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Palestra Filosófica

FILOSOFIA, BUDISMO, CINEMA E MÚSICA

O objetivo desse texto é apresentar uma experiência vivenciada em sala de aula, na qual desenvolvi durante seis aulasde 50 minutos um projeto que foi elaborado com a finalidade de tornar a Filosofia acessível ao cotidiano dos alunos e relacioná-la com a História do Budismo, o Cinema e a música. Durante o ano letivo de 2006, também apresentei uma palestra no Simpósio Multidisciplinar do UniFai, com o tema Filosofia, Budismo, Cinema e Música, a partir da qual resolvi escrever esse texto.

O ponto de partida para a elaboração do projeto foi um contato que tive com o Budismo quando comecei o meu namoro no ano de 2005, e fiz um trabalho relacionando o mito da caverna com o filme a fuga das galinhas, como avaliação do curso Filosofia e Vida oferecido pela Secretaria de Estado da Educação aos professores de Filosofia da rede. A partir disso, pensei em uma forma de abordar o pensamento oriental, pouco estudado no Brasil em uma aula de Filosofia, além de ser uma maneira de diversificar a aula.

O que é Filosofia?

Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentos que surgiu na Grécia antiga, quando os gregos, espantados com a realidade na qual viviam e insatisfeitos com as explicações que os mitos davam sobre ela, passaram a buscar uma explicação mais lógica e racional para os fenômenos da natureza. Os primeiros filósofos buscavam a arché, ou seja, um elemento natural que seria a causa de tudo que existe.

Como os filósofos gregos buscavam uma resposta para tudo, uma das coisas que caracteriza a Filosofia é o questionamento. O pensamento filosófico é fruto de uma necessidade de conhecer e compreender a realidade em seus últimos aspectos.

Existem algumas atitudes que levam ao ato de filosofar:

1)Admiração: O sentido grego da palavra admiração é espanto.E é essa a nossa atitude quando estamos diante de uma situação nova e diferente das que estamos acostumados a ver. Essa é uma forma que nos leva a filosofar, pois iremos questionar o porquê daquela situação.

2)Dúvida: A dúvida é uma segunda atitude que nos leva a filosofar, pois é quase sempre a nossa companheira, pois é graças à ela que temos um estranhamento diante da realidade que nos cerca e passamos a buscar respostas que aquilo que parece óbvio não consegue explicar mais.

3)A terceira atitude que nos leva ao ato de filosofar é a insatisfação moral, que irá nos levar a questionar os valores impostos pela sociedade e buscar a criação de novos valores.

Essas três atitudes citadas acima, são complementares, pois a partir da admiração surge a dúvida e a partir desta, surge a insatisfação moral.Mas como podemos relacionar Filosofia, Budismo, Cinema e Música?

A partir de uma definição clara de alguns elementos a serem percorridos durante esse artigo. Em Filosofia, irei abordar o Mito da Caverna, sobre o Budismo irei abordar a vida do Buda, no Cinema, o filme A Fuga das Galinhas e na Música irei utilizar a composição Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto do Grupo Legião Urbana, esta que foi escrita com base na idéia budista de luta contra o sofrimento e, no final, tentarei relacionar tudo com o Mito da Caverna e a Filosofia. Como já mencionamos acima o que é Filosofia, agora o papel é perguntar sobre o Budismo.

O que é Budismo?

De acordo com o livro Fundamentos do Budismo, não se pode dar prontamente uma definição clara do Budismo, pois existem várias explicações apresentadas de diferentes ângulos e, portanto, é praticamente impossível formular uma explicação satisfatória para todos. Todos os escritos do Buda original, o fundador do Budismo, foram dando origem a uma série de escrituras.

Embora existam vários tipos de Budismo, todos os seguimentos reconhecem o relato sobre os motivos que levaram o Buda a renunciar a vida que tinha e dedicar-se à meditação. Esse relato diz que durante a sua juventude, Siddarta Gautama era um príncipe que vivia em um palácio cheio de conforto e regalias. Certa vez, resolveu sair do palácio para passear, coisa que nunca havia feito. No primeiro passeio, deparou-se com a figura de um velho trêmulo e bastante enrugado. No segundo encontrou um doente. No terceiro presenciou um cortejo fúnebre e, no quarto, deparou-se com um asceta. Desde então teve contato com o sofrimento humano e ficou profundamente preocupado. A partir desse momento, abandonou a vida confortável que tinha para buscar uma solução para os quatro sofrimentos inevitáveis de todos os seres humanos: o nascimento, envelhecimento, doença e morte.

De acordo com a tradição budista, Siddarta abandonou a vida luxuosa aos dezenove anos e aos trinta anos atingiu a iluminação e tornou-se Budadedicando-se aos ensinos de sua doutrina. Por isso, pode se denominar Budismo, o conjunto dos ensinamentos de Siddarta Gautama, que originaram-se com o objetivo de solucionar o problemado sofrimento humano. Portanto, o objetivo do Budismo é superar os quatro sofrimentos básicos do nascimento, envelhecimento, doença e morte, e também capacitar cada indivíduo a estabelecer sua própria identidade e reconhecer a sua capacidade de atingir a iluminação. Os budistas acreditam que o estado de Buda é inerente à pessoa humana, ou seja, todos são Budas em potência.

