A Educação e o Mito de Platão

11 Outubro, 2008

Por Carlos César Cunha – Filósofo Clinico.

Este pequeno ensaio, objetiva mostrar a educação na perspectiva de Platão exposto no Livro VII de A República. Platão sempre usou a analogia para expor suas idéias, todavia, no Livro VII de A República ele usou deste recurso para tratar do problema do conhecimento, ou seja, sua perspectiva epistemológica sobre o conhecimento, desde o conhecimento sensível até o conhecimento inteligível.

Esta mesma analogia pode ser usada sob o ponto de vista da educação, fundamentalmente da sua proposta de educação de homem grego. O ideal de educação platônico, como na maioria dos pensadores gregos, é intrinsecamente ligado à política e a política não é uma questão de opinião, mas sim uma questão de saber. O saber em Platão é, constitui na saída do mundo sensível em direção mundo inteligível sendo a dialética a principal via para tal fato. Assim o governante é aquele que atingiu todos esses graus da formação, estando apto a governar o Estado.

Portanto, não devemos ver o platonismo como um corpo de verdades eternas. O que é fundamental na história da filosofia são os problemas levantados por um pensador, várias respostas são dadas ao longo da história, como se vê, por exemplo, em Platão, que levanta as seguintes questões: qual o melhor tipo de governo? Qual o melhor processo educativo?

Nesta perspectiva, o fato de uma doutrina ser historicamente recuada no tempo não implica que ela deixe de ser atual. As filosofias não somente são produtos da história, mas também são criadoras de história. A filosofia de Platão pertence, sem dúvida alguma, a essa espécie. O que importa nisto é que o pensamento de Platão cunhou novas maneiras de pensar, não somente de maneira filosófica, mas também de maneira científica, bem como o surgimento de novos paradigmas na moral, política e na técnica que, de certa maneira, estão presentes no nosso modo de pensar governar, educar, etc.

Na República, a organização da cidade ideal fundamenta-se na divisão racional do trabalho. Como reformador social, Platão considera que a justiça depende da diversidade de funções exercidas por três classes distintas: a dos artesãos, dedicados à produção de bens materiais; a dos soldados, encarregados de defender a cidade; a dos guardiães, incumbidos de zelar pela observância das leis. Produção, defesa, administração interna, estas as três funções essenciais da cidade. E o importante não é que uma classe usufrua de uma felicidade superior, mas que toda a cidade seja feliz. O indivíduo faria parte da cidade para poder cumprir sua função social e nisso consiste ser justo: em cumprir a própria função.

A reorganização da cidade, para transformá-la em reino da justiça, exige naturalmente reformas radicais. A família, por exemplo, deveria desaparecer para que as mulheres fossem comuns a todos os guardiães; as crianças seriam educadas pela cidade e a procriação deveria ser regulada de modo a preservar a eugenia; para evitar os laços familiares egoístas, nenhuma criança conheceria seu verdadeiro pai e nenhum pai seu verdadeiro filho; a execução dos trabalhos não levaria em conta distinção de sexo mas tão-somente a diversidade das aptidões naturais.

A efetivação dessa utopia social dependeria fundamentalmente, por outro lado, de um cuidadoso sistema educativo, que permitisse a cada classe desenvolver as virtudes indispensáveis ao exercício de suas atribuições. Mas a cidade ideal só poderia surgir se o governo supremo fosse confiado a Reis-filósofos. Esses chefes de Estado seriam escolhidos dentre os melhores guardiães e submetidos a diversas provas que permitiriam avaliar seu patriotismo e sua resistência. Mas, principalmente, deveriam realizar uma série de estudos para poderem atingir a ciência, ou seja, o conhecimento das idéias, elevando-se até seu fundamento supremo: a idéia do Bem.

A Alegoria da Caverna descreve um prisioneiro que contempla, no fundo de uma caverna, os reflexos de simulacros que, sem que ele possa ver, são transportados à frente de um fogo artificial. Como sempre viu essas projeções de artefatos, toma-os por realidade e permanece iludido. A situação desmonta-se e sai da inércia, desde que o prisioneiro se liberta: reconhece o engano em que permanecera, descobre a “encenação” que até então o enganara e, depois de galgar a rampa que conduz à saída da caverna, pode lá fora começar a contemplar a verdadeira realidade. Aos poucos, ele, que fora habituado à sombra, vai podendo olhar o mundo real: primeiro através de reflexos, como o do céu estrelado refletido na superfície das águas tranqüilas, até finalmente ter condições para olhar diretamente o Sol, fonte de toda luz e de toda realidade.

