O Curta-metragem no Brasil e em Jacarezinho

3 Janeiro, 2009

                                  por L. C. Bragança de Pina*

 

1O Cinema nasceu curto, já que os filmes de Louis Lumière (1864-1948) realizados apartir de 1895, ano em que o cinema nasceu, não passavam de dois  minutos. Cada filme do inventor do Cinematógrafo, que não acreditou no futuro do seu invento, despertou curiosidades, principalmente de um mágico chamado Georges Méliès (1861-1938), mas sobre ele já é uma outra história, que podemos escrever num outro artigo.

Através dos anos, a duração dos filmes foi se tornando cada vez mais dilatados. Nos dias de hoje já podemos assistir a filmes com mais de quatro horas de duração. Após esse grandioso advento das imagens em movimento, ocorrido em Paris no dia 28 de dezembro, no Grand Café, sediado no Boulevard des Capucines, o homem encontraria mais um veículo para se manifestar, abrindo novas vertentes para a criação artística, que se inicia como linguagem com David Wark Griffith (1875-1948). O marco dessa nova fase do Cinema é The Birth of a Nation (O Nascimento de Uma Nação, 1915), que inscreveu o nome de Griffith na História do Cinema.

Alguns meses depois, a grande novidade chegava ao Brasil, exatamente na cidade do Rio de Janeiro e em 1899 surgem os curtas Infelicidade de um Velho na primeira noite de casamento e Uma viagem de núpcias acaba mal, ambos realizados pela “empresa de Paschoal Segreto”.

Desde então, os curtas metragens não deixariam de adquirir sofisticação, tornando-se fonte de experimentação e matriz de intentos criativos para inumeráveis histórias. Um nome reconhecido nesta evolução sofisticada da técnica do curta foi Antônio Serra, que realizaria vários curtas em 1909. Tais exemplos, mesclados com os curtas realizados hoje em dia, que são realizados com suportes sofisticados, somente nos revela que o Cinema ainda é um rio caudaloso, sempre a espera de alguém inspirado para navegar-lhe.

Podemos acompanhar, além do escrito aqui, toda a evolução do curta-metragem num verbete da Enciclopédia do cinema brasileiro (Senac, 2006). Na década de vinte, muitos curtas surgiram, dirigidos por figuras como Eduardo Abelim, Ary Severo, Jota Soares, Luiz de Barros etc. Este, em 1929, com a Sincrocinex, de São Paulo, apresentava o filme sonoro O amor não traz vantagens.

A década de trinta não ficaria indiferente. O maior nome deste período foi, sem dúvidas alguma, o de Humberto Mauro, uma das nossas maiores expressões cinematográficas. Realizador profícuo, dirigiu ficções e documentários (curtos ou longos) e, também, cinejornais.

Em 1959, na Bahia, Glauber Rocha nos concede o seu primeiro filme, o curta-metragem O Pátio. Já em 1962 surgiu Cinco vezes favela, onde cinco curtas formavam um longa, mas cada um com enredo próprio, dirigidos por cineastas hodiernamente reconhecidos e respeitados pela crítica: Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman etc.

É de Hirszman, por exemplo, a seguinte observação sobre os festivais de curta:

“Em nível nacional parece que os festivais sempre tiveram uma conotação um pouco paraturística, aquele negócio do município que vai se beneficiar com o certame, e tem um secretário de turismo e uma série de pessoas no júri que não têm nada a ver com o cinema, não entendem de cinema, o que é um absurdo.”(O Cinema em festivais e os caminhos do curta-metragm no   Brasil, de Miriam Alencar, Embrafilme/Artenova, 1988).

Certamente nos serve como um lembrete de como seguir para alcançarmos uma boa organização para um futuro festival de curtas em Santo Antônio da Platina, dentre muitos outros lembretes, é claro. Esse processo teria grandes chances de ser realizado com mais facilidade já no primeiro ano do governo da médica Maria Ana Pombo. Manifesto-me dessa forma, pois se houvesse sincero interesse do Departamento de Cultura da cidade em implantar um cineclube municipal, já teríamos formada uma boa equipe. Bem que um grupo de abnegados tentou, mas sem nenhuma estrutura e o Cineclube da Casa da Cultura Platinense durou apenas quatro sessões.

