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A Ditadura Escancarada

A Ditadura Escancarada[1] é o segundo volume da Série “As Ilusões Armadas”, que engloba os cinco livros escritos pelo jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar.

Neste livro, o autor relata o período que vai do ano de 1969, um pouco depois do decreto do AI-5 até o extermínio da Guerrilha do Araguaia em 1974. Elio classifica este período como o mais duro da repressão militar, marcado por uma grande desordem nos quartéis e a violência nas prisões durante os denominados “Anos de Chumbo”.

Ao mesmo tempo que conviveu com os “Anos de Chumbo”, a população brasileira viveu uma época marcada pela euforia do tricampeonato mundial de futebol conquistado na copa de 1970, obras como a construção da Ponte Rio- Niterói e a Rodovia Transamazônica, isso sem mencionar o milagre brasileiro.

O livro é dividido em quatro partes, que estão subdivididas em 22 títulos, nos quais Gaspari disserta sobre a anarquia no interior das Forças Armadas e o uso da tortura como instrumento de poder até o extermínio da Guerrilha do Araguaia.

Na primeira parte “O Choque”, Gaspari escreve sobre a tortura praticada pelo governo para combater a esquerda revolucionária, a necessidade de um braço armado para atingir com rapidez os grupos de luta armada ( a Operação Bandeirante ) e suas ações de perseguição e as prisões dos opositores do regime, o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, e a anarquia no interior das Forças Armadas, gerada pela sucessão de Costa e Silva na sua doença e impedimento decontinuar na presidência. Ele encerra esta parte do livro falando sobre a chegada de Médici ao poder e o início do seu governo.

Na segunda parte, o autor relata ao longo de cinco títulos, a trajetória de Carlos Marighella como comandante da Aliança Libertadora Nacional e mentor de assaltos e seqüestros, a deserção do capitão Carlos Lamarca que fortaleceu a guerrilha, tornando-se o comandante da Vanguarda Popular Revolucionária, com a qual permaneceu até ser morto em 1971 no sertão baiano. Nesta parte do livro, Elio Gapari ainda disserta sobre a prisão dos dominicanos acusados de envolvimento com Marighella em novembro de 1969 e a criação do DOI ( Destacamento de Operação e Informação ) , e a história dos mortos e torturados pelos órgãos de repressão do governo militar.

No item “A ratoeira”, o jornalista fala sobre a armadilha que o governo fez para acabar com o foco urbano da guerrilha e resolver o problema de combate ao terrorismo no país. Ele encerra a parte falando sobre o milagre econômico, muito propagado pelo regime e a mordaça, a grande censura aos meios de comunicação, que foi o mais longo período de censuranaHistória do Brasil independente.

Na terceira parte, o autor nos apresenta a Igreja Católica lutando em defesa dos direitos humanos através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ( CNBB ), e o aniquilamento da elite brasileira, que fez com que o regime militar acabasse com uma grande geração de políticos do nosso país, com as cassações e suspensões de direitos políticos.

No segundo item, o jornalista nos mostra como o regime militar via na militância dos padres da igreja a soberba de Lúcifer, e a Igreja via na violência do regime a mesma soberba. Um acusava o outro. Ainda neste item, Gaspari relata a perseguição à Igreja Católica por parte dos militares, e a posição de Dom Hélder Câmara contrária à ditadura. Ele é considerado a maior figura política da História da Igreja no Brasil.

No item “O Brasil difamado”, o autor apresenta a visão que os outros países tinham do Brasil, um, país onde se torturava e matava. Jornais como o The New York Times, Le Monde e The Times, publicavam nos Estados Unidos, França e Inglaterra, as notícias do porão brasileiro. Além das notícias publicadas em jornais estrangeiros, Dom Hélder fez um discurso emParis, pedindo ao povo que dissesse ao mundo que no Brasil torturavam pessoas. Ele lançou-se num combate direto ao regime.

Nos dois itens seguintes “Pra trás Brasil” e “Nada a Fazer”, Gaspari fala sobre as denúncias da CNBB sobre as torturas e a censura que proibiu a fala do Papa Paulo VI, a derrota do Movimento Democrático Brasileiro ( o partido de oposição ) nas eleições para o Legislativo de 1970 e oelogio do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon a Médici, apontando-o como o maior presidente da História do Brasil.

No último item desta parte, o escritor nos relata a marcha de Carlos Lamarca após a morte de Carlos Marighella, em que o próprio dizia aos companheiros da vanguarda Popular Revolucionária, que o grupo estava esvaziando até morrer no sertãobaiano em 1971.

A última parte, Elio destina ao envolvimento de oficiais das Forças Armadas em contrabando, a corrupção e a impunidade entre os órgãos de segurança, a tortura usada como política de Estado, e encerra o livro falando sobre o extermínio da Guerrilha do Araguaia.

A leitura de “A Ditadura Escancarada” é muito interessante, pois revela as dificuldades do Brasil durante os “Anos de Chumbo”, as articulações dos grupos de esquerda, as guerrilhas e a repressão do governo, que utilizava a tortura para combater o terrorismo e a oposição, além da anarquia que atingiu ointerior das Forças Armadas neste período. Ler sobre a temática abordada no livro deve serum compromisso de todos aqueles que desejam saber um pouco mais sobreos “Anos de Chumbo”.


[1] GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 ( As ilusões Armadas ).

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Texto: Danilo Freire
(Graduado em Filosofia)
 UNIFAI

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