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Procedimentos da Filosofia Clinica frente a Moral do Sofrimento

COMO SE DÃO OS PROCEDIMENTOS DA FILOSOFIA CLINICA

FRENTE A MORAL DO SOFRIMENTO[1]

Proponente: Rodrigo Mendes Rodrigues (Especialista em Filosofia Clínica – IP/Pde. João Bagozzi –  Especializando em Filosofia Contemporânea – Ética / UFSJ – BOLSISTA INICIAÇÃO CIENTIFICA – PIIC)

Orientadora: Prof.Marta Claus  (Filosofa Clínica – IP/Pde. João Bagozzi)

Resumo: O escopo desse trabalho é investigar quais são os procedimentos adotados na Filosofia Clínica, frente a possibilidade de um partilhante apresentar como dado relevante de sua historicidade o sofrimento moral. Doravante, pretende-se, abordar o código de ética do filosofo clínico como orientador do caso singular dos limites da senciência. Ainda, buscaremos subsídios para o debate da moral do sofrimento no  texto A importância moral do sofrimento In. Ética Prática do filósofo australiano Peter Singer.

Palavras-chave: Filosofia Clínica, ética, moral do sofrimento.

Início este trabalho, ou melhor, este desafio em que se instaura o difícil processo de relacionar a moral do sofrimento (ética prática) apregoada pelo filosofo australiano Peter Singer e os métodos de abordagem da Filosofia Clínica frente a um partilhante que por ventura apresente em sua historicidade o sofrimento como dado relevante.

Para tanto acredito que antes de mais nada se faz necessário descrever como se dá a obra de Peter Singer, um filosofo contemporâneo tão distante de nossos estudos acadêmicos.

A obra de Peter Singer tem contribuído decisivamente para a reflexão filosófica sobre questões morais práticas. Como filósofo, Singer rompeu as fronteiras do mundo acadêmico e desafiou algumas das convicções morais mais difundidas. Embora escreva de uma forma extremamente clara e direta, tem sido alvo de incompreensões  grosseiras, sobretudo no que diz respeito às suas perspectivas sobre a eutanásia. Foi silenciado de diversas maneiras na Alemanha, na Suíça e na Áustria. Recentemente, a sua admissão em Princeton foi muito contestada, suscitando uma vaga de reações “histéricas”. É raro um filósofo estar no centro de tanta agitação. Tal situação deve-se ao fato de Singer lidar com questões de vida e de morte as quais ninguém consegue ficar indiferente. E, o que pode tornar incomodativo, é que é bom naquilo que faz. Ética Prática, sem dúvida um de seus livros mais importantes, está agora nas nossas livrarias para nos fazer pensar e, eventualmente, para nos fazer mudar o modo como vivemos.

O pensamento de Singer baseia-se na perspectiva teórica do utilitarismo, fundada no século passado por Bentham e Sthuarth Mill. Para os utilitaristas, agir bem é uma questão de produzir as melhores conseqüências, apreciando as situações de uma forma inteiramente imparcial. Isto corresponde a agir de modo a maximizar o bem-estar dos seres afetados pelas nossas ações. Na versão do utilitarismo aceito por Singer, concebe-se o bem-estar de um ser em termos da satisfação dos interesses desse ser.

Singer defende o utilitarismo no sentido aplicado à igualdade e às suas implicações. Propondo o princípio da igualdade na consideração de interesses, que ‘exige que se atribua o mesmo peso, nas nossas deliberações morais, aos interesses semelhantes de todos os afetados pelas nossas ações’. Este princípio utilitarista é apresentado como a melhor maneira de entender a idéia da igualdade entre os seres humanos, e é utilizado ao longo de toda a sua obra para enfrentar as mais diversas questões práticas que envolvem não só seres humanos, mas também animais não humanos.

Singer pensa que, depois de aceitarmos o princípio da igualdade na consideração de interesses para os seres humanos, temos que alargar o seu âmbito de modo a levar em conta os interesses dos animais. Esta tese, desenvolvida, implica mudanças profundas no modo como tratamos os animais, sobretudo na realização de experiências e na nossa alimentação. Ela conduz, por exemplo, à defesa de um estilo de vida vegetariano.

O filosofo, aliás, considera errado atribuir um estatuto superior à nossa espécie. Fazer isso é ser especialista, ou seja, é fazer uma discriminação baseada na espécie, tão indefensável como o racismo. Sobre sua ética prática, Singer declara que, se há algum aspecto

que o distingue de outras abordagens de temas como a igualdade humana, o aborto, a eutanásia e o ambiente, é o fato de esses temas serem analisados com uma rejeição consciente de qualquer pressuposto de que todos os membros da nossa espécie têm, apenas por serem membros da nossa espécie, qualquer valor distintivo ou inerente que os coloque acima dos membros de outras espécies.[2]

A distância de Singer em relação à ética tradicional acentua-se quando se levanta a questão: “Qual é o mal de matar?”, se rejeita a doutrina da santidade da vida humana, que atribui um valor único à vida de qualquer elemento da nossa espécie. Se matar um ser humano é geralmente muito pior que matar um animal não humano, pensa Singer, isso não se deve a um estatuto superior da nossa espécie, mas ao fato de a maior parte dos elementos da nossa espécie serem pessoas, ou seja, seres “auto conscientes” e “racionais”. Neste sentido, os fetos humanos são seres humanos, mas não pessoas.

