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A Educação e o Mito de Platão

Este pequeno ensaio, objetiva mostrar a educação na perspectiva de Platão exposto no Livro VII de A República. Platão sempre usou a analogia para expor suas idéias, todavia, no Livro VII de A República ele usou deste recurso para tratar do problema do conhecimento, ou seja, sua perspectiva epistemológica sobre o conhecimento, desde o conhecimento sensível até o conhecimento inteligível.

Esta mesma analogia pode ser usada sob o ponto de vista da educação, fundamentalmente da sua proposta de educação de homem grego. O ideal de educação platônico, como na maioria dos pensadores gregos, é intrinsecamente ligado à política e a política não é uma questão de opinião, mas sim uma questão de saber. O saber emPlatão é, constitui na saída do mundo sensível em direção mundo inteligível sendo a dialética a principal via para tal fato. Assim o governante é aquele que atingiu todos esses graus da formação, estando apto a governar o Estado.

Portanto, não devemos ver o platonismo como um corpo de verdades eternas. O que é fundamental na história da filosofia são os problemas levantados por um pensador, várias respostas são dadas ao longo da história, como se vê, por exemplo, em Platão, que levanta as seguintes questões: qual o melhor tipo de governo? Qual o melhor processo educativo?

Nesta perspectiva, o fato de uma doutrina ser historicamente recuada no tempo não implica que ela deixe de ser atual. As filosofias não somente são produtos da história, mas também são criadoras de história. A filosofia de Platão pertence, sem dúvida alguma, a essa espécie. O que importa nisto é que o pensamento de Platão cunhou novas maneiras de pensar, não somente de maneira filosófica, mas também de maneira científica, bem como o surgimento de novos paradigmas na moral, política e na técnica que, de certa maneira, estão presentes no nosso modo de pensar governar, educar, etc.

Na República, a organização da cidade ideal fundamenta-se na divisão racional do trabalho. Como reformador social, Platão considera que a justiça depende da diversidade de funções exercidas por três classes distintas: a dos artesãos, dedicados à produção de bens materiais; a dos soldados, encarregados de defender a cidade; a dos guardiães, incumbidos de zelar pela observância das leis. Produção, defesa, administração interna, estas as três funções essenciais da cidade. E o importante não é que uma classe usufrua de uma felicidade superior, mas que toda a cidade seja feliz. O indivíduo faria parte da cidade para poder cumprir sua função social e nisso consiste ser justo: em cumprir a própria função.

A reorganização da cidade, para transformá-la em reino da justiça, exige naturalmente reformas radicais. A família, por exemplo, deveria desaparecer para que as mulheres fossem comuns a todos os guardiães; as crianças seriam educadas pela cidade e a procriação deveria ser regulada de modo a preservar a eugenia; para evitar os laços familiares egoístas, nenhuma criança conheceria seu verdadeiro pai e nenhum pai seu verdadeiro filho; a execução dos trabalhos não levaria em conta distinção de sexo mas tão-somente a diversidade das aptidões naturais.

A efetivação dessa utopia social dependeria fundamentalmente, por outro lado, de um cuidadoso sistema educativo, que permitisse a cada classe desenvolver as virtudes indispensáveis ao exercício de suas atribuições. Mas a cidade ideal só poderia surgir se o governo supremo fosse confiado a Reis-filósofos. Esses chefes de Estado seriam escolhidos dentre os melhores guardiães e submetidos a diversas provas que permitiriam avaliar seu patriotismo e sua resistência. Mas, principalmente, deveriam realizar uma série de estudos para poderem atingir a ciência, ou seja, o conhecimento das idéias, elevando-se até seu fundamento supremo: a idéia do Bem.

A Alegoria da Caverna descreve um prisioneiro que contempla, no fundo de uma caverna, os reflexos de simulacros que, sem que ele possa ver, são transportados à frente de um fogo artificial. Como sempre viu essas projeções de artefatos, toma-os por realidade e permanece iludido. A situação desmonta-se e sai da inércia, desde que o prisioneiro se liberta: reconhece o engano em que permanecera, descobre a “encenação” que até então o enganara e, depois de galgar a rampa que conduz à saída da caverna, pode lá fora começar a contemplar a verdadeira realidade. Aos poucos, ele, que fora habituado à sombra, vai podendo olhar o mundo real: primeiro através de reflexos, como o do céu estrelado refletido na superfície das águas tranqüilas, até finalmente ter condições para olhar diretamente o Sol, fonte de toda luz e de toda realidade.

Essa alegoria assumiu, ao longo da história, múltiplas dimensões, pode ser vista tanto como fabulação da ascese religiosa, como da filosófica e científica, guarda ainda uma conotação política, que o contexto da República não permite esquecer. Aquele que se liberta das ilusões e se eleva à visão da realidade é o que pode e deve governar para libertar os outros prisioneiros das sombras: é o filósofo-político, aquele que faz de sua sabedoria um instrumento de libertação de consciências e de justiça social, aquele que faz da procura da verdade uma arte de desprestidigitação, um desilusionismo.

A construção do conhecimento constitui, assim, no platonismo, uma conjugação de intelecto e emoção, de razão e vontade: a episteme é fruto de inteligência e de amor. Podemos traçar uma linha divisória no pensamento platônico, um lado representando o plano sensível e outro o plano inteligível. Esses dois segmentos apresentam subdivisões correspondentes a diferentes tipos de objetos sensíveis e inteligíveis e, consequentemente, a modalidade diversas de conhecimento: O processo de conhecimento representa a progressiva passagem das sombras e imagens turmas ao luminoso universo das idéias, atravessando etapas intermediárias. Cada fase encontra sua fundamentação e resolução na fase seguinte. No plano sensível o conhecimento não ultrapassa o nível da opinião, a plausibilidade.

