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Filosofia da Linguagem em Rousseau

Ao tratar da originalidade e de todas as contundentes teses de Rousseau dentro do eminente contexto iluminista, ressaltarei aqui, neste breve texto, uma possível filosofia da linguagem neste autor, do qual poderíamos extrair algumas considerações concernentes à metafísica, ou, mais especificamente, concernente aos conceitos dos particulares e universais.
A razão a qual fez com que Rousseau caísse inevitavelmente no embolo das palavras foi precisamente pelo fato desse pensador estar obstinado a analisar a origem da desigualdade entre os homens (daí o titulo de sua grande obra) e, portanto, de descobrir a origem  das línguas uma vez que, se tomarmos a sociedade já estabelecida como inventora da linguagem, esta ultima é necessária para que os homens tenham uma certa correspondência entre si. Então, além de fazer a intercorrespondência entre os homens, para o filósofo francês, a linguagem permeabiliza a propagação das desigualdades, por assim dizer.
Por outro lado, somos indubitavelmente devedores ao uso da linguagem, pois é ela quem exerce e facilita as operações do espírito. Assim, ao analisar a origem das desigualdades, Rousseau pensou que houve a necessidade dos homens em usar as palavras para poder pensar, mas o homem também teve muito mais necessidade em pensar para poder expressar através da linguagem. Podemos dizer, então, que a necessidade em ordenar o espírito através da linguagem e pensar para criar a arte de expressar em palavras é um fato que ocorreu, em sua gênese, de forma simultânea.
Recorrendo e adentrando mais na origem das línguas, Rousseau afirmou que a primeira linguagem do homem foi o que ele chamou de “grito da natureza”, que foi a necessidade mais básica para a utilização da linguagem. Dessa forma, os gritos da natureza seriam reflexos do instinto humano, como, por exemplo, um pedido de socorro em ocasiões de perigo. Quando o homem foi deixando aos poucos os instintos mais moderados para substituí-los por ideias e instintos mais expressivos, ao passo em que o homem requeria uma comunicação mais estreita, as inflexões da voz foram multiplicadas e incorporadas também aos movimentos gestuais. Assim, os objetos visíveis e móveis já poderiam ser exprimidos e descritos por meio de gestos. Porem, pelo fato dos gestos somente indicar objetos simples e fáceis de descrever, em se tratando de uma descrição mais detalhada de um objeto mais complexo, há a necessidade de articulação dos sons emitidos pela voz para que de fato haja relação entre os objetos descritos e as ideias correspondentes a eles. Entao, em uma perspectiva socializadora da linguagem, a substituição dos gestos pelos sinais emitidos pela vocalização é uma atividade que necessariamente deve ser consenso entre os homens.
Com efeito, desdobrando mais sobre o desenvolvimento da linguagem, a análise de Rousseau implica em uma semântica ao atentar para a decomposição da linguagem nos “homens selvagens”. Dessa forma, nos homens primitivos, o significado das palavras era muito mais extenso do que a significação que atribuímos ao vocabulário das línguas já formadas. Em detrimento do desprezo do homem primitivo em relação às partes constituintes da linguagem, a significação de uma afirmativa consistia somente no sentido da proposição inteira, ou seja, o conjunto dos sinais instituídos articulados através da voz era somente compreendido em sua totalidade, não restando a possibilidade, portanto, de significados em sinais isolados. Contudo, a sofisticação da linguagem primitiva foi se estabelecendo ao passo em que começaram as distinções entre o sujeito do predicado, o nome do verbo. Neste estágio mais complexo da formação da linguagem já se era possível fazer referência a um objeto particular através de nomes próprios e, portanto, também já se era possível atribuir adjetivos aos nomes. Evidentemente, essas atividades no seio da linguagem exigiu um grande esforço do homem, onde as abstrações são operações difíceis e penosas e pouco naturais.
É precisamente nesta fase de formação da linguagem que eu destaco a originalidade e a contundente filosofia da linguagem em Rousseau.
