Cultura Brasileira

21 Agosto, 2008

CULTURA BRASILEIRA: UTOPIA E MASSIFICAÇÃO (1950-1980)
Professor Danilo Freire

O professor universitário e historiador Marcos Napolitano[1], que durante dez anos foi professor da Universidade Federal do Paraná e atualmente leciona na Universidade de São Paulo, faz um panorama da cultura brasileira entre as décadas de 50 e 80, no seu livro Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980), publicado no ano de 2004 pela Editora Contexto. A obra pertence à série Repensando a História, uma coleção coordenada pelo historiador e professor titular da Unicamp Jaime Pinski que tem o objetivo de desenvolver uma análise crítica dos fatos através da reformulação e contextualização dos temas históricos, abordando questões cotidianas pensadas sob o olhar da História. O livro é dividido em cinco capítulos, nos quais Napolitano escreve sobre a historicidade da produção cultural brasileira, traçando como ela se desenvolveu ao longo dos anos 50 e 80, destacando a pluralidade de expressões artísticas que surgiram nesse período, como Cinema, Música, Artes Plásticas, Teatro e como foram veiculadas pelos meios de comunicação. Na introdução, o autor diz que o período de 1950 a 1980 foi muito importante, pois durante ele que se formou a moderna indústria cultural brasileira e que a cultura se manifestou em vários contextos e temáticas sociais, como por exemplo a necessidade de resistência ao autoritarismo do regime militar, instaurado no Brasil a partir de 1964, mostrando o auge da cultura engajada e das mudanças no âmbito da cultura popular, que inicialmente estava mais voltada para aquilo que era proveniente do povo, mas que a partir da década de 50, passou a ter temas sociais e representou o cruzamento de elementos folclóricos do Brasil rural com a cultura do Brasil urbano e industrializado.

No primeiro capítulo “Sonhando com a modernidade: a cultura brasileira nos anos 50”, Marcos escreve sobre o cinema e o rádio nos anos 50, com destaque para a eleição da rainha do rádio de 1953, que foi possível graças à importância que o rádio tinha para as massas urbanas, pois a sociedade brasileira, passava por um processo de urbanização considerável, este que se intensificou a partir dos anos 40. A população era muito heterogênea e trabalhava nas indústrias que se instalavam no país e tinha o rádio como fonte de lazer, informação e de cultura e, por isso, estimulava o imaginário individual e coletivo do povo brasileiro. Até o final dos anos 50, o rádio era um elemento obrigatório em todas as casas, desde as mais ricas as mais pobres. Desde os anos 40, a nova audiência popular girava em torno do carnaval, do cinema e do rádio, sendo que em torno do rádio e do cinema surgiram as primeiras formas da indústria cultural brasileira, apresentando conteúdos do cotidiano popular, pois a urbanização estava crescendo.

A música popular também sofreu algumas mudanças, porque as músicas dançantes como o Baião passaram a ter espaço nas rádios, com temas de luta contra a seca e a dignidade do homem. Um ponto importante dessas mudanças ocorridas na cultura é que o real e o imaginário se cruzaram e isso possibilitou uma nova forma de se pensar o seu povo e a sua cultura. São Paulo destacou-se em três áreas principais: teatro, cinema e artes plásticas, enquanto o Rio de Janeiro tinha a música popular como maior destaque na área cultural. No que se refere à cultura de elite, o autor aponta que na visão desta, o problema não era o veículo de transmissão da cultura, mas os conteúdos e os tipos humanos veiculados, na maioria das vezes pobres, lutando pela vida ou malandros que fugiam às normas de conduta da burguesia. Com base nisso, a idéia era que alguns setores da sociedade passaram a buscar um novo projeto de cultura, que deveria mostrar a face educada da população brasileira. Enquanto o Rio de Janeiro tinha como foco principal o povo urbano , São Paulo estava mais voltada para a cultura de elite. Em São Paulo, o Teatro Brasileiro de Comédia, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz e a Criação do Museu de Arte Moderna, do Museu de Arte de São Paulo e da Bienal de Artes Plásticas, foram as formas mais significativas deste processo de modernização da cultura brasileira.

