz parte de seu “standard de racionalidade”, varia muito em função de uma série de fatores. Mesmo assim, normalmente o artista se situa numa área específica, que tem suas peculiaridades. Por exemplo, um poeta tem uma técnica diferente da de um prosador. Mas nos dois casos, seu “standard de racionalidade” serve como ponto sólido onde o abstrato assenta. Para que isso acon­teça, é necessário que a técnica do artista sirva para fixar sua atenção, para que o abstrato possa vir através dele e se revelar.

Este é o sentido, por exemplo, da rima na poesia. Preocupado em estabelecer a rima, o poeta acaba permitindo, depois de dominar seu processo, que algo alhures lhe tome e fale por suas palavras. O mesmo acontece na música, na pintura, na escultura e na literatura em prosa, como testemunham muitos artistas. E sobre isso citamos somente Darci Ribeiro, que foi antropólogo e romancista. Numa entre­vista alguns anos antes de sua morte, nos diz, numa postura quase cômica, que quando no papel de antropólogo seu sofrimento era míni­mo, pois se tratava de expor seu conhecimento. Já no papel de roman­cista, era tomado de uma ansiedade e mesmo de um sofrimento, pois se tornava escravo de um enredo que não lhe pertencia mais, e ficava mesmo ansiosamente curioso por saber onde a história ia dar.

O certo é que o relato de Darci Ribeiro não é o padrão dos tempos modernos. Ele mostra aqui mais uma vez uma característica da brasilidade, da qual Darci foi um dos maiores expoentes. Pois na mo­dernidade o que ocorre normalmente é que, ou se é romancista, ou se é cientista, ou se é medíocre num ou no outro, ou mesmo nos dois. E quem os mistura com propriedade às vezes torna-se um “maldito”, e pode acabar desenvolvendo uma linha extremamente fértil, situando-se muito próximo àqueles perigosos pântanos do não-ser.

Evidentemente, nossa abordagem acima é superficial e redutora. O que é compreensível, já que estamos labutando numa linha racional. Pois nunca existe de fato uma separação completa dessas duas coisas. Um cientista que produza algo de novo não está apenas colocando no papel seu conhecimento, mas antes deve de alguma forma também mergulhar no abstrato, pois a intuição presente no método científico é exatamente isso. Da mesma forma, o artista que produza algo notável igualmente deve possuir um domínio numa atividade que faz parte do âmbito da racionalidade, ainda que alguns mergulhem no abstrato e não consigam mais retornar de todo. E sucede mesmo que, se não conseguem mais retornar de forma alguma, deixam de ser artistas e tornam-se doentes. Perdem a racionalidade que lhes concede uma comu­nicação coerente com o mundo. Quando isso ocorre, vemos na prática como os perigosos pântanos do não-ser não são apenas uma figura de linguagem deste autor que vos fala.

Para passar ao largo desse perigo, a modernidade esfacelou a to­ta­lidade viva em partes. Pois é mais fácil lidar com algo estático do que com aquilo que está vivo e em movimento. Na prática, o apro­fun­da­mento da razão impõe que se tome um caminho, uma parte da totalidade esfacelada, e se siga adiante. No que concerne à nossa personalidade individual, essa parte tomada e destacada da totalidade é que forma nosso “standard de racionalidade”, que é o ponto de volta, após o mergulho no abstrato. No entanto, para o falante de português, como Darci Ribeiro, tal “standard de racionalidade” já consiste numa mistura em grau superior, justamente pelo português efetuar esta mistura de todas as coisas. Ou seja, por ser falante de por­tuguês, ele pode se permitir misturar as coisas num grau superior ao normalmente aceito, e mesmo assim ter uma produção pertinente, não perdendo o equilíbrio e a ligação com seu mundo cultural. Ao contrário, em outras línguas isso se torna tarefa mais difícil, como testemunham as vidas de um Nietzsche, de um Van Gogh ou de um Antonin Artaud, entre outros. Esta caracte­rística da brasilidade, que já vimos linhas atrás, trazida agora para a arte, mais uma vez nos mostra a semelhança das possibili­dades do português com a dos antigos. Pois neles também a separação era mais tênue. O mesmo homem podia ser artista, pensador, praticante de uma atividade místico-religiosa, sem que isso causasse estranheza. Ou seja, os antigos se situavam em algum ponto antes de os rios do abstrato terem se dividido, ou ao menos mais próximos à origem de todos eles. Já o português, nós vimos, situa-se no seu fim, que é sempre, de uma forma ou de outra, uma volta ao início.