Essa alegoria assumiu, ao longo da história, múltiplas dimensões, pode ser vista tanto como fabulação da ascese religiosa, como da filosófica e científica, guarda ainda uma conotação política, que o contexto da República não permite esquecer. Aquele que se liberta das ilusões e se eleva à visão da realidade é o que pode e deve governar para libertar os outros prisioneiros das sombras: é o filósofo-político, aquele que faz de sua sabedoria um instrumento de libertação de consciências e de justiça social, aquele que faz da procura da verdade uma arte de desprestidigitação, um desilusionismo.

A construção do conhecimento constitui, assim, no platonismo, uma conjugação de intelecto e emoção, de razão e vontade: a episteme é fruto de inteligência e de amor. Podemos traçar uma linha divisória no pensamento platônico, um lado representando o plano sensível e outro o plano inteligível. Esses dois segmentos apresentam subdivisões correspondentes a diferentes tipos de objetos sensíveis e inteligíveis e, consequentemente, a modalidade diversas de conhecimento: O processo de conhecimento representa a progressiva passagem das sombras e imagens turmas ao luminoso universo das idéias, atravessando etapas intermediárias. Cada fase encontra sua fundamentação e resolução na fase seguinte. No plano sensível o conhecimento não ultrapassa o nível da opinião, a plausibilidade.

A primeira etapa do conhecimento inteligível é representada pela diânoia, conhecimento discursivo e mediatizador, que estabelece ligações racionais: é o conhecimento típico das matemáticas. O conhecimento sensível deve fundamentar-se nesse patamar que lhe está sobreposto e lhe dá sustentação. Isso significa que, para Platão, numa perspectiva do Renascimento, o conhecimento do mundo físico deve ser constituído como instrumental matemático. Mas os conhecimentos matemáticos não constituem no platonismo, o ápice da ciência. São ainda uma forma de intelegibilidade primeira, marcada por compromissos como plano sensível: as entidades matemáticas são múltiplas. Esta só se alcança quando, além das entidades matemáticas, chega-se à evidência puramente intelectual das idéias. Chega-se assim ao domínio das formas, à dialética que se apresenta como uma matemática, assim a dialética se torna condição sine qua no, ou seja, necessária para se chegar ao mundo das idéias, e ao Bem supremo.

No cume do mundo das idéias, a essência do Bem daria sustentação a todo o edifício das formas puras e incorpóreas. Princípio de conhecimento e de cognoscibilidade, o Bem exerce papel análogo ao que o Sol possui no plano sensível e material. A essência é o absoluto irrelacionável e por isso mesmo indefinível: dele só se podem ter indicações aproximadas, como as que obtêm de uma “justa medida”.

Assim, para Platão se dá a formação o verdadeiro filósofo, apesar de a palavra philósophos possuir na linguagem platônica, um conteúdo tão grande de disciplina dialética da inteligência, apresenta em primeiro lugar, um sentimento mais amplo e fundamental, que é o de amante da cultura.

Para concluir, podemos levantar a seguinte questão: o que nos mostra ainda hoje a leitura de Platão, especificamente o Livro VII de A República?

Acredito ser, pelo menos um momento de reflexão, onde podemos desconfiar das próprias opiniões e das opiniões dos outros, a ponto de sermos capazes, em todos os momentos, de afirmar, à semelhança de Sócrates que só tinha certeza da dúvida. Esta atitude nos leva a questionar, a estabelecer um diálogo com nós mesmo e com outrem. Esta é uma atitude fundamentalmente educacional e filosófica.

Sem dúvida alguma, a Alegoria da Caverna, eternizou-se ao expor o mundo sob o aspecto sensível e inteligível. Surge a compreensão e o alcance dos conceitos de sentido legitimado, a universalidade, elementos constitutivos da racionalidade.

Assim, o Livro VII de A República de Platão, contribuiu e contribui não só para a história do pensamento, como uma grande referência histórica, mas, como já dissemos antes, o que é fundamental na filosofia são as questões levantadas, muito mais que suas respostas a estas questões.

