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AS MUDANÇAS NO CAMPO DO SABER CIENTÍFICO NA PERSPECTIVA DE THOMAS KUHN

Este artigo trata da questão das mudanças, especificamente as mudanças no campo do saber científico, na perspectiva de Thomas Kuhn. A concepção de rupturas nas ciências, segundo Thomas Kuhn, conceituada como revoluções científicas, se estabelece a partir da teoria dos paradigmas. Trata-se da ruptura entre ciência normal e ciência em crise. Quando na ciência normal os paradigmas não conseguem dar respostas satisfatórias às questões propostas, o paradigma que a sustenta entra em crise e, conseqüentemente, surge um novo paradigma como tentativa de resposta às questões não respondidas pelo paradigma anterior. Há então uma “luta” do novo paradigma para se impor, que geralmente acaba por se afirmar na medida da adesão de membros da comunidade científica. Com a afirmação do novo paradigma a ciência volta a ser uma atividade normal, até que uma nova crise se forme no seu interior.

Paradigma e ciência normal

Kuhn entende a ciência como um discurso. Discurso este que é expresso por uma linguagem cujo significante é constituído por signos de conceitos e sua articulação, fórmulas lógicas, matemáticas ou outros recursos simbólicos que se fizerem oportunos. A ciência necessita segundo Kunh, de uma metalinguagem ou metaciências, ou seja, um discurso sobre as ciências que tomam os discursos da ciência como objeto. Esta metaciência entende-se como a epistemologia. Assim, seu enfoque epistemológico mostra, descritivamente, a estrutura de uma ruptura na idéia da concepção do progresso contínuo da ciência.

Neste sentido, uma ciência em seu estado normal é dirigida por um paradigma que determina os padrões para o trabalho legítimo dentro da ciência normal que governa. A existência de um paradigma capaz de sustentar uma tradição de ciência normal é a característica que distingue a ciência normal da não-ciência, ou seja, a existência do paradigma é a condição sine qua non para a caracterização de uma ciência. Nesta perspectiva discorre Kuhn:

“… De início, o sucesso de um paradigma…, é em grande parte, uma promessa de sucesso que pode ser descoberta em exemplos selecionados e ainda incompletos. A ciência normal consiste na atualização dessa promessa, atualização que se obtém ampliando-se o conhecimento daqueles fatos que o paradigma apresenta como particularmente relevantes, aumentando-se a correlação entre estes fatos e as predicações do paradigma e articulando-se ainda mais o próprio paradigma.”[1]

O conceito de paradigma torna-se difícil, uma vez que Kuhn utiliza-o em sentido geral como exemplar, porém, posteriormente, em seu pós-escrito à edição de 1970 ele distingue esse sentido geral e passa a utilizar como matriz disciplinar. Contudo, podemos dizer que os paradigmas representam conjuntos de conceitos fundamentais que, num dado momento determinam o caráter da descoberta científica.

Segundo Kuhn,

“… ‘ciência normal significa pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior.” [2]

Contudo, um paradigma nunca é aceito a partir de considerações puramente lógicas, há sempre uma prova na qual se apoia e uma outra prova que o põe em causa. Na ciência normal um paradigma não é julgado nem testado, ele é a própria base do julgamento. Assim, se a utilização de um paradigma for bem sucedida, haverá uma contribuição para o conhecimento da natureza se não, indicará a incompetência do cientista. Um paradigma serve, então, de base exemplar para a avaliação da investigação. Assim a ciência normal se funda mais no consenso do que na sua estruturação lógica.

Nesta fase normal da ciência, pode-se dizer que ela é homogênea, marcada pelo crescimento científico cumulativo. As práticas teóricas e experimentais são regidas pelas regras ou princípios do paradigma vigente. As leis ou teorias estabelecidas não podem contradizer esses princípios ou regras. Assim, os resultados dos experimentos científicos testam menos a validade dos princípios do paradigma do que capacidade dos cientistas em resolver quebra-cabeças com a solução mais ou menos garantida por estas regras.