Porém, nós não somos antigos, mas modernos. E, apesar de termos como língua-mãe o português, declaramos linhas atrás que iríamos considerar cada rio do abstrato em separado. E para isso estávamos a considerar o caminho da arte, mais especificamente, da literatura. E dizíamos que ela também, como tudo, existe desde o nascimento do ser humano, ainda que não tenhamos muitos registros antigos. Mesmo assim, sabemos que ela existiu sempre. Pois ela consiste, em sua essência, apenas em fazer relatos, escritos ou não. E isso é o que um pai ou uma mãe fazem ao filho para que ele se torne o que se torna. É através destes relatos, em suma, que os adultos sinalizam às crianças sua cons­trução específica de mundo.

Então, a primeira forma de literatura é a palavra. De um ponto de vista mais vasto, todo o discurso racional é arte, e uma forma ainda que incipiente de literatura. Pois quando falamos algo, este algo que falamos carrega a chave de acesso a um conteúdo cuja sede se encontra alhures, no abstrato. E nós afirmamos linhas atrás que o abstrato, que foi interditado, nos manda sinais. Ora, uma das formas como ele faz isso é através da literatura. E nós pretendemos ver algo sobre este conteúdo, pois este algo que queremos ver nos ilustrará sobre o caminho que estamos a trilhar, e que conduz no final para aquele mar do abs­trato, onde poderemos de novo acessar a essência das coisas. Um acesso que provavelmente não se dará através da palavra, mas ela pode ao menos nos conduzir até suas imediações.

Nesta perspectiva, toda a arte e toda a literatura na verdade fala sobre a mesma coisa: o abstrato. Seja um conto de fadas, seja uma escritura antiga, seja uma obra clássica, ela nos fala do mesmo assunto: da posição do homem e do desafio humano. Tomaremos alguns exem­plos, que são pertinentes ao assunto que tratamos, ou seja, à filosofia que fazemos. Agindo assim nós retornamos àquela questão já antes tratada, de que cada filósofo possui um “mito fundante”. Um relato que resume o seu pensamento. Já falamos sobre isso e inclusive elegemos o relato bíblico do Gênesis como nosso mito fundante.

Pois bem, este aspecto mostra a sobejo como os relatos possuem um conteúdo que ultrapassa o relato em si. Como os contos de fadas e outras histórias, que ao final acabavam com um resumo que se chamava “a moral da história”. Uma moral da história que era sempre arbitrária, pois alguém poderia descobrir um sentido diverso. De qualquer forma, vemos esta capacidade de transmitir um conteúdo oculto em toda a palavra, sendo que muitas vezes uma pequena estrofe de um poema transmite o que levaríamos muito tempo para transmitir num discurso do tipo dedutivo-racional.

Nessa linha, os relatos da literatura que agora passaremos a avaliar, eu os poderia eleger todos como mitos fundantes de minha filosofia. Isso significa que eu tomei dentro da totalidade da literatura textos que possuem um conteúdo inerente à minha visão do problema e do desafio humanos. Em todas as épocas eles existiram, pois o abstrato sempre nos mandou sinais. E são basicamente os mesmos. Apenas varia a forma como a arte da literatura ocorreu, em função do tempo daquele que escreveu, ou falou. Eles devem ser interpretados, então, numa linha já desenvolvida quando consideramos o relato do Gênesis. Ou seja, o ser humano tomou e comeu do fruto da árvore do conheci­mento do bem e do mal, fruto este que nos deu discernimento, mas nos afastou do paraíso, ou seja, da ligação direta com a natureza. Resta porém uma segunda árvore, a da vida, cujo fruto nos tornará iguais à divindade. No encalço deste segundo fruto estamos desde que fomos expulsos daquele estado paradisíaco. O primeiro relato, então, é o do próprio Gênesis.