BIBLIOGRAFIA

JAERGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. Trad. de Artur M. Parreira. São Paulo/Brasília: Martins Fonte/Editora da UnB, 1986.

MONDOLFO, Rodolfo. O homem na cultura antiga: a compreensão do sujeito na cultura antiga. Trad. de Luiz Aparecido Caruso. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1968.

PLATÃO. A República: Livro VII. Trad. de Elza Moreira Marcelina. Apresentação e comentários de Bernard Piettre. São Paulo/Brasília: Ática/Editora da UnB, 1989.

________. A República. Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.


O Mito da Caverna

27 Agosto, 2008

Professor de Filosofia Danilo Freire

Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro. Entre o muro e o chão da caverna, há uma fresta por onde passa um fino feixe de luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde o nascimento, geração após geração, seres humanos encontram-se ali, de costas para a entrada, acorrentados sem poder mover a cabeça nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros nem a si mesmos, mas apenas sombras dos outros e de si mesmos porque estão no escuro e imobilizados.

Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam projetadas nas paredes do fundo da caverna. Esses prisioneiros tomam as sombras por realidade. Um deles, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. De início, move a cabeça e depois o corpo todo. A seguir, avança em direção ao muro e o escala. Enfrentando os obstáculos de um caminho íngreme e difícil e sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego com a luminosidade do sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pela luz do sol muito mais forte do que a luz do fogo que tinha na caverna.

Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obrigado a decidir onde se encontra a realidade: no que vê agora ou na caverna em que vivia. Seu primeiro impulso é voltar para a caverna para livrar-se da dor e do espanto, atraído pela escuridão que lhe parece mais acolhedora. Além disso, precisa ver e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o a desejar a caverna, onde tudo é familiar e conhecido. Sem disposição para regressar a caverna permanece no exterior. Aos poucos vai se familiarizando à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se com o mundo real e descobre que a vida toda o que via era apenas sombras. Decide voltar para a caverna para libertar os amigos.

O que acontece nesse retorno? Os demais companheiros zombam dele e tentam espancá-lo. Se mesmo assim ele afirma o que viu e os convida a sair da caverna acabam por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns podem ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidir sair da caverna rumo à realidade?

Após a leitura do texto, convido você caro leitor, a ler as questões apresentadas abaixo, e refletir um pouco sobre o Mito da Caverna de Platão, e ver como os ensinamentos desse filósofo podem nos ajudar muito em nossa vida cotidiana, sobretudo no que se refere à libertação da caverna, ou seja, da passagem do senso comum para o senso crítico. Se você quiser, pode anotá-las e respondê-las em sua agenda ou caderno, discuti-las com seus amigos, enviar um comentário em nosso site, ou até mesmo por e-mail.

Reflexão sobre o texto

1) Na sua opinião , o que a caverna simboliza? Nos dias de hoje o que poderíamos chamar de caverna?

2) Na sua opinião, o que a luz do sol simboliza? Nos dias de hoje o que poderíamos chamar de luz do sol?

3) As informações que recebemos pela televisão ou pela Internet são plenamente confiáveis? Será que elas não podem nos deixar mais alienados?

4) De que forma nós podemos nos libertar da nossa caverna da alienação?

5) O que você faria se fosse o prisioneiro da caverna que conseguiu se libertar? E o que faria se fosse o prisioneiro que não conseguiu se libertar?

Escrito por Danilo Freire
Licenciado em Filosofia pela UniFai


Palestra Filosófica

12 Agosto, 2008

FILOSOFIA, BUDISMO, CINEMA E MÚSICA
Danilo de Oliveira Freire

O objetivo desse texto é apresentar uma experiência vivenciada em sala de aula, na qual desenvolvi durante seis aulas de 50 minutos um projeto que foi elaborado com a finalidade de tornar a Filosofia acessível ao cotidiano dos alunos e relacioná-la com a História do Budismo, o Cinema e a música. Durante o ano letivo de 2006, também apresentei uma palestra no Simpósio Multidisciplinar do UniFai, com o tema Filosofia, Budismo, Cinema e Música, a partir da qual resolvi escrever esse texto.

O ponto de partida para a elaboração do projeto foi um contato que tive com o Budismo quando comecei o meu namoro no ano de 2005, e fiz um trabalho relacionando o mito da caverna com o filme a fuga das galinhas, como avaliação do curso Filosofia e Vida oferecido pela Secretaria de Estado da Educação aos professores de Filosofia da rede. A partir disso, pensei em uma forma de abordar o pensamento oriental, pouco estudado no Brasil em uma aula de Filosofia, além de ser uma maneira de diversificar a aula.

