O Mito do enriquecimento econômico

20 Outubro, 2008

A mídia constitui para a grande maioria a formadora de consciência e opinião da grande massa. A massificação do pensamento constitui, sem dúvida, uma das maneiras de alienação presentes na sociedade atual. “O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições mais justas para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos (…) Desaparecendo diante do aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor do que nunca promovido por ele. Numa situação injusta,a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela destinados” (ADORNO, Theodor W. HORKMEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, p.14).

Em outras palavras, o enriquecimento econômico é um mito terrrível da atualidade; a sociedade realmente produz mais, mas isso não representa um grau de maior justiça e melhores condições de vida; pelo contrário, aumenta-se a pobreza. Na atual conjuntura os governos privatizam os serviços todavia não diminuem impostos que seriam em tese pagamento por um serviço prestado pelo Estado que passa a ser prestado pela iniciativa privada que por vezes fixam valores arbitrariamente.

Particularmente em relação a certas campanhas ambientais embora legítimas e meritórias considero por vezes ingênuas pois jamais destruíremos a natureza! Esse cosmos vai se adaptar apenas a uma nova situação, quem irá desaparecer somos nós, seres humanos!

O mito do crescimento econômico é terrível, nos tornamos alienados. Infelizmente, muitas instituições religiosas tornaram-se empresas que se não vendem um pedaço do céu, vende um verniz religioso em que se manipulam mentes para arrecadações milionárias. Mesmo canais de TV religiosos muitas vezes não conseguem ficar mais de 30 minutos sem uma apelação para uma colaboração condicionada a muitas bençãos religiosas ou maldição caso se negue a fazê-la o telespectador. Vende-se uma religião e um deus capitalissta onde quando eu me converto minha conta bancária aumenta; um deus que apóia nossa omissão social.

Criamos as metas, as mais diversas! Quando cumprimos uma, já colocamos outra superior. Funcionários sempre trabalhando sobre pressão! O ser humano insatisfeito, consumista! E nos esquecemos que o ser humano é um ser para a morte! Surge uma literatura de auto-ajuda para motivar as pessoas a não desistir de suas metas.

Alienação para Marx designa o estado de quem se encontra diante dos produtos de sua atividade como diante de um poder estranho que o domina; assim, ele torna-se escravo de suas produções, bens, mercadoria, capital e dinheiro. Nunca nos comunicamos com tanta facilidade on line, e nos tornamos incapazes de dialogar presencialmente, não temos tempo!

“O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, nos extraviamos. A cobiça envenou a alma dos homens… levantou no mundo as murralhas do ódio.. Pensamos em demasia e sentimos pouco. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos. Mais do que máquinas precisamos de humanidade; mais do que inteligência, precisamos de afeição, doçura. Sem estas virtudes, a vida será de violência, tudo estará perdido” Charles Chaplin

Portanto, urge a formação de uma nova maneira de pensar superando uma ideologia selvagem capitalista onde as pessoas são tratadas como objeto para lucros apenas e depois não se sabe o porquê de tantos depressivos. Devemos amar as pessoas e gostar das coisas, e não o contrário. A pessoa humana precisa ganhar centralidade. Do contrário, estamos exterminando o sentido da própria existência humana. As religiões precisam se unir, superar suas divergências como dizia Papa João XXIII: “devemos ver o que nos une e não o que nos separa” e certamente o que nos une é a prática do amor. Hans Kung fala com muita categoria: “Não haverá paz no mundo quando não houver paz entre as religiões”. Hannah Arendt nos ensina: “O amor é um acontecimento a partir pode advir um acontecimento ou um destino”. A humanidade hoje mais do que nunca não precisa tanto de dinheiro, mas sim nas palavras de Madre Teresa de Calcutá “o mundo não tem fome apenas de pão, mas de amar e ser amado”. Que avanço tecnológico é esse que ainda o mundo inteiro quando poderia saciar a fome de tantos continua gastando em armamentos de guerra! E se há armamentos mais cedo ou mais vai se ter que gastar estes armamentos, é como quem anda com uma arma sem motivo, certamente na primeira situação de conflito provavelmente irá usá-la.

O Mito do crescimento econômico é um desafio em todos os sentidos… Até para termos um pouco de tempo para aquilo que é mais importante do que apenas ganhar dinheiro… Afinal passamos muito breve por esta existência e precisamos dar um sentido existencial para ela.