A ciência normal implica, portanto, nas tentativas detalhadas de articular um paradigma com o objetivo de melhorar a correspondência entre ele e a natureza, já que um paradigma científico será sempre suficientemente impreciso e aberto. Kuhn retrata a ciência normal como uma atividade de resolução de problemas governados pelas regras de um paradigma. Os problemas serão tanto de natureza teórica, quanto de natureza experimental, e aqueles que resistem a uma solução são vistos mais como anomalias do que como falsificações do mesmo paradigma.

Por fim, um cientista não deve ser crítico do paradigma do qual se serve. Para a sua atividade normal o cientista não pode estar em desacordo com o paradigma no qual fundamenta seu conhecimento. Para Kuhn, a pré-ciência é caracterizada pelo total desacordo e debate no que tange aos princípios e fundamentos da mesma, o que impede o seu detalhamento.

Crise paradigmática e revolução

Trataremos agora da fase das anomalias, não previstas em um paradigma. É a fase da crise. O paradigma afrouxa suas regras para poder conter os contra-exemplos que estão fora de seus limites, com isto ele se deteoriza. Assim, emerge um novo paradigma em decorrência da ciência extraordinária.

As crises não significam necessariamente o prenúncio do surgimento de um paradigma. Pode ocorrer que a própria ciência normal resolva as anomalias, eliminando desta forma a crise.

Nesta perspectiva um paradigma só é abandonado quando há outro para substituí-lo. Caso contrário a tendência é manter a confiança no paradigma em crise, não se aceitando anomalias como contra-exemplos, mas somente como quebra-cabeças que a ciência normal deverá resolver mais cedo ou mais tarde. Podemos citar como exemplo clássico da mudança de paradigma a teoria do fixismo de Lineu, que professava que todos os seres, desde sua criação, são imutáveis, contudo, este paradigma foi substituído pelo paradigma do evolucionismo que culminou em Charles Darwin.

A esse propósito Kunh afirma que

“Todas as crises iniciam com o obscurecimentode um paradigma e o relaxamento das regras que orientam a pesquisa normal. A este respeito, a pesquisa dos períodos de crise assemelha-se muito à pesquisa paradigmática, como diferença de que no primeiro caso o ponto de divergência é menos claramente definido.” [3]

Esse processo se dá quando o cientista não é capaz de solucionar um problema investigado e detecta uma anomalia, ou seja, quando reconhece que as expectativas paradigmáticas que governam a ciência normal não dão respostas satisfatórias às novas questões surgidas no paradigma vigente. Assim, há um fracasso na atividade normal de resolução de problemas. O paradigma vigente torna-se incapaz de solucionar questões emergentes. Neste momento está instaurada uma crise paradigmática. A anomalia não é vista mais como um novo quebra-cabeça. Não há, segundo Kuhn, uma distinção muito clara entre ciência normal e ciência em estado de crise.

“Não existe uma linha divisória precisa. Em vez disto, a crise, ao provocar uma proliferação de versões do paradigma, enfraquece as regras de resolução dos quebra-cabeças da ciência normal, de tal modo que acaba permitindo a emergência de um novo paradigma.” [4]

Todavia a crise pode ser encerrada de três modos distintos: o primeiro é a possibilidade da ciência normal de resolver os problemas que geraram a crise, isto é, resolver as anomalias existentes; o outro modo se dá quando os cientistas declaram o problema como sendo sem solução, sendo legada à posteridade sua solução; por último, quando acontece a mudança paradigmática, ou seja, quando é rejeitado o paradigma adotado anteriormente e surge um novo e a conseqüente disputa pela sua aceitação.

Esta mudança se caracteriza por um processo não-cumulativo do conhecimento científico, pois nesta mudança não há articulação com o antigo paradigma, mas sim ruptura. Na ciência normal, como já foi dito, há um processo cumulativo do conhecimento. Na mudança paradigmática, há um rompimento com a tradição de prática científica e a introdução de uma nova, orientada por regras distintas, com um novo discurso científico. Isto só pode ocorrer quando se percebe e se assume que a tradição anterior não está correspondendo às novas questões.

Portanto, as crises produzem renovação que demonstram que é o momento da ciência se renovar, surgindo novas teorias nos momentos das crises paradigmáticas.