O que é Filosofia?

Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentos que surgiu na Grécia antiga, quando os gregos, espantados com a realidade na qual viviam e insatisfeitos com as explicações que os mitos davam sobre ela, passaram a buscar uma explicação mais lógica e racional para os fenômenos da natureza. Os primeiros filósofos buscavam a arché, ou seja, um elemento natural que seria a causa de tudo que existe.

Como os filósofos gregos buscavam uma resposta para tudo, uma das coisas que caracteriza a Filosofia é o questionamento. O pensamento filosófico é fruto de uma necessidade de conhecer e compreender a realidade em seus últimos aspectos.

Existem algumas atitudes que levam ao ato de filosofar:

1) Admiração: O sentido grego da palavra admiração é espanto.E é essa a nossa atitude quando estamos diante de uma situação nova e diferente das que estamos acostumados a ver. Essa é uma forma que nos leva a filosofar, pois iremos questionar o porquê daquela situação.

2) Dúvida: A dúvida é uma segunda atitude que nos leva a filosofar, pois é quase sempre a nossa companheira, pois é graças à ela que temos um estranhamento diante da realidade que nos cerca e passamos a buscar respostas que aquilo que parece óbvio não consegue explicar mais.

3) A terceira atitude que nos leva ao ato de filosofar é a insatisfação moral, que irá nos levar a questionar os valores impostos pela sociedade e buscar a criação de novos valores.

Essas três atitudes citadas acima, são complementares, pois a partir da admiração surge a dúvida e a partir desta, surge a insatisfação moral.Mas como podemos relacionar Filosofia, Budismo, Cinema e Música?

A partir de uma definição clara de alguns elementos a serem percorridos durante esse artigo. Em Filosofia, irei abordar o Mito da Caverna, sobre o Budismo irei abordar a vida do Buda, no Cinema, o filme A Fuga das Galinhas e na Música irei utilizar a composição Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto do Grupo Legião Urbana, esta que foi escrita com base na idéia budista de luta contra o sofrimento e, no final, tentarei relacionar tudo com o Mito da Caverna e a Filosofia. Como já mencionamos acima o que é Filosofia, agora o papel é perguntar sobre o Budismo.

O que é Budismo?

De acordo com o livro Fundamentos do Budismo, não se pode dar prontamente uma definição clara do Budismo, pois existem várias explicações apresentadas de diferentes ângulos e, portanto, é praticamente impossível formular uma explicação satisfatória para todos. Todos os escritos do Buda original, o fundador do Budismo, foram dando origem a uma série de escrituras.

Embora existam vários tipos de Budismo, todos os seguimentos reconhecem o relato sobre os motivos que levaram o Buda a renunciar a vida que tinha e dedicar-se à meditação. Esse relato diz que durante a sua juventude, Siddarta Gautama era um príncipe que vivia em um palácio cheio de conforto e regalias. Certa vez, resolveu sair do palácio para passear, coisa que nunca havia feito. No primeiro passeio, deparou-se com a figura de um velho trêmulo e bastante enrugado. No segundo encontrou um doente. No terceiro presenciou um cortejo fúnebre e, no quarto, deparou-se com um asceta. Desde então teve contato com o sofrimento humano e ficou profundamente preocupado. A partir desse momento, abandonou a vida confortável que tinha para buscar uma solução para os quatro sofrimentos inevitáveis de todos os seres humanos: o nascimento, envelhecimento, doença e morte.

De acordo com a tradição budista, Siddarta abandonou a vida luxuosa aos dezenove anos e aos trinta anos atingiu a iluminação e tornou-se Buda dedicando-se aos ensinos de sua doutrina. Por isso, pode se denominar Budismo, o conjunto dos ensinamentos de Siddarta Gautama, que originaram-se com o objetivo de solucionar o problema do sofrimento humano. Portanto, o objetivo do Budismo é superar os quatro sofrimentos básicos do nascimento, envelhecimento, doença e morte, e também capacitar cada indivíduo a estabelecer sua própria identidade e reconhecer a sua capacidade de atingir a iluminação. Os budistas acreditam que o estado de Buda é inerente à pessoa humana, ou seja, todos são Budas em potência.