O segundo relato considerado é o que está expresso no Fausto de Goethe, já antes referido. Como já vimos, o conteúdo da obra de Goethe já havia aparecido em contos populares e diz respeito a um certo pacto com forças sobrenaturais, uma espécie de desafio à natureza, que põe o desafiador em risco de “perder a própria alma” em troca de conhe­cimento e poder. Este relato surge espontaneamente, ao que parece, no meio do povo, a partir principalmente do final da Idade Média e início da Era Moderna. O conteúdo que queremos destacar é o de que a humanidade é Fausto, e todo o ser humano, individual­mente consi­derado, é também Fausto. Ou seja, a humanidade busca os se­gredos, o desvendamento dos mistérios e, em suma, o poder e a imorta­lidade. Nesta busca, desafia a própria natureza, e se sente culpada por isso, quase como se estivesse atraindo uma maldição. Fazendo uma cola­gem com o primeiro relato, o do Gênesis, quando buscamos o conhe­ci­mento e o poder, nos sentimos como se estivéssemos mais uma vez tomando do fruto da árvore proibida, e nos colocando assim como passíveis de punição.

Mesmo assim, não deixamos de buscar o conhecimento e o poder, nem deixamos de desejar a vida eterna. Então, perseguindo seu sonho de poder e imortalidade, a humanidade passa por cima da própria natureza, transformando-a. Ao final, como aconteceu com Fausto, quan­do o ser humano a tudo domina, acaba ficando cego. Fica cego porque o domínio da natureza impõe o avanço da razão, que inverte seu mundo e, desta forma, o torna cego para seu passado mágico. E exatamente neste ponto estamos, caro leitor. Dominamos a natureza e a subjugamos. Porém, em função de nossa própria ação, e do con­sequente avanço da razão, fomos tomados por este estado de cegueira. Um estado que nos obriga, quem sabe, a tatear e ouvir.

O terceiro relato é o também já referido poema “Mensagem”, de Fernando Pessoa. Não nos alongaremos nele, pois já o fizemos linhas atrás. Mas ele diz respeito e nos fala de um navegar em um mar, um navegar que já foi tentado mas ficou com seu desenlace em aberto. E nos fala também de como este navegar tem relação com o português. No processo de criação do poema, certamente Pessoa estava imbuído de um pensamento que dizia respeito a isso: ao ímpeto português de cruzar o mar. Mas, à medida que o afã do poeta o fez mergulhar no abstrato, ele trouxe um cerne, que diz respeito ao que foi buscar. Assim, tornou-se cavalo do abstrato, que o ultrapassou e fez vir ao mundo uma obra, que Pessoa formatou pelo domínio de seu método. Ela nos diz, por exemplo, que “o mar com fim será grego ou romano. O mar sem fim é português”. E, caro leitor, “que ainda falta cumprir-se Portugal”. Ou seja, uma das interpretações que podemos fazer é que o movimento iniciado entre os gregos, que constituiu um mundo de objetos, o mundo do ser, será superado pelo português em nós, que é este aspecto de cruzar abismos e misturar tudo, que reside no peito de todo o ser humano.

O quarto e último relato que tomamos é uma passagem do livro Assim falou Zaratustra, de Nietzsche. E aqui desejamos fazer uma aná­lise um pouco mais extensa do que as anteriores, por isso o faremos num item específico. Antes, porém, de fazermos isso, desejamos re­lembrar em que ponto de nossas considerações nós estamos: estamos tentando demonstrar o sentido oculto de todos os relatos, de toda a literatura, bem como de toda a arte, de tal forma a demonstrar que ela, a arte, se constitui num rio do abstrato, abstrato este que foi interditado pelo avanço da razão, que nos tornou cegos para a essência. Vejamos agora o relato de Nietzsche em Zaratustra, ou de Zaratustra em Nietzs­che, como queiramos.

