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A BUSCA DE UMA EXPLICAÇÃO

Texto de introdução à PARTE 1 – DA VERTIGEM PARA A LINGUAGEM (Livro “Quem Tem Ouvidos”).

De muitas maneiras podemos definir o ser humano. Uma delas depreende-se de sua denominação científica: homo sapiens. Ou seja, homo de húmus, de terra fértil. Porém, terra pensante, que sabe, que possui conhecimento. Outra seria, como fez Henri Bergson, chamá-lo de homo faber, ou seja, “húmus que fabrica”, que constrói um mundo alternativo ao encontrado por ele.
E assim, sucessivamente, poderíamos defini-lo de inúmeras maneiras. Todas elas, certamente, aspectos de um mesmo todo que é o ser humano.
Uma característica, no entanto, queremos destacar de início. A que faz do ser humano um eterno questionador. Desde que acordou do sono da inconsciência, ao que parece, pergunta-se: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Qual o sentido da vida? É a morte o fim de tudo? Pergunta e não descansa enquanto não responde, mesmo que sejam respostas fantasiosas.
Pois a maioria – ou mesmo a totalidade – de nossas respostas prende-se ao terreno das crenças. Assim, perguntamos o que somos e respondemos de múltiplas maneiras: que somos resultado de uma evolução do reino animal, e nada mais; que somos seres racionais, pensantes; ou, ainda, que somos filhos de Deus, que nos fez à sua imagem e semelhança. Perguntamos qual o sentido da vida e se a morte é um fim, e respondemos igualmente de muitas e distintas maneiras: que a morte é apenas uma etapa e depois dela virá outra possibilidade (e aqui poderemos responder igualmente de muitas maneiras, conforme nossa crença místico-religiosa) ou que a morte é o fim de tudo e não há mais nada além da vida presente. A rigor qualquer das alternativas escolhidas se equivale no nível da crença, pois não temos condições de comprovar nenhuma delas, principalmente no que se refere às questões fundamentais da existência.
Dissemos acima que, quem sabe, a totalidade de nossas respostas se constituem em meras crenças. Isso equivale a dizer que todas as nossas certezas são relativas. Tomemos o exemplo de nosso mundo, como nós o percebemos. É possível que ele não seja da forma como nós acreditamos que ele é. Pode suceder, como já aventou René Descartes, que nossa percepção nos engane, que estejamos sonhando sem saber, ou que alguma entidade superior nos iluda, induzindo-nos a acreditar ser real algo que de fato não é. Ou pode suceder igualmente que existam outras realidades, que estão inacessíveis à nossa percepção do momento. Ou seja, não temos condições de afirmar com certeza a realidade de nosso mundo concreto, nem que outras realidades não existam. Podemos no máximo dizer, diante das evidências que temos, que acreditamos que as coisas sejam da maneira como as representamos em nossas mentes, e que nada mais há além disso. E se nós acreditamos, é por que somos crentes. De tal sorte que, neste particular, a única posição que se sustenta é a do agnosticismo. Ou seja, aquela posição que não afirma nem duvida de nada. Pois as evidências que temos só podem nos garantir isso: que não temos certeza de nada, portanto, podemos somente crer. Ou não crer, que é outra forma de crer.
Porém, a posição do agnosticismo parece não nos satisfazer de todo, pois precisamos de certezas para viver no cotidiano de nossas vidas. Apesar de sabermos que nossas explicações são limitadas e que talvez jamais consigamos transpor tais limitações, não podemos deixar de formulá-las, pois tais formulações fazem parte de nossa concepção de mundo, que é onde apoiamos todas as nossas certezas e todas as nossas ações. A posição agnóstica conduziria a uma dúvida permanente, uma virtualidade de nosso mundo concreto, que fatalmente tornaria nossa vida sem sentido, já que o sentido desta é umbilicalmente ligado à crença. Para evitar este vazio, a natureza impulsiona o ser humano a crer, a explicar mesmo aquilo que não pode. E, mesmo que sua explicação seja de que nada mais há além do que os olhos veem, e ponto final, ela é sem dúvida uma construção de mundo, baseada numa crença. De tal sorte a nivelar os fervorosos religiosos e os fervorosos ateus. Empenhados ardorosamente em afirmar seu ponto de vista, perdem a lucidez que lhes mostraria que não podemos, a rigor, afirmar nada com certeza. Mas por que são (ou somos) fervorosos? Porque disso depende nossa construção de mundo. Pois, se adiantasse plenamente para nós a solução do agnosticismo, tudo estaria resolvido. Mas não nos adianta, pois somos compelidos a crer. Mesmo que seja a crer na descrença total!!!!
Alguém poderia discordar deste ponto de vista e sustentar que todas estas considerações são vazias, e que o mundo se resume a ser aquilo que vemos e tocamos, e nada mais. Que toda a nossa especulação e busca por mundos que não existem se devem à não aceitação de uma verdade nua e crua: nós vamos morrer e nada mais restará ao final, por mais que isso seja duro de admitir. E que a descrição de mundo que nos permite a razão nos mostra exatamente isso, e tal descrição é bastante clara e não deixa dúvidas a respeito.
