Professor Danilo Freire
O jornalista Elio Gaspari aborda no seu terceiro volume da Série “As Ilusões Armadas” “A Ditadura Derrotada”[1], que pertence ao tríptico intitulado O Sacerdote e o Feiticeiro, as vidas dos dois personagens enfatizados por ele , ao longo de sua obra ( Geisel e Goubery ), motivo pelo qual segundo ele, ela não pode ser classificada como uma história do regime militar. Ele relata os caminhos que os dois percorreram para chegar ao poder , a formação do governo e o seu caminho até a eleição de 1974, quando uma inesperada vitória da oposição mudou o curso da ditadura.
O livro é dividido em quatro partes, subdivididas em cinco títulos e 26 subtítulos e está intitulado O Sacerdote e o Feiticeiro, título que Gaspari daria ao seu ensaio quando iniciou sua pesquisa no Wilson Center For International Scholars, do qual ganhou uma bolsa de três meses em 1984. O seu objetivo era relatar em cem páginas como Geisel e Goubery entre 1974 e 1979 destruíram a ditadura que ajudaram a construir em 1964.
Na primeira parte, o autor fala sobre as vidas de Geisel e Goubery, Geisel o sacerdote e Goubery o feiticeiro, apresentando que o relacionamento dos dois era exclusivamente profissional, começava e terminava no Palácio do Planalto. Geisel era o presidente e Goubery o seu chefe de Gabinete Civil. Esta parte do livro é dividida em dois títulos. No primeiro, Gaspari apresenta uma biografia de Geisel da infância até a presidência e no segundo relata a vida de Goubery, o feiticeiro, enfatizando as sua capacidade intelectual.
Na segunda parte do livro, Elio Gaspari disserta sobre a sucessão do presidente Médici, destacando a importância do voto de Orlando Geisel, que foi fundamental para que Ernesto Geisel fosse lançado como candidato à Presidência da República, pois o presidente tinha um candidato para cada situação. Para um país conflagrado, indicaria o seu amigo Ministro do Superior Tribunal Militar Adalberto Pereira dos Santos. Num país com problemas, Geisel, e num país de perfeita calma, o chefe do Gabinete Civil, Leitão de Abreu. Mas no final, Geisel foi quem mereceu de Médici, o voto que o tornou presidente da República.
Após ser eleito, Geisel passou a enfrentar as primeiras dificuldades, como formular uma equipe e um projeto para governar o país, pois até então não tinha nada disso.Outro problema que encontrou pela frente, foram as denúncias de tortura por parte da Igreja Católica, que passou a combater o regime de todas as formas possíveis. A mãe de todas as encrencas, foi a crise do petróleo de 1973, que reduziu em 6% o PIB americano e dobrou a taxa de desemprego. O petróleo abriu um buraco na economia brasileira, porque aumentou de US$ 2,90 para US$ 11,65 o barril, e o Brasil importava 80% dos combustíveis fósseis que queimava. O grande problema é que o Brasil comprava o petróleo a US$ 18 e o vendia refinado a US$ 3. Ainda nesta parte, o autor escreve sobre as dificuldades de Geisel com a sua equipe, dizendo que ele não abriu mão do AI-5 e, além disso, temia o fracasso do seu governo.
Na terceira parte “No Planalto”, Gaspari nos apresenta o panorama mundial em que Geisel assumiu o poder. A crise do petróleo, e um mundo difícil marcado por ditaduras. Só na América do Sul eram sete países que viviam em regimes ditatoriais. Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Venezuela e Brasil. O autor ainda refere-se às relações entre Igreja e Estado, deixando claro que Geisel queria evitar contatos com a CNBB, e que Goubery almoçou com Dom Paulo Evaristo Arns , Arcebispo de São Paulo na época, com o objetivo de manter sob o controle do governo as denúncias encaminhadas pela Igreja.
No item “O porão intocado”, Elio nos revela que Geisel sabia das torturas e perseguições do governo e as apoiava, pedindo apenas para que os torturadores não deixassem nenhum vestígio das suas ações. O regime era implacável e Geisel era o epicentro de tudo, mas pretendia acelerar a economia para que o PIB crescesse 10% ao ano para que ele pudesse repetir o feito de Médici.
Na última parte, o jornalista disserta sobre a derrota que mudou o curso da ditadura nas eleições para o legislativo de 1974, nas quais o MDB ( partido de oposição )elegeu dezesseis senadores e fez a maioria nas Assembléias Legislativas de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Após a derrota, o presidente Ernesto Geisel disse que o povo não entendia nada de governo. Essa foi a desculpa para a derrota, que teve como principal conseqüência o sepultamento do projeto autônomo de distenção.
A Ditadura Derrotada é um livro revelador que nos possibilita ter o contato com notícias jamais reveladas pelos meios de comunicação, graças à inteligência e dedicação do jornalista Elio Gaspari, que ao longo de dezoito anos de pesquisa examinou com cuidado e paciência a bibliografia, os documentários e, sobretudo, os arquivos e fitas cedidas por Goubery, Geisel e Heitor de Aquino Ferreira . Elio Gaspari representa um grande sinal de compromisso com o jornalismo e com a população brasileira, demonstrando ao povo a importância e o valor do jornalismo brasileiro.
[1] GASPARI, Elio. A ditadura derrotada.São Paulo: Companhia das Letras, 2002. ( As Ilusões Armadas ).
Escrito por webcorreia 
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