O ENIGMA DE ZARATUSTRA

Começaremos a tratar do enigma a que nos referimos partindo do ponto em que encerramos o item precedente, mais especificamente, de nossa afirmação de que o relato é o relato de Nietzsche em Zaratus­tra, ou de Zaratustra em Nietzsche. De um ponto de vista comum de nossa vida cotidiana, é claro que é um relato de Nietzsche em sua co­nhecida obra Assim falou Zaratustra. Porém, é bem provável que para ao próprio Nietzsche não fosse assim tão claro. O que não nos deveria causar surpresa, já que Nietzsche era, em algum sentido, a antí­poda do senso comum. Ao menos do senso comum dos modernos.

No particular da “origem da obra de arte”, Nietzsche nos diz, em sua obra autobiográfica Ecce Homo, que na inspiração o artista se deixa apossar de outro, que o carrega. Em relação a Zaratustra, ele teria surgido num momento como esse, em que o autor estava tomado por pensamentos, “chamando” algo, e Zaratustra o “ultrapassou”. Ou seja, como uma seta, Zaratustra penetrou em Nietsche e fez dele uma espécie de cavalo, corpo e boca pela qual falou.

É evidente que o que ocorreu não foi simples obra do acaso, pois a arte nunca o é. Nietzsche tinha um propósito quando se isolou e se deixou tomar por pensamentos, ainda que este propósito não estivesse completamente claro. Estava ele imbuído da ideia de retomar a verve trágica da arte e da filosofia dos antigos, numa possibilidade apenas sinalizada por Hegel na Estética, como já mencionamos. Ocorreu-lhe que a res­ponsável pela derrocada do pensamento antigo era a cha­mada “escatologia”, que consiste numa forma de desmerecer o “aqui e agora” em face de um possível “fim”, numa visão que acaba por dividir o mundo em dois: o material e o espiritual. E ocorreu-lhe ainda que o primeiro profeta escatológico teria sido Zaratustra, ou Zoroastro, como quei­ramos. Então, imaginou trazer de volta o profeta para que se emendasse.

Imbuído destes pensamentos e vontades, Nietzsche perambulou por regiões da Itália, as quais lhe tocavam de algum modo especial, e se situavam “longe da origem”, ou seja, longe do costumeiro. Se afastou, assim, do tumulto do mundo, de sua própria cultura, e in­tentou trazer de volta Zaratustra. E, em vista disso, Zaratustra o “tomou”. Ou seja, algo alhures tomou conta do artista e através dele se fez presente no meio de nós. Algo inerente àquilo que o artista foi buscar, mas, quando este algo “veio”, o artista passou a ser apenas um meio para um fim que lhe ultrapassa, o qual não podemos com­preender de todo. De tal forma que, “no fundo no fundo”, não podemos dizer com certeza se a obra de arte Assim falou Zaratustra diz respeito a um relato de Nietzsche em Zaratustra ou o contrário.

Porém, o Zaratustra de Nietzsche não é apenas uma obra de arte. Ele também é filosofia especulativa. Podemos dizer mesmo que ele se situa naquele pantanoso terreno entre estas duas formas, a arte e a filosofia. Um terreno pantanoso, pois tem relação com aqueles perigosos pântanos do não-ser, do qual nos avizinhamos sempre que misturamos as coisas. Para o pensamento moderno, já vimos, a arte e a filosofia residem em diferentes compartimentos. Quem mistura por demais estes compartimentos pode operar coisas que ultrapassam a razão, como fazer Zaratustra voltar a falar. O que, convenhamos, somente pode ser considerado, na maneira de ver adotada pelos mo­dernos, de um ponto de vista figurativo. Para os modernos, considerá-lo como algo real se constitui numa insanidade que pode levar em última instân­cia à loucura e ao aniquilamento. E de fato foi para onde tal ponto de vista e tal consideração do mundo acabou levando Friedrich Nietzsche.

O que nos mostra a sobejo que nossa empreitada não é das mais fáceis. Aliás, é dificílima. Pois encarar o não-ser, já nos disse Parmênides, pode ser muitíssimo perigoso. Facilmente poderemos ser “tirados para Cristo”. E, definitivamente, não temos vocação para isso, não é mesmo? Principalmente nós que somos, como Raul Seixas, bons brasileiros 4 Portanto, mais uma vez temos de ir “devagar com o andor”.