Escrito por Fabio Gabriel


A Educação e o Mito de Platão

11 Outubro, 2008

Por Carlos César Cunha – Filósofo Clinico.

Este pequeno ensaio, objetiva mostrar a educação na perspectiva de Platão exposto no Livro VII de A República. Platão sempre usou a analogia para expor suas idéias, todavia, no Livro VII de A República ele usou deste recurso para tratar do problema do conhecimento, ou seja, sua perspectiva epistemológica sobre o conhecimento, desde o conhecimento sensível até o conhecimento inteligível.

Esta mesma analogia pode ser usada sob o ponto de vista da educação, fundamentalmente da sua proposta de educação de homem grego. O ideal de educação platônico, como na maioria dos pensadores gregos, é intrinsecamente ligado à política e a política não é uma questão de opinião, mas sim uma questão de saber. O saber em Platão é, constitui na saída do mundo sensível em direção mundo inteligível sendo a dialética a principal via para tal fato. Assim o governante é aquele que atingiu todos esses graus da formação, estando apto a governar o Estado.

Portanto, não devemos ver o platonismo como um corpo de verdades eternas. O que é fundamental na história da filosofia são os problemas levantados por um pensador, várias respostas são dadas ao longo da história, como se vê, por exemplo, em Platão, que levanta as seguintes questões: qual o melhor tipo de governo? Qual o melhor processo educativo?

Nesta perspectiva, o fato de uma doutrina ser historicamente recuada no tempo não implica que ela deixe de ser atual. As filosofias não somente são produtos da história, mas também são criadoras de história. A filosofia de Platão pertence, sem dúvida alguma, a essa espécie. O que importa nisto é que o pensamento de Platão cunhou novas maneiras de pensar, não somente de maneira filosófica, mas também de maneira científica, bem como o surgimento de novos paradigmas na moral, política e na técnica que, de certa maneira, estão presentes no nosso modo de pensar governar, educar, etc.

Na República, a organização da cidade ideal fundamenta-se na divisão racional do trabalho. Como reformador social, Platão considera que a justiça depende da diversidade de funções exercidas por três classes distintas: a dos artesãos, dedicados à produção de bens materiais; a dos soldados, encarregados de defender a cidade; a dos guardiães, incumbidos de zelar pela observância das leis. Produção, defesa, administração interna, estas as três funções essenciais da cidade. E o importante não é que uma classe usufrua de uma felicidade superior, mas que toda a cidade seja feliz. O indivíduo faria parte da cidade para poder cumprir sua função social e nisso consiste ser justo: em cumprir a própria função.

A reorganização da cidade, para transformá-la em reino da justiça, exige naturalmente reformas radicais. A família, por exemplo, deveria desaparecer para que as mulheres fossem comuns a todos os guardiães; as crianças seriam educadas pela cidade e a procriação deveria ser regulada de modo a preservar a eugenia; para evitar os laços familiares egoístas, nenhuma criança conheceria seu verdadeiro pai e nenhum pai seu verdadeiro filho; a execução dos trabalhos não levaria em conta distinção de sexo mas tão-somente a diversidade das aptidões naturais.

A efetivação dessa utopia social dependeria fundamentalmente, por outro lado, de um cuidadoso sistema educativo, que permitisse a cada classe desenvolver as virtudes indispensáveis ao exercício de suas atribuições. Mas a cidade ideal só poderia surgir se o governo supremo fosse confiado a Reis-filósofos. Esses chefes de Estado seriam escolhidos dentre os melhores guardiães e submetidos a diversas provas que permitiriam avaliar seu patriotismo e sua resistência. Mas, principalmente, deveriam realizar uma série de estudos para poderem atingir a ciência, ou seja, o conhecimento das idéias, elevando-se até seu fundamento supremo: a idéia do Bem.

A Alegoria da Caverna descreve um prisioneiro que contempla, no fundo de uma caverna, os reflexos de simulacros que, sem que ele possa ver, são transportados à frente de um fogo artificial. Como sempre viu essas projeções de artefatos, toma-os por realidade e permanece iludido. A situação desmonta-se e sai da inércia, desde que o prisioneiro se liberta: reconhece o engano em que permanecera, descobre a “encenação” que até então o enganara e, depois de galgar a rampa que conduz à saída da caverna, pode lá fora começar a contemplar a verdadeira realidade. Aos poucos, ele, que fora habituado à sombra, vai podendo olhar o mundo real: primeiro através de reflexos, como o do céu estrelado refletido na superfície das águas tranqüilas, até finalmente ter condições para olhar diretamente o Sol, fonte de toda luz e de toda realidade.