“Como seria de se esperar, essa insegurança é gerada pelo fracasso constante dos quebra-cabeças da ciência normal em produzir os resultados esperados. O fracasso das regras existentes é o prelúdio para uma busca de novas regras.” [5]

Nestas condições é que a ciência normal se transforma em ciência extraordinária. Como resultado, rejeita-se o paradigma anterior e busca-se outro. Esse processo de adoção de um novo paradigma é o que caracteriza a revolução científica. Ele ocorre permeado de muitos conflitos, pois na perspectiva kunhiana, a ciência é conservadora por natureza. Os defensores do novo paradigma combatem por um longo período para afirmar o novo paradigma. Isto se deu, por exemplo, na Física quando o paradigma de Copérnico foi substituído pelo de Newton, que posteriormente deu lugar ao de Einstein. Kuhn define revoluções científicas considerando que

“a discussão precedente indicou que consideramos revoluções científicas aqueles episódios de desenvolvimento não-cumulativo, nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior.” [6]

O processo revolucionário de Thomas Kuhn assemelha-se ao processo de uma revolução política, inclusive o conceito de revolução é um conceito amplamente usado nas ciências humanas. Primeiramente, a percepção de um funcionamento defeituoso, isto leva à insatisfação. Posteriormente a sociedade divide-se em dois campos, alas, facções ou partidos apresentando soluções ao problema. Um lado defendendo a status quo vigente, outro tentando uma nova perspectiva. A partir disto se dá um combate, onde primeiramente são utilizadas as iniciativas de natureza política, em seguida a tentativa de persuasão de massa, e finalmente, a força. No âmbito da ciência estão presentes a insatisfação, a polarização e a competição, bem como a persuasão para a aceitação do paradigma novo, o que gera em muitos casos o rompimento da atual comunidade científica e a criação de uma nova.

Por fim, as revoluções mudam não somente as teorias, mas mudam também as concepções de mundo da comunidade científica, bem como sua linguagem e práticas.

“Guiados por um novo paradigma, os cientistas adotam novos instrumentos e orientam seu olhar em novas direções (…) Em vês de ser intérprete, o cientista que abraça o novo paradigma é como o homem que usa lentes inversoras. Defrontando com a mesma constelação de objetos que antes e tendo consciência disto, ele os encontra, não obstante, totalmente transformados em muitos detalhes.”[7]

Bibliografia

BARNES, BARRY. Thomas Kuhn. In: Quentin Skinner. A ciências humanas e seus grandes pensadores. Trad. de Teresa Curvelo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1992. 264p.

CARRILHO, Manuel Maria. Epistemologia: posições críticas. Lisboa: Fundação Caloust Bulbenkian, 1991. 400p.

CAVALCANTE, Pedro Teixeira. Epistemologia e epistemologias. Maceió: Edufal, 1979. 229p.

CHALMERS, A. F. O que é ciência afinal. Trad. de Raul Fiker. São Paulo: Brasilense, 1993. 225p.

EPISTEIN, Isaac. Thomas Kunh: a cientificidade entendida como vigência de um paradigma. Alberto Oliva (Org.). In: Epistemologia: a cientificidade em questão. Campinas: Papirus, 1990. 225p.

FREIRE-MAIA, Newton. A ciência vista por dentro. Petrópolis: Vozes, 1991. 262p.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. 3.ed. Trad. de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 1990. 257p.

________. Lógica da descoberta ou psicologia da pesquisa. Imre Lakatos e Alan Musgrave (Orgs.). Trad. de Octávio Mendes Cajado. In: A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1979. 343p.

[1] KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1990. p.44.

[2] KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1990. p.29.

[3] KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1990. p.115.

[4] Idem. Ibidem. p.110.

[5] KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1990. p.95.

[6] KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1990. p.125.

[7] KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1990.p.145-147.

________
Texto: Carlos Cesar Cunha
Graduado em Filosofia / Especialista em Filosofia Clinica

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3 Comentários

  1. Rosemar Prota disse:

    Interessantíssimo artigo. Vou adicionar o blog.

  2. webcorreia disse:

    Legal Rose que você esteje gostando de nosso site.. fico feliz…
    bjos

  3. elizangela disse:

    De fato , um artigo que merece , ser relido e internalizado , no nosso âmbito cultural. Parabèns… abraço afetuoso

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