O Budismo ensina que a principal finalidade do ser humano é atingir a felicidade, e essa felicidade é a superação do sofrimento. Superação, essa é uma palavra muito comum no Budismo, pois eles acreditam que superar o sofrimento e não fugir dele, é uma atitude de desafio e coragem, e é essa atitude que nos leva à felicidade absoluta.

Após ter dado uma explicação rápida sobre o que é Filosofia e Budismo, duas formas de pensar diferentes, uma do Ocidente e outra do Oriente é importante que possamos estabelecer alguns elementos em comum, como o conceito de causalidade e Cosmologia discutido por ambas. No que se refere à idéia de Causalidade, a Filosofia Ocidental trabalha com os filósofos pré-socráticos a noção de um princípio (arché) que seria a causa de todas as coisas existentes no mundo e a Cosmologia é exatamente o estudo sobre isso. Já o Budismo, fala de Causalidade no sentido da ação humana, ou seja, uma ação consiste em uma reação, toda causa tem um efeito e Cosmologia é que nós temos que respeitar a natureza.

Depois dessa breve introdução, é possível apresentar os elementos chaves para esse Artigo: O Mito da Caverna, A vida do Buda, o filme A fuga das galinhas e a música Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto.

No livro VII da República, Platão narra o Mito da Caverna, com o qual ele explica como se dá o processo de conhecimento humano através da passagem do mundo sensível para o inteligível, do mundo das aparências para o mundo das essências. A relação que podemos fazer do Mito da caverna com o nosso cotidiano é que muitas vezes vivemos aprisionados pelas nossas opiniões, as quais acreditamos serem as únicas verdadeiras, ou seja, vivemos em um mundinho restrito, da mesma forma que os homens da caverna, que estavam lá desde a infância e não conheciam nada além do interior da caverna. Quando um prisioneiro se libertou, contemplou o mundo das idéias e voltou para libertar os companheiros, esses o mataram, porque pensaram que ele estava louco. No Mito de Er Platão explica como um prisioneiro teve a vontade de se libertar da caverna, sendo que ele não sabia o que tinha lá fora, argumentando que a sua alma já havia contemplado as idéias em outra vida e simplesmente ativou esse desejo de contemplar a verdade nessa vida, falando do conhecimento como uma reminiscência, ou seja, como recordação. Nesse ponto, podemos relacionar o Mito com a vida do Buda, que tinha uma vida cheia de regalias dentro de um palácio e depois resolveu sair e não voltar mais para lá, mas dedicar-se aos ensinamentos para tentar resolver os problemas do sofrimento humano.Nesse caso, o palácio pode ser interpretado como a caverna do Buda, pois ele vivia lá antes de contemplar a realidade exterior e tornar-se Buda. No que se refere à idéia de reminiscência, os budistas usam a palavra Karma, pois acreditam que simplesmente ativamos o estado de Buda inerente em todos nós. Simplificando a relação, tanto o prisioneiro da caverna quanto o Buda são filósofos, pois renunciaram ao mundo das aparências para contemplar o mundo das essências, ou seja, passaram do mundo sensível para o inteligível.

Comparação ao Filme A Fuga das Galinhas

Embora pareça ser apenas um simples desenho, o filme A Fuga das Galinhas tem um conteúdo filosófico a nos passar, porque o filme trata de galinhas que vivem em uma situação de alienação em uma granja, na qual elas precisam botar ovos e aquelas que não botam são mortas.

As galinhas tentam fugir, mas todas as tentativas são frustradas, porque muitas tem medo de serem pegas e mortas por terem tentado fugir, ou então dos cachorros que fazem a vigilância da granja.

Elas tentam se organizar para planejar a tão sonhada fuga e são lideradas por uma companheira chamada Ginger que se sentiu indignada ao ver uma de suas amigas ser morta por não ter botado nenhum ovo. Ela então resolve que todas precisam fugir da granja para que não tenham o mesmo fim da companheira.

As galinhas fazem uma reunião e Ginger tenta convencer as amigas, que fora da granja existe um mundo melhor, com liberdade e sem cercas, tentando mostrar para as amigas que as cercas não cercam só a granja, que elas estão nas nossas cabeças. Uma das companheiras diz que tudo o que Ginger disse é besteira e que elas nunca vão conseguir fugir, enquanto uma diz que as chances de fuga são uma entre um milhão. Ginger insiste e diz que então há uma chance.