Lidando e seguindo sempre uma perspectiva não especialista, com problemas delicados sobre o valor da vida e o mal de matar, Singer examina dois temas de grande importância prática: o aborto e a eutanásia. Em ambos os casos argumenta contra a perspectiva conservadora, que considera imoral tanto o aborto como os vários tipos de eutanásia.

Continuando a basear-se no princípio da igualdade na consideração de interesses, Singer avança para outro tipo de problemas práticos. Como devemos enfrentar o fato de milhões de pessoas viverem em pobreza absoluta? Que política se deve adaptar em relação aos refugiados? Como devemos lidar com o ambiente? Ao investigar estes problemas, uma vez mais Singer faz tremer dogmas muito acarinhados, como o de que ajudar os que vivem longe em pobreza absoluta, embora seja louvável, não é estritamente uma obrigação moral.

Com o seu regressar gradualmente a temas mais teóricos, num percurso que termina abordando a questão: Será que a vida tem sentido? Note-se que, mesmo ao abordar um tema como este Singer não prescinde da sobriedade e do rigor conceptual e factual que sobressaem ao longo de sua proposta filosófica. Tais características fazem com que o leitor das obras de Singer, caso não concorde com a perspectiva defendida, perceba exatamente por quê. Fazem também com que muitas vezes seja difícil discordar dos argumentos apresentados.

Agora no que concerne a propósito da Filosofia Clinica, poderíamos de antemão mencionar que a característica daquele que pratica a filosofia clinica, ou seja, o portador do certificado A ou certificado B em processo de estágio, deve apresentar a epóque husseliana, a isenção e suspensão de juízos em uma perspectiva de respeito a singularidade do partilhante em questão.

Mas infelizmente a resposta à questão que buscamos aqui abordar não se apresenta tão fácil assim. Primeiramente todos os seres, animais humanos ou não, apresentam como dado universalizante a senciência, a saber, mesmo que o termo apresente-se em forma de uma abreviatura conveniente, ainda que não estritamente precisa, da capacidade de sofrer ou de sentir prazer ou felicidade, mas adequadamente no sentido físico[3]. Dessa forma aqueles que estão sentados em nossa frente, os partilhantes, apresentam uma busca que se integra numa relação senciente ou para consigo mesmo, para com o outro, para com o mundo, ou ainda numa mescla dessas opções.

Não se pretende aqui aplicar um reducionismo a propósito do método clínico em si. Mas abordar, talvez, uma relação universalizante não somente do animal homem, mas de todos os animais.

No entanto, levantam-se algumas objeções com relação a propostas de Singer. Como se deve portar um profissional frente a um partilhante que realize em seu relato, práticas que se manifestem contrárias às normas legais institucionalizadas?

São questões que não se encontram bem definidas nas normas éticas da Filosofia Clinica. Como o profissional deveria abordar questões como o aborto, a eutanásia e ou assassinato? E ainda levanta-se outra questão, em que devemos como profissionais encarar todo o relato como verdadeiro, nem que seja em um sentido subjetivo, não real, pois é parte da historicidade, e dessa forma verdade para o partilhante. Mas como encarar um relato na perspectiva que a legalidade se ampara em fatos verídicos e prováveis?

Estas são algumas questões que aqui me debruço sem, no entanto trazer uma resposta, mas sim de levantar argumentos para a construção de um debate local e nacional.

Concluo está apresentação trazendo um ponto de vista individual e no que se refere à ética prática todas as questões levantas por Singer devem ser analisadas com respeito e cuidado. Posiciono-me, se não deveríamos também buscar realizar um proposta ética, mais ampla em que ampliássemos a toda esfera do vivo, abordando o todo na perspectiva da Mãe Gaia, mãe Terra, ser biologicamente vivo Em que o ser humano seria nada mais que um representante desse todo em que desequilibra e busca sempre um olhar para si mesmo. Precisamos realizar uma revolução copernicana que se estenda a esfera biológica, desprezando a perspectiva de seres superiores em que o criador criou os animais, plantas e tudo o mais, para nossa manutenção. Estendendo dessa forma o discurso ético da filosofia clínica a patamares mais amplos, mais modernos, da ética como prática da vida aplicadas a todas as formas de vida não somente as consideradas “racionais”.

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http://www.filosofiaclinica.com.br <acessado em 18 de novembro de 2005>


[1] Trabalho apresentado como comunicação na VIII Semana de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ, em 23 de novembro de 2005.

Publicado como artigo  na Revista Nacional de Filosofia Clinica, Instituto Packter, Porto Alegre em novembro de 2005. <www.filosofiaclinica.com.br>

[2] SINGER, Peter. Ética Prática. Álvaro Augusto Fernandes (trad.) Martins Fontes: São Paulo, 2005, p.

[3] SINGER, Peter. Ética Prática. Álvaro Augusto Fernandes (trad.) Martins Fontes: São Paulo, 2005, p.

___________
Texto: Rodrigo Mendes Rodrigues
,
Graduado em filosofia (UFSJ), pós graduado em gestão escolar, filosofia contemporanea – Ética (UFSJ) e Filosofia Clínica.  Docente da Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista (FESB) e de escolas da rede particular e pública.

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