A Ditadura Derrotada

29 Outubro, 2008

Professor Danilo Freire

O jornalista Elio Gaspari aborda no seu terceiro volume da Série “As Ilusões Armadas” “A Ditadura Derrotada”[1], que pertence ao tríptico intitulado O Sacerdote e o Feiticeiro, as vidas dos dois personagens enfatizados por ele , ao longo de sua obra ( Geisel e Goubery ), motivo pelo qual segundo ele, ela não pode ser classificada como uma história do regime militar. Ele relata os caminhos que os dois percorreram para chegar ao poder , a formação do governo e o seu caminho até a eleição de 1974, quando uma inesperada vitória da oposição mudou o curso da ditadura.

O livro é dividido em quatro partes, subdivididas em cinco títulos e 26 subtítulos e está intitulado O Sacerdote e o Feiticeiro, título que Gaspari daria ao seu ensaio quando iniciou sua pesquisa no Wilson Center For International Scholars, do qual ganhou uma bolsa de três meses em 1984. O seu objetivo era relatar em cem páginas como Geisel e Goubery entre 1974 e 1979 destruíram a ditadura que ajudaram a construir em 1964.

Na primeira parte, o autor fala sobre as vidas de Geisel e Goubery, Geisel o sacerdote e Goubery o feiticeiro, apresentando que o relacionamento dos dois era exclusivamente profissional, começava e terminava no Palácio do Planalto. Geisel era o presidente e Goubery o seu chefe de Gabinete Civil. Esta parte do livro é dividida em dois títulos. No primeiro, Gaspari apresenta uma biografia de Geisel da infância até a presidência e no segundo relata a vida de Goubery, o feiticeiro, enfatizando as sua capacidade intelectual.

Na segunda parte do livro, Elio Gaspari disserta sobre a sucessão do presidente Médici, destacando a importância do voto de Orlando Geisel, que foi fundamental para que Ernesto Geisel fosse lançado como candidato à Presidência da República, pois o presidente tinha um candidato para cada situação. Para um país conflagrado, indicaria o seu amigo Ministro do Superior Tribunal Militar Adalberto Pereira dos Santos. Num país com problemas, Geisel, e num país de perfeita calma, o chefe do Gabinete Civil, Leitão de Abreu. Mas no final, Geisel foi quem mereceu de Médici, o voto que o tornou presidente da República.

Após ser eleito, Geisel passou a enfrentar as primeiras dificuldades, como formular uma equipe e um projeto para governar o país, pois até então não tinha nada disso.Outro problema que encontrou pela frente, foram as denúncias de tortura por parte da Igreja Católica, que passou a combater o regime de todas as formas possíveis. A mãe de todas as encrencas, foi a crise do petróleo de 1973, que reduziu em 6% o PIB americano e dobrou a taxa de desemprego. O petróleo abriu um buraco na economia brasileira, porque aumentou de US$ 2,90 para US$ 11,65 o barril, e o Brasil importava 80% dos combustíveis fósseis que queimava. O grande problema é que o Brasil comprava o petróleo a US$ 18 e o vendia refinado a US$ 3. Ainda nesta parte, o autor escreve sobre as dificuldades de Geisel com a sua equipe, dizendo que ele não abriu mão do AI-5 e, além disso, temia o fracasso do seu governo.

Na terceira parte “No Planalto”, Gaspari nos apresenta o panorama mundial em que Geisel assumiu o poder. A crise do petróleo, e um mundo difícil marcado por ditaduras. Só na América do Sul eram sete países que viviam em regimes ditatoriais. Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Venezuela e Brasil. O autor ainda refere-se às relações entre Igreja e Estado, deixando claro que Geisel queria evitar contatos com a CNBB, e que Goubery almoçou com Dom Paulo Evaristo Arns , Arcebispo de São Paulo na época, com o objetivo de manter sob o controle do governo as denúncias encaminhadas pela Igreja.

No item “O porão intocado”, Elio nos revela que Geisel sabia das torturas e perseguições do governo e as apoiava, pedindo apenas para que os torturadores não deixassem nenhum vestígio das suas ações. O regime era implacável e Geisel era o epicentro de tudo, mas pretendia acelerar a economia para que o PIB crescesse 10% ao ano para que ele pudesse repetir o feito de Médici.

Na última parte, o jornalista disserta sobre a derrota que mudou o curso da ditadura nas eleições para o legislativo de 1974, nas quais o MDB ( partido de oposição )elegeu dezesseis senadores e fez a maioria nas Assembléias Legislativas de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Após a derrota, o presidente Ernesto Geisel disse que o povo não entendia nada de governo. Essa foi a desculpa para a derrota, que teve como principal conseqüência o sepultamento do projeto autônomo de distenção.