Sim sim, temos de ir devagar como o andor, mas nem tanto assim, pois não temos todo o tempo do mundo. E veja, caro leitor, o impasse diante do qual estamos. Pois uma das maneiras de ir devagar é dividindo as coisas em partes. E é isso que a razão faz, já vimos. Porém, a razão dá “status” de totalidade a cada parte, impedindo desta forma que se veja o todo, onde reside “a verdade”, a qual buscamos. Desta ação da razão, já vimos, resulta uma realidade esfacelada e morta. E quando tentamos misturar todas as partes, de tal maneira que a realidade volte a viver, a razão torce o nariz e tenta nos alcunhar de pouco confiável, espertalhão, mistificador, lunático ou coisas piores. Mas, apesar disso, temos de en­frentar a razão se queremos ir para aquele território que fica além do bem e do mal.

Pois bem, se a razão nos tacha das piores coisas, podemos sim­plesmente agir e deixar ela falando sozinha. E é exatamente isso que nós precisamos fazer, eu penso, agir. Acontece que para agir nós pre­cisamos entender, e neste caso já caímos de novo dentro do círculo da razão, onde nos encontramos ainda no presente escrito. Por isso nós dissemos linhas atrás que iríamos considerar cada rio do abstrato em separado. Pois cada um deles tem algo a nos dizer para nos convencer e mesmo nos esclarecer sobre esta ação de ultrapassagem da razão. E cada um destes rios, por estarem ainda separados e, portanto, ainda dentro do estrito caminho da razão, residem ainda num território sólido e que nos parece não oferecer uma ameaça muito significativa ao mundo concreto, no qual nos sentimos seguros. Mas, uma vez que consigamos vislumbrar o que pode advir desta ultrapassagem da razão, acredito que teremos motivos relevantes para agir e deixar a razão falando sozinha.

Dito isso, vamos ao relato. Ele está no § 2 da Terceira Parte, que se intitula “Da visão do enigma”. O narrador, supostamente Zaratustra, relata-nos de uma visão que teve depois de ficar a especular sobre a natureza da realidade. Nos diz o seguinte:

“E, em verdade, o que eu vi, coisa igual nunca vi. Um jovem pastor eu vi, retorcendo-se, engasgando, convulsionado, o rosto distorcido, com uma negra, pesada serpente pendendo-lhe da boca.

Vi alguma vez tanto nojo e pálido horror em um rosto? Ele teria dormido? E então rastejou a serpente para dentro de sua garganta – e então se aferrou ali.

Minha mão puxou a serpente e puxou – em vão! Não arrancou a serpente da garganta. Então algo em mim gritou: “Morde! Morde! A cabeça fora! Morde!” – assim algo em mim gritou, meu horror, meu ódio, meu nojo, minha piedade, todo meu bom e ruim gritou em mim em um grito.

– Ó audazes que estais em torno de mim! Vós que buscais, que tentais, e quem dentre vós com ardilosas velas navegou por mares inexplorados! Ó amantes de enigmas!

Decifrai-me pois o enigma, que eu vi aquela vez, interpretai-me pois a visão do mais solitário dos solitários!

Pois uma visão era, e uma previsão – o que vi eu aquela vez em alegoria? E quem é aquele que um dia há de vir?

Quem é o pastor, a quem a serpente rastejou assim para dentro da garganta? Quem é o homem, a quem todo o pesadíssimo, negríssimo, rastejará assim para dentro da garganta?

– O pastor, porém, mordeu, como lhe aconselhava meu grito; mordeu uma boa mordida! Bem longe cuspiu a serpente; e levantou-se de um salto. – Não mais pastor, não mais homem – um transfigurado, um ilumi­nado, que ria! Nunca ainda sobre a terra riu um homem, como ele ria!

Ó meus irmãos, eu ouvi um riso, que não era riso de nenhum homem – e agora uma sede me devora, uma aspiração, que nunca mais silenciará.