Essa alegoria assumiu, ao longo da história, múltiplas dimensões, pode ser vista tanto como fabulação da ascese religiosa, como da filosófica e científica, guarda ainda uma conotação política, que o contexto da República não permite esquecer. Aquele que se liberta das ilusões e se eleva à visão da realidade é o que pode e deve governar para libertar os outros prisioneiros das sombras: é o filósofo-político, aquele que faz de sua sabedoria um instrumento de libertação de consciências e de justiça social, aquele que faz da procura da verdade uma arte de desprestidigitação, um desilusionismo.

A construção do conhecimento constitui, assim, no platonismo, uma conjugação de intelecto e emoção, de razão e vontade: a episteme é fruto de inteligência e de amor. Podemos traçar uma linha divisória no pensamento platônico, um lado representando o plano sensível e outro o plano inteligível. Esses dois segmentos apresentam subdivisões correspondentes a diferentes tipos de objetos sensíveis e inteligíveis e, consequentemente, a modalidade diversas de conhecimento: O processo de conhecimento representa a progressiva passagem das sombras e imagens turmas ao luminoso universo das idéias, atravessando etapas intermediárias. Cada fase encontra sua fundamentação e resolução na fase seguinte. No plano sensível o conhecimento não ultrapassa o nível da opinião, a plausibilidade.

A primeira etapa do conhecimento inteligível é representada pela diânoia, conhecimento discursivo e mediatizador, que estabelece ligações racionais: é o conhecimento típico das matemáticas. O conhecimento sensível deve fundamentar-se nesse patamar que lhe está sobreposto e lhe dá sustentação. Isso significa que, para Platão, numa perspectiva do Renascimento, o conhecimento do mundo físico deve ser constituído como instrumental matemático. Mas os conhecimentos matemáticos não constituem no platonismo, o ápice da ciência. São ainda uma forma de intelegibilidade primeira, marcada por compromissos como plano sensível: as entidades matemáticas são múltiplas. Esta só se alcança quando, além das entidades matemáticas, chega-se à evidência puramente intelectual das idéias. Chega-se assim ao domínio das formas, à dialética que se apresenta como uma matemática, assim a dialética se torna condição sine qua no, ou seja, necessária para se chegar ao mundo das idéias, e ao Bem supremo.

No cume do mundo das idéias, a essência do Bem daria sustentação a todo o edifício das formas puras e incorpóreas. Princípio de conhecimento e de cognoscibilidade, o Bem exerce papel análogo ao que o Sol possui no plano sensível e material. A essência é o absoluto irrelacionável e por isso mesmo indefinível: dele só se podem ter indicações aproximadas, como as que obtêm de uma “justa medida”.

Assim, para Platão se dá a formação o verdadeiro filósofo, apesar de a palavra philósophos possuir na linguagem platônica, um conteúdo tão grande de disciplina dialética da inteligência, apresenta em primeiro lugar, um sentimento mais amplo e fundamental, que é o de amante da cultura.

Para concluir, podemos levantar a seguinte questão: o que nos mostra ainda hoje a leitura de Platão, especificamente o Livro VII de A República?

Acredito ser, pelo menos um momento de reflexão, onde podemos desconfiar das próprias opiniões e das opiniões dos outros, a ponto de sermos capazes, em todos os momentos, de afirmar, à semelhança de Sócrates que só tinha certeza da dúvida. Esta atitude nos leva a questionar, a estabelecer um diálogo com nós mesmo e com outrem. Esta é uma atitude fundamentalmente educacional e filosófica.

Sem dúvida alguma, a Alegoria da Caverna, eternizou-se ao expor o mundo sob o aspecto sensível e inteligível. Surge a compreensão e o alcance dos conceitos de sentido legitimado, a universalidade, elementos constitutivos da racionalidade.

Assim, o Livro VII de A República de Platão, contribuiu e contribui não só para a história do pensamento, como uma grande referência histórica, mas, como já dissemos antes, o que é fundamental na filosofia são as questões levantadas, muito mais que suas respostas a estas questões.