De repente chega um galo voador e diz que mora na terra da liberdade, mas na verdade ele vive na mesma situação das galinhas só que em um circo. Da mesma forma que as galinhas, ele também quer liberdade, porque não quer continuar vivendo em um circo. Após muitas tentativas frustradas, as galinhas fazem um avião e conseguem fugir.

Partindo da história retratada pelo filme, podemos fazer uma análise filosófica comparando à Alegoria da Caverna, na qual os prisioneiros estão ali desde a infância e não sabem nada sobre o mundo exterior à caverna. No caso do filme, podemos dizer que a granja é a caverna, pois as galinhas vivem em uma situação de aprisionamento, mas a diferença é que elas querem fugir, e os prisioneiros da Alegoria da Caverna não querem fugir, porque a vida da caverna é cômoda.

No que diz respeito às correntes que aprisionam os homens da caverna, no filme elas podem ser simbolizadas pelo muro que impede as galinhas de ver o que se passa no mundo fora da granja. Isso faz que elas pensem em uma realidade exterior semelhante à vida alienada que levam,da mesma forma que os prisioneiros da caverna pensam que aquilo que eles notam na caverna é a realidade exterior.

Na Alegoria da Caverna, nós temos um prisioneiro que se liberta , volta para libertar os companheiros e é morto porque os prisioneiros não acreditaram naquilo que ele disse sobre a realidade exterior, o mundo das idéias, o mundo supra-sensível, o mundo metafísico. A esse prisioneiro nós chamamos de filósofo, porque ele deixou a amarras do senso comum em busca do conhecimento verdadeiro. E a essa busca nós chamamos de Filosofia. No filme, esse filósofo pode ser representado na personagem de Ginger, a galinha que sente-se indignada com a vida alienada da granja ao ver uma amiga morrer e resolve fugir e libertar as companheiras. A atitude de Ginger é semelhante à do filósofo, que quer libertar-se do mundo de respostas prontas do senso comum para ir em busca de uma realidade diferente, para buscar respostas mais concretas para as coisas. E o instrumento para essa busca é a apaixonante Filosofia, que nos instiga a procurar cada vez mais o conhecimento. A diferença entre a galinha Ginger e o prisioneiro da caverna que se liberta é que ela não foi morta pelas companheiras, que acreditaram na fuga e saíram da vida alienada que levavam.

Para finalizar a comparação, temos a música Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto, uma composição feita pelo grupo Legião Urbana depois que seus componentes leram um livro sobre a Doutrina de Buda em um hotel e fizeram um trecho falando sobre o sofrimento e a dor. Sobre a música eu utilizei a parte que fala “quando o sol bater na janela do teu quarto” relacionando com a idéia do Mito da Caverna, quando diz que os prisioneiros estavam de costas para a entrada e que entrava uma fresta de luz. É exatamente isso que acontece quando o sol bate na janela do nosso quarto, um pouquinho da luz que entra nos faz imaginar o dia lindo e os deveres que nos esperam lá fora. Outra parte da música que eu utilizei foi, “ até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem. Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor. É dessa forma que temos que agir diante das dificuldades que temos em nossa vida, temos que ter coragem e acreditar na superação dos obstáculos e que, através deles, vamos vencer e crescer na vida.

Enfim, gostaria de concluir que o Mito da Caverna, a vida do Buda o filme A Fuga das Galinhas e a música Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto, tem um conteúdo filosófico a nos passar, porque muitas vezes nós nos assemelhamos aos prisioneiros da caverna, ao Buda, às galinhas e vivemos acomodados diante da realidade e daquilo que o senso comum nos apresenta, ou seja, o mundo das respostas prontas, do comodismo é a nossa caverna, o nosso palácio, e a nossa granja, cercados de preconceitos e de aparências, que absorvemos como verdades. Mas, graças à capacidade que temos de raciocinar e à Filosofia, podemos nos libertar do mundo das sombras, das aparências e das ilusões, contemplar a verdade e orientar as almas no caminho certo, porque a luz cada uma tem, basta ser orientada no caminho certo. Essa é a nossa tarefa como educadores, a de orientar com coragem e otimismo, acreditando em nosso trabalho.

Palestra Realizada Pelo Professor Danilo Freire
Licenciado Filosofia pela Unifai