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Consciência: visões de Nietzsche e Freud

Friedrich Nietzsche, no Aforismo 354 de “A Gaia Ciência”, afirmou que “consciência em geral só se desenvolveu sob a pressão da necessidade de comunicação”. Para o filósofo a necessidade de viver em sociedade, chamada por ele de rebanho, levou o homem ao desenvolvimento da linguagem e da consciência, no sentido de tomar consciência de si. O pensador caracteriza consciência como uma rede de ligação entre homem e homem, que por meio de um reinado do “é preciso” nos levou a conseqüência de levar à consciência as nossas ações, sentimentos e movimentos.

Nietzsche estabelece que tomamos consciência apenas de uma parte desse processo, uma parte mínima e superficial, a qual ocorre em palavras, tornadas elementos de comunicação. Ao que Sigmund Freud explicou afirmando que “o conteúdo da consciência é muito pequeno, de modo que a maior parte do que chamamos conhecimento consciente deve permanecer, por consideráveis períodos de tempo, num estado de latência, isto é, deve estar psiquicamente inconsciente”.

Os dois autores definem que a consciência é uma parte superficial e mínima do nosso conhecimento, a parte desconhecida por nós foi nomeada por Freud como inconsciente. Ao determinar inconsciente como conhecimento em estado de latência, ele determina que este conhecimento pode ser acessado por nós, uma vez que há inúmeros pontos de contato com os processos conscientes:

“sabemos que possuem abundantes pontos de contato com os processos mentais conscientes, com o auxílio de um pouco de trabalho podem ser transformados em processos mentais conscientes ou substituídos por eles,e todas as categorias que empregamos para descrever os atos mentais conscientes, tais como idéias, propósitos, resoluções, e assim por diante, podem ser aplicadas a eles.” FREUD

Para Nietzsche a força da arte e da comunicação pouco a pouco acaba por gerar um excedente, o qual deverá ser utilizado por aqueles que dominam os signos lingüísticos, como artistas e oradores. É como se a força da comunicação acabasse por ampliar o que se torna consciente nos pensamentos do homem, proporcionando assim a recriação da linguagem: “O homem inventor de signos é ao mesmo tempo o homem cada vez mais agudamente consciente de si mesmo [..]”.

O trabalho árduo de recriação lingüística descrito por Nietzsche acaba por ser um dos pontos de contato ao inconsciente descrito por Freud. O que permitiria ao homem ser cada vez mais consciente de si, de sua individualidade, afastando-se desta forma do consciente coletivo, do chamado rebanho.

Para Freud caberia a psicanálise auxiliar o homem a acessar seu inconsciente, compreendendo assim, o processo de recalques que o impede de tomar consciência amplamente de suas significações. Acessar o inconsciente é mergulhar em um universo, ainda não recalcado pelo rebanho nietzschiano, é ser capaz de se reconhecer enquanto indivíduo, mesmo fazendo parte de um mundo coletivo, no qual os recalques são inseridos socialmente e acabam por padronizar nossas ações e pensamentos. É exatamente ao padrão social que o filosofo chama de atitudes de rebanho, aquelas já incorporadas e que estão impregnadas no consciente:

“Nossas ações são, no fundo, todas elas, pessoais de uma maneira incomparável, únicas, ilimitadamente individuais, sem dúvida nenhuma; mas, tão logo as traduzimos na consciência, elas não parecem mais sê-lo…” NIETZSCHE

 Logo, se a consciência foi criada pela necessidade do homem e acabou por aprisioná-lo em um rebanho, impedindo que desenvolvesse sua individualidade, é por meio da ampliação dessa mesma consciência que o homem acaba por encontrar sua individualidade, e como alguém único, desrebanhado, acaba por ser capaz de recriar os signos lingüísticos, dando a eles novos significados, ou seja, ressignificando seu próprio mundo.

Outra síntese:

Devaneios aforidos
ou Influências Nietzschianas

Perdulariamente as ideias brincam
com o excesso da razão
gerando herdeiros da consciência.

Trazem ao mundo
– os pescadores do inconsciente –
um novo alimento
de sabor amargo,
capaz de dizimar rebanhos
e reviver a arte.
Recolhem os restos
os tornando novamente belos.

Enraizados no corpo
nossos desejos,
suprimidos pelo mundo,
são resgatados por gestos e olhares
dos pescadores profundos
mergulhados em mares solitários

Referências:

FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos: O Inconsciente. Imago Editora. Rio de Janeiro.

NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas: Aforismo 354. Abril Cultural, São Paulo 1983.

_____________
Texto: Daiana Fonseca
(Formada em Pedagogia, Letras e Filosofia) 

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