O Budismo ensina que a principal finalidade do ser humano é atingir a felicidade, e essa felicidade é a superação do sofrimento. Superação, essa é uma palavra muito comum no Budismo, pois eles acreditam que superar o sofrimento e não fugir dele, é uma atitude de desafio e coragem, e é essa atitude que nos leva à felicidade absoluta.

Após ter dado uma explicação rápida sobre o que é Filosofia e Budismo, duas formas de pensar diferentes, uma do Ocidente e outra do Oriente é importante que possamos estabelecer alguns elementos em comum, como o conceito de causalidade e Cosmologia discutido por ambas. No que se refere à idéia de Causalidade, a Filosofia Ocidental trabalha com os filósofos pré-socráticos a noção de um princípio (arché) que seria a causa de todas as coisas existentes no mundo e a Cosmologia é exatamente o estudo sobre isso. Já o Budismo,fala de Causalidade no sentido da ação humana, ou seja,uma ação consiste em uma reação, toda causa tem um efeito e Cosmologia é que nós temos que respeitar a natureza.

Depois dessa breve introdução, é possível apresentaros elementos chaves para esse Artigo: O Mito da Caverna, A vida do Buda, o filme A fuga das galinhas e a música Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto.

No livro VII da República, Platão narra o Mito da Caverna, com o qual ele explica como se dá o processo de conhecimento humano através da passagem do mundo sensível para o inteligível, do mundo das aparências para o mundo das essências. A relação que podemos fazer do Mito da caverna com o nosso cotidiano é que muitas vezes vivemos aprisionados pelas nossas opiniões, as quais acreditamos serem as únicas verdadeiras, ou seja, vivemos em um mundinho restrito, da mesma forma que os homens da caverna, que estavam lá desde a infância e não conheciam nada além do interior da caverna. Quando um prisioneiro se libertou, contemplou o mundo das idéias e voltou para libertar os companheiros, esses o mataram, porque pensaram que ele estava louco. No Mito de Er Platão explica como um prisioneiro teve a vontade de se libertar da caverna, sendo que ele não sabia o que tinha lá fora, argumentando que a sua alma já havia contemplado as idéias em outra vida e simplesmente ativou esse desejo de contemplar a verdade nessa vida, falando do conhecimento como uma reminiscência, ou seja, como recordação. Nesse ponto, podemos relacionar o Mito com a vida do Buda, que tinha uma vida cheia de regalias dentro de um palácio e depois resolveu sair e não voltar mais para lá, mas dedicar-se aos ensinamentos para tentar resolver os problemas do sofrimento humano.Nesse caso, o palácio pode ser interpretado como a caverna do Buda, pois ele vivia lá antes de contemplar a realidade exterior etornar-se Buda. No que se refere à idéia de reminiscência, os budistas usam a palavra Karma, pois acreditam que simplesmente ativamoso estado de Buda inerente em todos nós. Simplificando a relação, tanto o prisioneiro da caverna quanto o Buda são filósofos, pois renunciaram ao mundo das aparências para contemplar o mundo das essências, ou seja, passaram do mundo sensível para o inteligível.

Comparação ao Filme A Fuga das Galinhas

Embora pareça ser apenas um simples desenho, o filme A Fuga das Galinhas tem um conteúdo filosófico a nos passar, porque o filme trata de galinhas que vivem em uma situação de alienação em uma granja, na qual elas precisam botar ovos e aquelas que não botam são mortas.

As galinhas tentam fugir, mas todas as tentativas são frustradas, porque muitas tem medo de serem pegas e mortas por terem tentado fugir, ou então dos cachorros que fazem a vigilância da granja.

Elas tentam se organizar para planejar a tão sonhada fuga e são lideradas por uma companheira chamada Ginger que se sentiu indignada ao ver uma de suas amigas ser morta por não ter botado nenhum ovo. Ela então resolve que todas precisam fugir da granja para que não tenham o mesmo fim da companheira.

As galinhas fazem uma reunião e Ginger tenta convencer as amigas, que fora da granja existe um mundo melhor, com liberdade e sem cercas, tentando mostrar para as amigas que as cercas não cercam só a granja, que elas estão nas nossas cabeças. Uma das companheiras diz que tudo o que Ginger disse é besteira e que elas nunca vão conseguir fugir, enquanto uma diz que as chances de fuga são uma entre um milhão. Ginger insiste e diz que então há uma chance.

De repente chega um galo voador e diz que mora na terra da liberdade, mas na verdade ele vive na mesma situação das galinhas só que em um circo. Da mesma forma que as galinhas, ele também quer liberdade, porque não quer continuar vivendo em um circo. Após muitas tentativas frustradas, as galinhas fazem um avião e conseguem fugir.