A partir do final dos anos 40, a burguesia paulista transformou a sua hegemonia econômica em hegemonia cultural, entrando em uma rivalidade com o Rio de Janeiro. Na área do cinema, enquanto o Rio de janeiro tinha as chanchadas populares, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz pretendia conquistar o povo mais voltado para os padrões norte-americanos, mas devido às dificuldades de distribuição dos seus filmes, faliu em 1954. Quando escreve sobre a arte engajada, Marcos Napolitano salienta que depois da Segunda Guerra Mundial, o Partido Comunista Brasileiro foi o partido mais prestigiado pelos artistas e intelectuais tendo uma grande influência no trabalho dos literatos, músicos, jornalistas e sindicalistas.

Ainda no primeiro capítulo, o autor argumenta que o teatro e o cinema, a partir da influência do Partido Comunista tiveram um papel muito importante na renovação das artes de espetáculo nos anos 50. O filme Rio Zona Norte foi uma das expressões mais destacadas da cultura engajada de esquerda da década de 50. No final do capítulo, ele escreve sobre a Bossa Nova, o gênero musical que chegou até as universidades do Rio de Janeiro e São Paulo e gerou a mania da Bossa Nova, como a geladeira Bossa Nova, o automóvel Bossa Nova e até o presidente Bossa Nova (Juscelino Kubtischek). A Bossa Nova começou a ser exportada e os líderes estudantis, com a intenção de criar uma arte engajada, disseram uma alternativa para atingir esse objetivo era politizá-la. Isso aconteceu no início dos anos 60, quando surgiu a moderna MPB com Chico Buarque, Elis Regina, Edu Lobo e outros compositores.

No segundo capítulo “A cultura a serviço da revolução (1960-1967), Napolitano destaca o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE como uma entidade que influenciou as ações dos intelectuais e artistas da época. O objetivo do CPC era desenvolver no povo uma consciência social, ensinando-os a fazer política. O manifesto do CPC tinha a idéia de que o artista burguês deveria abandonar o seu mundo para se engajar, pois para eles, ser povo era uma opção obrigatória a todo artista que tinha como meta o compromisso com a libertação nacional. Marcos escreve também sobre o Cinema Novo argumentando que com a instauração do regime militar, a preocupação inicial não foi com os artistas e intelectuais, e sim com a dissolução das organizações populares (estudantes, sindicatos, operários), e que de 1964 a 1968, mesmo sob o olhar dos militares, houve uma liberdade de criação e expressão artística.

No campo do teatro, inúmeras peças destacaram a parte musical. A parte importante da indústria cultural brasileira foi a veiculação da música pela televisão, que ampliou definitivamente o público da MPB, pois os programas que destacavam a música, como o Fino da Bossa, o Bossaudade e o Jovem guarda, cada um com público diferente trouxeram um público novo para a TV. Os festivais da canção foram os programas de maior audiência na televisão brasileira.

O capítulo “O radical é chic (1968 no Brasil)” é marcado pelo surgimento, apogeu e queda do Tropicalismo, que apesar de ter levantado e ampliado o mercado cultural brasileiro, recebeu muitas críticas. No ano de 1968, houve uma massificação da TV e o Festival Internacional da Canção bateu o recorde de público e a canção de Geraldo Vandré “Para não dizer que falei das flores” também conhecida como caminhando, foi a grande vencedora e se tornou um hino revolucionário, sendo cantada em vários protestos.

O autor encerra o capítulo com o AI-5, que foi uma agressão à cultura brasileira, gerando um vazio cultural, porque a partir do decreto desse Ato Institucional, os artistas, intelectuais e críticos do regime passaram a ser duramente perseguidos, e o governo militar assumiu de vez o controle sobre a sociedade brasileira.

No quarto capítulo “Desbunde, diversão e resistência: a cultura nos anos de chumbo (1970-1975)”, O historiador aborda um dos períodos mais difíceis da história política, econômica e social do Brasil, devido a perseguição dos militares amparados pelo AI-5 ter sido grande. A MPB por exemplo, passou por dificuldades devido à crítica que os compositores faziam ao regime. Muitos artistas brasileiros foram exilados e, no período de 1969-1974, houve um processo de rearticulação da produção cultural brasileira. No último capítulo “Contra todas as ditaduras (1976-1980)” o professor disserta sobre o período de abertura política do governo Geisel e os reflexos desta na área cultural, apresentando a MPB como a trilha sonora da abertura, as mudanças na programação da televisão, e as renovações do cinema e do teatro brasileiro.