Tentemos seguir o curso de um pensamento desse tipo, levado até as últimas consequências. Chamemos o defensor desta posição de Sr. E, E de empírico (pois ele acredita unicamente na realidade do mundo como o vemos e constatamos empiricamente). O Sr. E poderia sustentar que vive sem necessitar acreditar em nada que não possa aferir por seus sentidos, ou que possa ao menos ser aferido pelos sentidos de um ser humano hipotético. E que sua concepção de mundo se baseia neste princípio, e é uma concepção de mundo bastante aceitável e clara. Neste caso, quando o Sr. E diz “mundo”, ele está se referindo, em sua própria suposição, ao que qualquer ser humano entenderia por mundo, ou seja, aquilo sobre o qual apóia seus pés, que se constitui num planeta mais ou menos esférico, pertencente a uma constelação de outros planetas e corpos sólidos mais ou menos esféricos, num universo que se alastra pelo espaço físico até seus confins, que o Sr. E não saberia dizer onde é, mas supõe ser muito longe, pois não consegue enxergar com seus olhos nem com os potentíssimos aparelhos desenvolvidos pelas ciências, das quais o Sr. E é um caloroso entusiasta. Nem tampouco – pasmem – consegue o Sr. E vislumbrar intelectualmente um possível fim físico de seu “mundo”. Perguntado sobre o que vem depois do fim de seu mundo, o Sr. E diz não saber, nem conseguir vislumbrar uma explicação. Mas que sua proposta original, de conseguir viver sem crer em nada que não seja percebido pelos sentidos, está salva, pois não acredita em nada depois do fim de seu mundo.
Ainda que este “nada” que existe no incompreensível fim do mundo do Sr. E tenha ficado pouco claro, ele aqui parece registrar uma vitória. Porém, perguntado se todo o ser humano, no espaço e no tempo, tem esta mesma concepção de mundo, ou seja, o modelo planetário de mundo, o Sr. E, que é uma pessoa muito instruída, diz que não, pois no passado recente o ser humano acreditava que a Terra era plana. E no presente mesmo, alguns povos, tais como os aborígenes (e até grande número de norte-americanos, conforme pesquisas recentemente divulgadas), ainda pensam desta forma. Mas eles assim pensam, segundo o Sr. E, por serem ignorantes, ou seja, por ignorarem a verdadeira realidade do mundo. Pois, argumenta o Sr. E, qualquer ser humano esclarecido sabe que o mundo é assim como ele mesmo entende que é: um conjunto de planetas mais ou menos esféricos a girar sem parar, até onde possamos imaginar.
Dizemos para o Sr. E que um hipotético habitante de um povo que pensa a Terra plana não concordaria com ele. E perguntamos como convenceria o mesmo a mudar de ideia. O Sr. E diz ser esta uma tarefa simples: ele levaria tal aborígene a uma hipotética viagem espacial, onde ele poderia ver com seus próprios olhos como é o mundo afinal. Mas nós aventamos que talvez o aborígene se negasse a entrar na hipotética nave. Neste caso, diz o Sr. E, poderíamos mostrar a ele, num nível meramente reflexivo, as contradições de sua Terra plana e a dificuldade de explicar a totalidade dos fenômenos observados através de tal modelo. E como a realidade se conforma imensamente mais com o modelo planetário. Mas para isso, diz o Sr. E, tal hipotético habitante teria que fazer elaborações intelectuais as quais teria grandes dificuldades em compreender, pois sua capacidade de abstração é limitada. Ademais, teria de se desfazer de crenças e superstições arraigadas. Porém, ainda segundo o Sr. E, uma vez que conseguisse vencer tais limitações, é possível que aceitasse de bom grado fazer aquela viagem espacial, que o levaria afinal a aferir por seus próprios olhos a realidade do mundo, ainda que a hipotética nave não pudesse nunca carregá-lo ao “nada” que vem ao final de tal mundo “real”.
Neste caso, poderíamos perguntar ao Sr. E: Será que o não fim de seu mundo não seria também uma contradição do mesmo tipo que ele aponta no “falso” modelo da Terra plana, que uma outra concepção de mundo poderia sanar? E se para compreender esta outra concepção ele, Sr. E, não necessitaria justamente mudar sua forma de pensar, desfazendo-se de crenças e superstições arraigadas? E se ele também, Sr. E, por suas ideias fixas, talvez não tenha muitas vezes perdido a chance de fazer uma viagem que o poderia levar, afinal, ao incompreensível fim de seu mundo? E, ainda, se a superação de seus preconceitos arraigados não o poderá levar um dia de bom grado a embarcar nessa nave e fazer essa viagem? E antes que ele possa responder aos questionamentos, nós explicamos ao Sr. E que o presente livro foi justamente escrito com o intuito de demovê-lo de suas ideias fixas a respeito do mundo, e convencê-lo de que existe uma nave à sua espera, e uma viagem por fazer. Ouvindo isso, o Sr. E talvez levasse um susto. Mas, como é uma pessoa muito instruída, é provável que, após o susto inicial, ele pondere ser possível algo assim, e então deixe a curiosidade abrir uma pequena porta.

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Do livro “Quem Tem Ouvidos – Um Salto  do Pensamento para o Inconcebível” de João Batista Mezzomo – Editora Besourobox (Enviado pelo Autor).

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