Partindo da história retratada pelo filme, podemos fazer uma análise filosófica comparando à Alegoria da Caverna, na qual os prisioneiros estão ali desde a infância e não sabem nada sobre o mundo exterior à caverna. No caso do filme, podemos dizer que a granja é a caverna, pois as galinhas vivem em uma situação de aprisionamento, mas a diferença é que elas querem fugir, e os prisioneiros da Alegoria da Caverna não querem fugir, porque a vida da caverna é cômoda.

No que diz respeito às correntes que aprisionam os homens da caverna, no filme elas podem ser simbolizadas pelo muro que impede as galinhas de ver o que se passa no mundo fora da granja. Isso faz que elas pensem em uma realidade exterior semelhante à vida alienada que levam,da mesma forma que os prisioneiros da caverna pensam que aquilo que eles notam na caverna é a realidade exterior.

Na Alegoria da Caverna, nós temos um prisioneiro que se liberta , volta para libertar os companheiros e é morto porque os prisioneiros não acreditaram naquilo que ele disse sobre a realidade exterior, o mundo das idéias, o mundo supra-sensível, o mundo metafísico. A esse prisioneiro nós chamamos de filósofo, porque ele deixou a amarras do senso comum em busca do conhecimento verdadeiro. E a essa busca nós chamamos de Filosofia. No filme, esse filósofo pode ser representado na personagem de Ginger, a galinha que sente-se indignada com a vida alienada da granja ao ver uma amiga morrer e resolve fugir e libertar as companheiras. A atitude de Ginger é semelhante à do filósofo, que quer libertar-se do mundo de respostas prontas do senso comum para ir em busca de uma realidade diferente, para buscar respostas mais concretas para as coisas. E o instrumento para essa busca é a apaixonante Filosofia, que nos instiga a procurar cada vez mais o conhecimento. A diferença entre a galinha Ginger e o prisioneiro da caverna que se liberta é que ela não foi morta pelas companheiras, que acreditaram na fuga e saíram da vida alienada que levavam.

Para finalizar a comparação, temos a música Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto, uma composição feita pelo grupo Legião Urbana depois que seus componentes leramum livro sobre a Doutrina de Buda em um hotel e fizeramum trecho falando sobre o sofrimento e a dor. Sobre a música eu utilizei a parte que fala “quando o sol bater na janela do teu quarto” relacionando com a idéia do Mito da Caverna, quando diz que os prisioneiros estavam de costas para a entrada e que entrava uma fresta de luz. É exatamente isso que acontece quando o sol bate na janela do nosso quarto, um pouquinho da luz que entra nos faz imaginar o dia lindo e os deveres que nos esperam lá fora. Outra parte da música que eu utilizei foi, “ até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem. Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor. É dessa forma que temos que agir diante das dificuldades que temos em nossa vida, temos que ter coragem e acreditar na superação dos obstáculos e que, através deles, vamos vencer e crescer na vida.

Enfim, gostaria de concluir que o Mito da Caverna, a vida do Buda o filme A Fuga das Galinhas e a música Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto, tem um conteúdo filosófico a nos passar, porque muitas vezes nós nos assemelhamos aos prisioneiros da caverna, ao Buda, às galinhas e vivemos acomodados diante da realidade e daquilo que o senso comum nos apresenta, ou seja, o mundo das respostas prontas, do comodismo é a nossa caverna, o nosso palácio, e a nossa granja, cercados de preconceitos e de aparências, que absorvemos como verdades. Mas, graças à capacidade que temos de raciocinar e à Filosofia, podemos nos libertar do mundo das sombras, das aparências e das ilusões, contemplar a verdade e orientar as almas no caminho certo, porque a luz cada uma tem, basta ser orientada no caminho certo. Essa é a nossa tarefa como educadores, a de orientar com coragem e otimismo, acreditando em nosso trabalho.

______
Texto: Danilo Freire
(Graduado em Filosofia) UNIFAI 

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4 Comentários

  1. Natanael disse:

    Olá Gostaria de fazer um comentário sobre o texto Filosofia, Budismo , Cinema e Música parabenizando o professor que o escreveu.Foi muito boa a relação que ele fez entre a Filosofia Oriental e Ocidental.Isso sem dizer a criatividade de relacionar tudo com o Mito da Caverna, a música do Legião e o filme A Fuga das Galinhas.

  2. fa disse:

    ola, professor, parabens pelo texto publicado….essa é uma realidade que infelizmente ainda existe………..acredito que esse medo de ser verdadeiro seja em decorrencia da pouca FÉ que temos em DEUS; nos tronamos pequenos, medrosose até mesquinhos. gostei muito da postura da galinha na tentativa de salvar as companheiras.ahh se todos fossemos assim.com certeza o mudo seria bem diferente….agradecida porque me fez pensar.fa

  3. Professor Danilo Freire disse:

    Olá Fa. Eu é que agradeço o seu comentário. Sempre que escrevo penso nas pessoas que irão ler. Meu compromisso é com o mundo todo. Temos que ter esperança e pensar como a galinha Ginger, pensar em salvar as outras pessoas da alienação presente em nossa sociedade e que nos faz regredir em vez de evoluir.
    Um grande abraço.
    Danilo.

  4. Marcela disse:

    achei super interessante

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