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Uma breve história sobre as eleições francesas

Após 17 anos os socialistas retornam ao poder na França em um período de forte recessão econômica na União Europeia e com crescentes taxas de desemprego. François Hollande, um tecnocrata que vivia na estrutura do moderado esquerdista Partido Socialista Francês, surgiu como principal candidato do PSF após ganhar de sua ex-esposa nas primárias partidárias e do isolamento de Dominic Strauss Kahn, acusado de estupro enquanto dirigia o FMI.

Nos últimos anos a União Europeia está em um crescente desmonte do welfare-state. O welfare-state que surgiu após a Segunda Guerra Mundial e se baseou em uma política keynesiana de aumento da proteção social por parte do Estado, visando conter a influência vermelha que soprava do Leste Europeu e encontrava força no centro da Europa através dos inúmeros partidos comunistas ligados a Moscou, iniciou o seu declínio após o fim do socialismo real na década de 90 e a imediata substituição da ideologia hegemônica mundial pautada no Consenso de Washington e na globalização.

Assim, os franceses (e toda a UE) viram na segunda metade da primeira década do milênio, suas vidas se tornarem cada dia menos protegidas pelo Estado e cada vez mais substituída por um programa liberal influenciada por Sarkozy e sua companheira alemã, Ângela Merkel. Paralelamente a esse período, duas novas tendências demográficas surgiam na França: o surto populacional da comunidade islâmica e o aumento de estrangeiros provindos de locais mais pobres da zona do euro.

Após a crise de 2008 e a grande debilidade que esta trouxe a UE, viu-se ressurgir – com relativa força – a extrema direita marcada por uma propaganda de: aversão ao estrangeiro, o fechamento de fronteiras da UE e o fim do euro.

Assim formou-se o cenário das eleições francesas de 2012: a extrema-direita marcada por sua candidata Marina Le Pen, a direita conservadora com Nicolas Sarkozy, a centro-esquerda trabalhista com o François Hollande e a esquerda (em coalisão) Jean-Luc Mélenchon. As eleições de 2012 representaram um choque de tendências resultantes da crise que as potências centrais da Europa (no caso a França) vêm sofrendo, o que fez ressurgir com mais força ideários políticos que pareciam esquecidos pela história e colocando, em certo ostracismo, partidos que vinham se estabelecendo-se como novas tendências (o partido dos verdes e as facções anti-globalização).

A acirrada votação que colocou Hollande na chefia do Estado francês pode ser comparado a que colocou Obama na presidência dos EUA: a busca de um novo modelo pois o da base partidário do antigo candidato já se mostrava gasto e/ou ineficiente para a população. Ambos estão em partidos classificados como mais “progressistas” pelo eleitorado de seus respectivos países, representando novos modelos.

Nessa comparação não podemos esquecer que após quatro anos de administração Obama, muitas de suas maiores promessas de campanhas foram substituídas por antigas práticas viciantes de administrações passadas. Se Hollande irá representar realmente um novo projeto de governo no intuito de tirar a França de suas crescentes taxas de desigualdade social e austeridade econômica, que abrem precedente para o fortalecimento da extrema-direita e seu projeto ufanista, o decorrer de seu mandato nos mostrará. Uma premissa inicial podemos dizer: nesta segunda feira (lundi, 6 mai) Paris amanhecerá um pouco mais vermelha.

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Texto: Daniel Souza
Bacharelando em Relações Internacionais (UNIFESP)

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