A primeira etapa do conhecimento inteligível é representada pela diânoia, conhecimento discursivo e mediatizador, que estabelece ligações racionais: é o conhecimento típico das matemáticas. O conhecimento sensível deve fundamentar-se nesse patamar que lhe está sobrepostoe lhe dá sustentação. Isso significa que, para Platão, numa perspectiva do Renascimento, o conhecimento do mundo físico deve ser constituído como instrumental matemático. Mas os conhecimentos matemáticos não constituem no platonismo, o ápice da ciência. São ainda uma forma de intelegibilidade primeira, marcada por compromissos como plano sensível: as entidades matemáticas são múltiplas. Esta só se alcança quando, além das entidades matemáticas, chega-se à evidência puramente intelectual das idéias. Chega-se assim ao domínio das formas, à dialética que se apresenta como uma matemática, assim a dialética se torna condição sine qua no, ou seja, necessária para se chegar ao mundo das idéias, e ao Bem supremo.

No cume do mundo das idéias, a essência do Bem daria sustentação a todo o edifício das formas puras e incorpóreas. Princípio de conhecimento e de cognoscibilidade, o Bem exerce papel análogo ao que o Sol possui no plano sensível e material. A essência é o absoluto irrelacionável e por isso mesmo indefinível: dele só se podem ter indicações aproximadas, como as que obtêm de uma “justa medida”.

Assim, para Platão se dá a formação o verdadeiro filósofo, apesar de a palavra philósophos possuir na linguagem platônica, um conteúdo tão grande de disciplina dialética da inteligência, apresenta em primeiro lugar, um sentimento mais amplo e fundamental, que é o de amante da cultura.

Para concluir, podemos levantar a seguinte questão: o que nos mostra ainda hoje a leitura de Platão, especificamente o Livro VII de A República?

Acredito ser, pelo menos um momento de reflexão, onde podemos desconfiar das próprias opiniões e das opiniões dos outros, a ponto de sermos capazes, em todos os momentos, de afirmar, à semelhança de Sócrates que só tinha certeza da dúvida. Esta atitude nos leva a questionar, a estabelecer um diálogo com nós mesmo e com outrem. Esta é uma atitude fundamentalmente educacional e filosófica.

Sem dúvida alguma, a Alegoria da Caverna, eternizou-se ao expor o mundo sob o aspecto sensível e inteligível. Surge a compreensão e o alcance dos conceitos de sentido legitimado, a universalidade, elementos constitutivos da racionalidade.

Assim, o Livro VII de A República de Platão, contribuiu e contribui não só para a história do pensamento, como uma grande referência histórica, mas, como já dissemos antes, o que é fundamental na filosofia são as questões levantadas, muito mais que suas respostas a estas questões.

BIBLIOGRAFIA

JAERGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. Trad. deArtur M. Parreira. São Paulo/Brasília: Martins Fonte/Editora da UnB, 1986.

MONDOLFO, Rodolfo. O homem na cultura antiga: a compreensão do sujeito na cultura antiga. Trad. de Luiz Aparecido Caruso. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1968.

PLATÃO. A República: Livro VII. Trad. de Elza Moreira Marcelina. Apresentação e comentários de Bernard Piettre. São Paulo/Brasília: Ática/Editora da UnB, 1989.

________. A República. Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.

________
Texto: Carlos Cesar Cunha
Graduado em Filosofia / Especialista em Filosofia Clinica

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4 Comentários

  1. Dulcinea disse:

    Sou assistente social de formação. Nas minhas aulas de filosofia penava pra articular a teoria com a prática…
    A nossa prática precisa ser mais desejante…
    Quando as pessoas estão diante do poder esquecem do idealismo, visam apenas o poder…
    Eu sou uma eterna apaixonada pela prática desejante…faço meu trabalho com amor e dedicação…
    Sou uma idealista-nata!
    O que fazer diante de uma conjuntura que apenas visa o Poder?
    Como ficam nossos ideiais revolucionários?
    Vejo alguns ainda perdidos nesta perseverança…como eu…que pagam muito caro por ser um ser humano…muitas vezes com sua própria vida!
    E nós, apaixonados, ficamos á deriva…
    Será que conseguiremos resistir a este novo modelo ideológico?

  2. elizangela disse:

    Caro amigo , parabéns pelo artigo , bem como pela iniciativa , deste processo de reflexão , no ãmbito da modernidade, Um abraço afetuoso . ELIZANGELA

  3. Ana Souto disse:

    Bom demais .. gostei nao sabia que tu escrevia artigos

  4. Sandra disse:

    Podemos até não termos entregue a educação dos filhos e a família 100% sob responsabilidade do “estado” como descreve Platão no seu “delírio” filosófico, mas as instituições sociais brasileiras te tomado para si a autoridade maior dentro da família e obteve meios para coibir até a educação dos filhos em uma família e tem dado oportunidade da mulher exercer outras funções que não seja como anteriormente “do lar”….Portanto creio que o “delírio” de Platão em “A República” está se confirmando como uma possibilidade nos dias de hoje. Se era algo tão delirante imaginar um sociedade assim ditatorial, está tornando-se possível hoje…não se sabe o que vai dar.

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