A Ditadura Derrotada é um livro revelador que nos possibilita ter o contato com notícias jamais reveladas pelos meios de comunicação, graças à inteligência e dedicação do jornalista Elio Gaspari, que ao longo de dezoito anos de pesquisa examinou com cuidado e paciência a bibliografia, os documentários e, sobretudo, os arquivos e fitas cedidas por Goubery, Geisel e Heitor de Aquino Ferreira . Elio Gaspari representa um grande sinal de compromisso com o jornalismo e com a população brasileira, demonstrando ao povo a importância e o valor do jornalismo brasileiro.



[1] GASPARI, Elio. A ditadura derrotada.São Paulo: Companhia das Letras, 2002. ( As Ilusões Armadas ).


A Ditadura Escancarada

27 Outubro, 2008

A Ditadura Escancarada[1] é o segundo volume da Série “As Ilusões Armadas”, que engloba os cinco livros escritos pelo jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar.

Neste livro, o autor relata o período que vai do ano de 1969, um pouco depois do decreto do AI-5 até o extermínio da Guerrilha do Araguaia em 1974. Elio classifica este período como o mais duro da repressão militar, marcado por uma grande desordem nos quartéis e a violência nas prisões durante os denominados “Anos de Chumbo”.

Ao mesmo tempo que conviveu com os “Anos de Chumbo”, a população brasileira viveu uma época marcada pela euforia do tricampeonato mundial de futebol conquistado na copa de 1970, obras como a construção da Ponte Rio- Niterói e a Rodovia Transamazônica, isso sem mencionar o milagre brasileiro.

O livro é dividido em quatro partes, que estão subdivididas em 22 títulos, nos quais Gaspari disserta sobre a anarquia no interior das Forças Armadas e o uso da tortura como instrumento de poder até o extermínio da Guerrilha do Araguaia.

Na primeira parte “O Choque”, Gaspari escreve sobre a tortura praticada pelo governo para combater a esquerda revolucionária, a necessidade de um braço armado para atingir com rapidez os grupos de luta armada ( a Operação Bandeirante ) e suas ações de perseguição e as prisões dos opositores do regime, o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, e a anarquia no interior das Forças Armadas, gerada pela sucessão de Costa e Silva na sua doença e impedimento de continuar na presidência. Ele encerra esta parte do livro falando sobre a chegada de Médici ao poder e o início do seu governo.

Na segunda parte, o autor relata ao longo de cinco títulos, a trajetória de Carlos Marighella como comandante da Aliança Libertadora Nacional e mentor de assaltos e seqüestros, a deserção do capitão Carlos Lamarca que fortaleceu a guerrilha, tornando-se o comandante da Vanguarda Popular Revolucionária, com a qual permaneceu até ser morto em 1971 no sertão baiano. Nesta parte do livro, Elio Gapari ainda disserta sobre a prisão dos dominicanos acusados de envolvimento com Marighella em novembro de 1969 e a criação do DOI ( Destacamento de Operação e Informação ) , e a história dos mortos e torturados pelos órgãos de repressão do governo militar.

No item “A ratoeira”, o jornalista fala sobre a armadilha que o governo fez para acabar com o foco urbano da guerrilha e resolver o problema de combate ao terrorismo no país. Ele encerra a parte falando sobre o milagre econômico, muito propagado pelo regime e a mordaça, a grande censura aos meios de comunicação, que foi o mais longo período de censura na História do Brasil independente.

Na terceira parte, o autor nos apresenta a Igreja Católica lutando em defesa dos direitos humanos através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ( CNBB ), e o aniquilamento da elite brasileira, que fez com que o regime militar acabasse com uma grande geração de políticos do nosso país, com as cassações e suspensões de direitos políticos.

No segundo item, o jornalista nos mostra como o regime militar via na militância dos padres da igreja a soberba de Lúcifer, e a Igreja via na violência do regime a mesma soberba. Um acusava o outro. Ainda neste item, Gaspari relata a perseguição à Igreja Católica por parte dos militares, e a posição de Dom Hélder Câmara contrária à ditadura. Ele é considerado a maior figura política da História da Igreja no Brasil.

No item “O Brasil difamado”, o autor apresenta a visão que os outros países tinham do Brasil, um, país onde se torturava e matava. Jornais como o The New York Times, Le Monde e The Times, publicavam nos Estados Unidos, França e Inglaterra, as notícias do porão brasileiro. Além das notícias publicadas em jornais estrangeiros, Dom Hélder fez um discurso em Paris, pedindo ao povo que dissesse ao mundo que no Brasil torturavam pessoas. Ele lançou-se num combate direto ao regime.

Nos dois itens seguintes “Pra trás Brasil” e “Nada a Fazer”, Gaspari fala sobre as denúncias da CNBB sobre as torturas e a censura que proibiu a fala do Papa Paulo VI, a derrota do Movimento Democrático Brasileiro ( o partido de oposição ) nas eleições para o Legislativo de 1970 e o elogio do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon a Médici, apontando-o como o maior presidente da História do Brasil.

No último item desta parte, o escritor nos relata a marcha de Carlos Lamarca após a morte de Carlos Marighella, em que o próprio dizia aos companheiros da vanguarda Popular Revolucionária, que o grupo estava esvaziando até morrer no sertão baiano em 1971.