BIBLIOGRAFIA

JAERGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. Trad. de Artur M. Parreira. São Paulo/Brasília: Martins Fonte/Editora da UnB, 1986.

MONDOLFO, Rodolfo. O homem na cultura antiga: a compreensão do sujeito na cultura antiga. Trad. de Luiz Aparecido Caruso. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1968.

PLATÃO. A República: Livro VII. Trad. de Elza Moreira Marcelina. Apresentação e comentários de Bernard Piettre. São Paulo/Brasília: Ática/Editora da UnB, 1989.

________. A República. Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.


O MITO DE ÉDIPO REI

30 Setembro, 2008

Na antiguidade, os gregos cultuavam uma série de deuses (Zeus, Hera, Afrodite, etc.) e semideuses, acreditando que os mesmos tinham forma humana. Por isso, a religião deles era conhecida como politeísta antropomórfica.

A distinção entre deuses e semideuses se dava através do fato de que os deuses eram imortais e provenientes da geração divina. Já os semideuses eram fruto da relação de um deus com uma mortal e não tinham a imortalidade.

Um mito clássico na História da Filosofia é o da tragédia[1] Édipo rei, que posteriormente, no século XIX, foi utilizado por Freud para falar do amor dos filhos para com os pais durante a infância . A história é seguinte:

Laio, rei da cidade de Tebas e casado com Jocasta, foi advertido pelo oráculo[2] de que não poderia gerar filhos e, se esse mandamento fosse desobedecido, o mesmo seria morto pelo próprio filho, que se casaria com a mãe.

O rei de Tebas não acreditou e teve um filho com Jocasta. Depois arrependeu-se do que havia feito e abandonou a criança numa montanha com os tornozelos furados para que ela morresse. A ferida que ficou no pé do menino é que deu origem ao no me Édipo, que significa pés inchados. O menino não morreu e foi encontrado por alguns pastores, que o levaram a Polibo, o rei de Corinto, este que o criou como filho legítimo. Quando ficou sabendo que era filho adotivo, Édipo foi até o oráculo de Delfos para saber o seu destino. O oráculo disse que o seu destino era matar o pai e se casar com a mãe. Espantado, ele deixou Corinto e foi em direção a Tebas. No meio do caminho, encontrou com Laio que pediu para que ele abrisse caminho para passar. Édipo não atendeu ao pedido do rei e lutou com ele até matá-lo.

Sem saber que havia matado o próprio pai, Édipo prosseguiu sua viagem para Tebas. No caminho, encontrou-se com a Esfinge, um monstro metade leão, metade mulher, que atormentava o povo tebano, pois lançava enigmas e devorava quem não os decifrasse. O enigma proposto pela esfinge era o seguinte: Qual é o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio dia e três à tarde? Ele disse que era o homem, pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos, ao meio-dia (idade adulta) anda sobre dois pés e à tarde (velhice) precisa das duas pernas e de uma bengala. A Esfinge ficou furiosa por ter sido decifrada e se matou.

O povo de Tebas saudou Édipo como seu novo rei, e entregou-lhe Jocasta como esposa. Depois disso, uma violenta peste atingiu a cidade e Édipo foi consultar o oráculo, que respondeu que a peste não teria fim enquanto o assassino de Laio não fosse castigado. Ao longo das investigações, a verdade foi esclarecida e Édipo cegou-se e Jocasta enforcou-se.

O COMPLEXO DE ÉDIPO

No século XIX, Sigmund Freud fez uma reinterpretarão do mito de Édipo, denominada como o Complexo de Édipo. Segundo Freud, o Complexo de Édipo é um conjunto de desejos amorosos e hostis, que uma criança experimenta em relação aos seus pais. Em sua forma positiva, o complexo é semelhante à história do mito, ou seja, desejo da morte do rival que é a pessoa do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Em sua forma negativa, apresenta-se de forma inversa, ou seja, raiva do sexo oposto e amor pelo mesmo sexo.

De acordo com o pensamento freudiano, o Complexo de Édipo é vivido entre os três e os cinco anos e desempenha um papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. Ele ainda ressalta a influência do comportamento dos pais na vida da criança.

Escrito pelo Professor Danilo Freire


[1] Gênero de teatro grego que retratava temas morais e religiosos.

[2] Local destinado à consulta dos deuses na Grécia antiga. O oráculo mais famoso era o de Delfos, que foi consagrado ao deus Apolo.