Minha aspiração por aquele riso me devora: oh, como suporto ainda viver! E como suportaria, agora, morrer! – Assim falou Zaratustra.”

De que está Zaratustra nos falando? Que enigma é esse? É nossa incumbência responder a essas questões, pois é a nós que ele se refere, caro leitor, quando diz:

“Ó audazes que estais em torno de mim! Vós que buscais, que tentais, e quem dentre vós com ardilosas velas navegou por mares inex­plorados! Ó amantes de enigmas!

Decifrai-me pois o enigma, que eu vi aquela vez, interpretai-me pois a visão do mais solitário dos solitários!”

Aqui Zaratustra pede nosso auxílio para decifrar o enigma. Esta­mos em condições de fazê-lo? Eu penso que sim, ao menos em parte. Em primeiro lugar, tentemos decifrar o significado da serpente presa à garganta do pastor. Um jovem pastor. Ela é a razão que sufoca o homem e deixa-o aquém de suas possibilidades. Zaratustra tenta tirar a serpente da garganta do ser humano, o pastor, mas não consegue. Então grita: “Morde! Morde! A cabeça fora! Morde!”.

O pastor então morde e se livra da serpente. Agora, não é mais pastor nem homem. Passa a ser um iluminado. E passa a rir um riso nunca ouvido. Um riso que não é humano. Um riso que deixa Zara­tustra marcado para sempre. Depois de ouvir aquele riso, sua antiga vida perde o sentido. Sua morte passa a ser algo suportável e mesmo uma possível saída.

 O jovem pastor é o homem preso à religião. Um homem que se põe no ponto de filho da divindade, pastor dos “cordeiros de Deus”. Mas ele está preso à religião pela sua cegueira, ou seja, em função da serpente que está presa em sua garganta, a sufocá-lo. Lembremo-nos que a garganta é o local do “pomo de Adão”, ou seja, o lugar onde o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal ficou preso, segundo um relato popular. Cuspir fora este fruto, que nos trouxe aquela ser­pente, ou cuspir fora a serpente, que nos trouxe o fruto, em suma, cuspir a razão para fora de nossa garganta, é o que necessitamos para que deixemos de ser um jovem pastor. Iremos desta forma para uma possibilidade que está além do ser humano. Uma possibilidade em que deixaremos de ser filhos e passaremos a nos igualar à divindade, pois entraremos no sobrenatural, adquirindo a forma de um iluminado que ri. Ele ri um riso nunca antes ouvido, um riso que nos atordoa, pois insinua uma possibilidade além do homem.

E que riso é este? É o riso daquele que supera a razão e percebe o que nós, cegos que estamos, não percebemos. O riso dos loucos, talvez. O riso dos bruxos, talvez. O riso dos deuses, talvez. De qualquer forma, um riso que se assemelha ao nosso riso quando olhamos as crianças, ou os animais quando imitam os homens. Nós rimos por perceber a inge­nuidade das crianças, quando descobrimos “o peso das penas e do chum­bo”. Quando nossa vista se aclara e enfim desvelamos uma ilusão. Quan­do nossos olhos se abrem e podemos então nos livrar de nossos grilhões. O riso do jovem pastor que cospe para fora a serpente é o riso do escla­recimento. Não mais pastor, não mais homem, agora ele está além do homem. Por isso ele é um iluminado que ri.

Neste ponto chegamos onde podemos chegar neste caminho da arte. Aqui o caminho já se mistura à religião, pois também ele trata da ligação do homem com seu fundamento. E se mistura à metafísica, pois delineia uma outra realidade, diversa do mundo de objetos. E se mistura, enfim, à própria loucura, pois colide radicalmente com a cons­trução racional do mundo. Aqui o caminho da arte se aproxima de sua forma trágica, que é seu início e seu fim, de modo a nos aproximar do mar do abstrato, onde tudo se mistura. Sinal de que devemos consi­derar outro caminho.

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Extraído do livro “Quem Tem Ouvidos – Um Salto do Pensamento para o Inconcebível”, de João Batista Mezzomo (p. 244 a 260 Editora Besourobox – Porto Alegre – com autorização do autor)

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