O livro é muito interessante e cativa os leitores, pois o autor escreve de forma clara e mapeia os vários caminhos pelos quais a cultura brasileira transitou entre as décadas de 1950 e 1980, destacando a pluralidade de expressões artísticas que surgiram ao longo do período, além de deixar uma referência vasta de textos para teatro da época, filmes, todos disponíveis em vídeo, álbuns fonográficos e uma bibliografia excelente sobre o assunto abordado no livro. A obra é destinada aos profissionais da área de Ciências Humanas, e aos amantes da história e da cultura brasileira, pois aborda vários assuntos como a historicidade da produção cultural e artística e a cultura como instrumento de apoio e de crítica à ditadura, mas acredito que seria extremamente importante que cada cidadão brasileiro se interessasse pela leitura da obra, porque é uma maneira de conhecer mais a história do nosso país e passar o conhecimento adquirido para as futuras gerações, para que todos possam perceber que a história e a memória são coisas extremamente importantes para a nossa vida, pois o tempo é fator de mudança e transformação, e isso nos ajuda a compreender o desenvolvimento humano ao longo dos anos.

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[1]
NAPOLITANO, Marcos. Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980) 2ºed. São Paulo: Contexto, 2004. 133 p. (Repensando a História).


Nossa Senhora Achiropita

19 Agosto, 2008

Axé, Madona Achiropita
Professor Danilo Freire.

A autora Rosangela Borges, aborda em seu livro Axé, Madona Achiropita[1], a presença da cultura afro-brasileira nas celebrações da Igreja de Nossa Senhora Achiropita, no bairro do Bexiga, em São Paulo. O livro foi apresentado originalmente como dissertação de mestrado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Rosangela viu na experiência vivida nas celebrações da Igreja de Nossa Senhora Achiropita, a oportunidade de realizar uma pesquisa que normalmente é feita por antropólogos e historiadores e pouco por cientistas da religião.

O livro é dividido em duas partes subdivididas em quatro capítulos, dois para cada parte. Na primeira parte, a autora nos relata a história do bairro do Bexiga e a vivência dos negros e italianos no bairro e na cidade de São Paulo, ressaltando os aspectos culturais que eles foram apresentando ao longo dos anos, sobretudo aqueles que ajudaram na compreensão dos elementos da cultura afro-brasileira nas celebrações da Igreja de Nossa Senhora Achiropita.

Na segunda parte, após ter feito uma contextualização completa das culturas italiana e afro, bem como o desenvolvimento delas no Bexiga, Rosangela Borges relata o sincretismo cultural – religioso, presente nas manifestações da cultura afro-brasileira no ritual católico.

Nesta parte do livro, a atenção da autora é voltada para os aspectos que facilitam a compreensão da razão de ser de uma pastoral negra no interior da Igreja Católica.

Assim, no capítulo 3 “Um novo rosto da Igreja”, Rosangela fala sobre a inovação da Igreja após o Concílio Vaticano II (1962 – 1965 ), as Conferências de Medellín ( 1968 ) e Puebla (1979 ) e, sobretudo, a Campanha da Fraternidade de 1988, que foi de fundamental importância para fazer com que a Igreja Católica no Brasil, abrisse espaço para discussão no seu interior e também na sociedade, para a situação da população negra, já que o tema da Campanha da Fraternidade foi “Fraternidade e o Negro”.

É no último capítulo do livro, que a autora aborda realmente os detalhes das manifestações da cultura afro-brasileira nas missas, os aspectos históricos da Pastoral Afro da Igreja de Nossa Senhora Achiropita, encerrando a obra falando sobre as religiões afro-brasileiras e a Pastoral Afro.

A leitura de Axé, Madona Achiropita é muito interessante, pois desperta um turbilhão de lembranças da cidade de São Paulo e do bairro do Bexiga. Ler sobre o tema abordado no livro faz bem a todos, especialmente aos que estudam História, Filosofia e Teologia, pois a obra nos apresenta a riqueza da cultura dos afro-descendentes, bem como as suas matrizes culturais e aspectos presentes ao longo da história do bairro, como as rodas de samba que originaram a Escola de Samba da Vai – Vai e a Festa de Santa Cruz, esta que contribuiu muito para a participação da população negra nas celebrações católicas, e foi fundamental para a inclusão dos negros no interior da Igreja Católica e para a formação da Pastoral Afro da Igreja de Nossa Senhora Achiropita.

Danilo de Oliveira Freire
Licenciado em Filosofia Pela UniFai

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[1]BORGES, Rosangela. Axé, Madona Achiropita. Presença da cultura afro-brasileira nas celebrações da igreja de Nossa Senhora Achiropita, em São Paulo. São Paulo: Pulsar, 2001.