A última parte, Elio destina ao envolvimento de oficiais das Forças Armadas em contrabando, a corrupção e a impunidade entre os órgãos de segurança, a tortura usada como política de Estado, e encerra o livro falando sobre o extermínio da Guerrilha do Araguaia.

A leitura de “A Ditadura Escancarada” é muito interessante, pois revela as dificuldades do Brasil durante os “Anos de Chumbo”, as articulações dos grupos de esquerda, as guerrilhas e a repressão do governo, que utilizava a tortura para combater o terrorismo e a oposição, além da anarquia que atingiu o interior das Forças Armadas neste período. Ler sobre a temática abordada no livro deve ser um compromisso de todos aqueles que desejam saber um pouco mais sobre os “Anos de Chumbo”.


[1] GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 ( As ilusões Armadas ).


A Ditadura Envergonhada

22 Setembro, 2008

Resenha pelo Professor Danilo Freire

O Jornalista Elio Gaspari relata em seu livro A Ditadura Envergonhada[1], o período que vai da deposição de João Goulart no dia 31 de março de 1964, até o período posterior ao decreto do AI-5, quando os padrões de repressão endureceram por parte dos militares de linha-dura.

O livro é o primeiro da série “As Ilusões Armadas” que está dividida em cinco volumes, que Elio preparou ao longo de dezoito anos de pesquisa, que ele iniciou no ano de 1984, quando ganhou uma bolsa de três meses do Wilson Center For International Scholars. Até então, o seu objetivo era escrever um ensaio de mais ou menos cem páginas com o título “Geisel e Goubery, o Sacerdote e o Feiticeiro”, no qual pretendia explicar como e por que Geisel e Goubery entre 1974 e 1979, desmontaram a ditadura militar que haviam ajudado a construir em 1964. A idéia do ensaio foi deixada de lado e tornou-se cinco livros.

O autor recusa a qualificação da sua obra como uma história do regime militar, porque nele ele enfatiza dois personagens (Geisel E Goubery) , mostrando o estratagema de suas vidas. Construíram e derrubaram a ditadura.

Em “A Ditadura Envergonhada”, Gaspari faz um relato do golpe militar de 1964, a luta pelo poder nos primeiros anos de ditadura, a criação do SNI, a elaboração dos atos institucionais, até o decreto do AI-5 em 13 de dezembro de 1968, e a conhecida aula de tortura de outubro de 1969, presidida pelo tenente Aílton na Vila Militar do Rio de Janeiro.

O livro é dividido em três partes, subdivididas em quatorze capítulos, não quais o autor conta os fatos ocorridos desde a queda de João Goulart até a aula de tortura do tenente Aílton.

Na primeira parte, Gaspari relata a queda do presidente João Goulart, dando um histórico de como ela começou, mostrando que o discurso de Jango no Salão do Automóvel Clube no dia 30 de março, foi o estopim para o golpe do de 31 de março de 1964, que instaurou no Brasil o regime militar. Nesta parte, o autor conta os acontecimentos ocorridos até a eleição de Castello Branco para presidente da República.

Na segunda parte, Elio nos apresenta o regime militar nos seus primeiros anos, a luta pelo poder, a criação do SNI (Serviço Nacional de Informações), e a elaboração dos atos institucionais, criados com o objetivo de legitimar o poder do governo.

Nesta parte, o autor ainda escreve sobre o envolvimento de Leonel Brizola com Fidel Castro e os cubanos, ligados à Revolução Socialista de Cuba em 1959. Durante um certo tempo, Brizola recrutava militantes de esquerda e os enviava a Havana, onde recebiam treinamentos de guerrilha. Ele recebia dinheiro de Cuba e era apoiado para realizar uma revolução no Brasil.

Na terceira parte “A construção”, Elio Gaspari disserta sobre o início da repressão aos movimentos de esquerda e aos opositores do regime. Em primeira instância, ele apresenta a organização da esquerda que pegou em armas e desvinculou-se do Partido Comunista Brasileiro, que era contra a luta armada. Um pouco adiante, ele relata a formação da máquina do Estado, criada para caçar e combater os esquerdistas.

Ainda nesta parte, nos é relatado o governo Costa e Silva, as passeatas e greves de 1968, o endurecimento do regime, o início da guerrilha urbana, o decreto do AI-5 e o crescimento brutal dos padrões de repressão, terminando na famosa aula de tortura do tenente Aílton, em outubro de 1969.

A leitura de “A Ditadura Envergonhada” é fascinante e enriquecedora, pois desperta a memória de um período negro da História do Brasil que jamais será esquecido. Ler sobre o assunto abordado no livro faz bem a todos aqueles que desejam saber um pouco mais sobre o nosso país durante os 21 anos em que vigorou o regime militar. Seria importante se as escolas e faculdades o adotassem como bibliografia, com a finalidade de proporcionar aos alunos um conhecimento maior sobre o período.

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[1] GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 (As Ilusões Armadas )