Como já expresso acima, Rousseau afirmou que nesta fase de formação da linguagem já se era possível fazer referencia a um objeto particular com um nome próprio. Entretanto, os objetos denotados continham sua significação sem relação de gêneros e de espécies, pois os indivíduos que manipulavam as línguas não estavam em condições de distinguir as características mais elementares de cada objeto. Em suma, através das análises rousselianas acerca da origem da linguagem, me arriscaria dizer que é precisamente na possibilidade de denotarmos um objeto especifico através de nomes próprios, e na incapacidade de distinguir gêneros e espécie de quaisquer elementos possíveis que nascem, juntamente com a própria linguagem, as noções básicas de lógica. Eu explico:
Rousseau afirma que, para os homens mais primitivos, se um carvalho se chamava A, o outro carvalho se chamava B. Assim, a primeira coisa a ser percebida nessa operação é que as duas coisas não são a mesma independentemente das características ônticas que as constituem. Dessa forma, nascia de forma rudimentar, é claro, as noções básicas do príncipio da identidade, contradição e, consequentemente, do terceiro excluído. Para o homem primitivo, o conhecimento era limitado e, portanto, não se era possível fazer generalizações e muito menos categorizações universais de quaisquer objetos. Para colocarmos qualquer elemento sob denominações genéricas, era necessário atribuirmos a cada elemento suas propriedades e diferenças. Portanto, nas palavras do próprio Rousseau: “Nestes casos, eram necessárias observações e definições, isto é, história natural e metafísica, muito mais do que os homens daquele tempo podiam ter.” (Rousseau, pg. 68). Não obstante, as ideias gerais somente podem ser expressadas como espécie através das palavras, as quais tem o seu significado somente por meio das proposições. Toda assertiva universal, ou toda ideia geral, é um ato puramente intelectual. Mas, ainda, quando a imaginação é introduzida nas ideias gerais, logo torna-se particular. Quando imaginamos uma arvore, por exemplo, é necessário pensarmos em todas as suas características, mesmo contra a nossa vontade. Temos que imaginar se a arvore é grande ou pequena, se contem folhas, se seus galhos são largos, etc. Se, ao contrário, não pensássemos nas características da arvore, esta perderia toda a sua essência de árvore e, portanto, perderia também o conceito e/ou a palavra “arvore”. Ora, como uma palavra pode fazer denotação a um objeto inexprimível ao passo que tal objeto não contem nem sequer uma característica? Para tanto, para empregarmos e estendermos ideias gerais por meio de palavras foi necessário traçar um método a limites muitos estreitos, que, a saber, consistia primeiramente em multiplicar largamente os nomes dos objetos, por não conferir-lhes gêneros e espécies. Foi justamente pela dificuldade de distinção entre gêneros e espécies dos objetos que se foi necessário empregar trabalhos concernentes as experiências, mesmo que sendo muito rudimentares naquela época. Nessa perspectiva, podemos dizer que, para o homem primitivo e sua linguagem, lhe escaparam ideias ligadas as palavras como, por exemplo, matéria, espírito, substancia, figura, movimento, entre outras palavras que tendem a ser universalizadoras. Ate mesmo para filósofos, tais palavras universais são de difíceis conceitualizações; como seria, então, para os selvagens o emprego e operação de palavras que denotam objetos essencialmente metafísicos que não estão disponíveis em nenhum modelo da natureza?
Nesse ponto, Rousseau suspende suas observações acerca do nascimento da linguagem, uma vez que ele se diz horrorizado com tantas dificuldades que se multiplicam em detrimento do quanto tempo e quantos conhecimentos foram necessários para encontrarmos os números, as palavras abstratas, todos os tempos dos verbos, a sintaxe, as proposições e toda a forma lógica do discurso.
O meu intento ao analisar as concepções de Rousseau acerca da origem da linguem foi o de demonstrar que o nascimento das línguas estão intrinsecamente conexos com os conceitos metafísicos “universais” e “particulares”, onde os nomes que lhe são atribuídos são criados a partir da distinção de espécie e gêneros dos objetos a serem denotados, embora alguns possam atribuir tal análise ao nominalismo grosseiro. Quaisquer que seja a origem da linguagem, e qualquer que seja a natureza dos problemas metafísicos, as palavras articuladas por intermédio das proposições, que lhes conferem um sentido, é um indispensável caminho ( e não o único, é claro) a percorrer para exprimir os pensamentos do homem.
Referências:
ROUSSEAU, J. Jacques; Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre Homens; Ed. Martin Claret (2005)
__________
Texto: Marcelo Frias
(Licenciando em Filosofia)
 CEUCLAR
Publicado Originalmente em (CLIQUE AQUI
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