Em julho deste ano tivemos apoio da diretora do Colégio Tia Ana Maria (CTAM), Márcia Veiga Freitas Calheiro e lá vamos formando nosso grupo e conversando sobre possíveis projetos audiovisuais na cidade, dentre eles, uma mostra de filmes curtos.  Pois bem, tarefa que poderíamos ter realizado aqui em Santo Antônio da Platina, já foi levado à prática pela rapaziada de Jacarezinho, liderada por João Lucas e Gustavo Gatzke (o Guga), com apoio da prefeitura, do dia 26 ao dia 30 de novembro deste ano.

Jacarezinho, cidade do Norte Pioneiro paranaense com um pouco mais de 40 mil habitantes, foi agraciada por uma primeira mostra de curtas-metragens. Agora, para nós platinenses, nos resta apoiar a iniciativa. Da minha parte, sem cobrar um tostão, como forma de contribuir com a expansão da cultura cinematográfica na região, proferi uma palestra no dia 30 daquele mês, último dia da mostra, sobre alguns apontamentos marcantes para a história dessa arte.

Essa mostra é muitíssimo significativa devido a dois pontos basilares: 1- com a mostra, ficará mais fácil de adquirir patrocínio para um futuro Festival de Curtas; 2 – as perspectivas estão abertas para a formação de uma, digamos, Cooperativa de Cinema do Norte Pioneiro.

Enfim, o formato curto foi, reconhecidamente, o espaço conveniente para que muitos cineastas pudessem desenvolver os seus talentos como aprendizado ou exercício estético, servindo-nos como fonte de novos talentos. Aqui na nossa região temos esses talentos que vem se manifestando na marra e realizando os seus curtas, e até mesmo um  longa-metragem, sem apoio de ninguém.

Bem, retomando a trajetória apontada aqui, a década de oitenta seria marcada com o advento de novos talentos: Carlos Gerbase, autor do excelente livro Direção de Ator, realizou Aulas muito particulares (1989); Carla Camurati, A mulher fatal encontra o homem ideal; Beto Brant com Dov’è Meneghetti?; Tata Amaral, Viver a vida; Eliana Caffé, O Nariz; Jorge Furtado, com Ilha das Flores, premiado em 1990 como o melhor curta metragem no Festival de Berlim e tantos outros.

Com o avanço do formato, era natural que por todo o país se organizassem festivais dedicados, exclusivamente, ao curta-metragem, que desde da década de 60, com o Festival Brasileiro de Cinema Amador (1965 e 1970), que trocaria de nome em 1971, passando a se chamar Festival Brasileiro de Curtametragem, que prosseguiria nos anos de 1972, 1973, 1975 e 1977. Outro festival conhecido era o Festival JB-Mesbla, onde despontaria nomes que se tornaram importantes para o cinema brasileiro, como é o caso, por exemplo, de Rogério Sganzerla. Em 1972 se iniciaria na capital da Bahia, as Jornadas Brasileiras de Curtas Metragens.

Os anos passam e o curta continua revigorado e revelando cineastas que concedem motivos para novíssimos festivais: o Festival Internacional de Curta Metragem, realizado em São Paulo e a Mostra Curta Cinema, que ocorre no Rio de Janeiro, dentre outros. Novos filmes são revelados, premiados e reconhecidos: Socorro Nobre, de Water Salles; , de Beto Brant; Amar!, de Roberto Torero; Amar, de Carlos Gregório; dentre outros.  E não devemos nos esquecer das várias páginas na internet dedicadas ao curta-metragem, onde podemos acompanhar diversas realizações e filmes que antes era difícil de serem assistidos.

 

E vivemos agora, com os novos suportes tecnológicos, a facilidade de realizar curtas seja num celular, numa mini-dv, enfim, a oportunidade também de realizarmos inúmeras experimentações audiovisuais. Onde isso vai dar, sinceramente, não sei. Mas o Cinema é assim, quando pensamos que ele está morto, surge algo que contraria a sentença e novos caminhos são iluminados para novíssimas aventuras.

 

*Especialista em História do Século XX, jornalista, professor, roteirista e cineasta (lcbpina@hotmail.com)


Festa da Consciência Negra

2 Dezembro, 2008

getattachmentFesta da Consciência Negra – Professor Danilo

 

No dia 18 de novembro, foi realizada uma grande festa na Escola Estadual Professor Paulo da Costa Pan Chacon no Município de Itapevi na Grande São Paulo, onde eu tenho muito orgulho de lecionar, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra.

O evento foi marcado por uma grande interação e participação  da comunidade local, sendo dividido entre exposições de trabalhos, apresentações de capoeira, apresentações musicais, teatro e desfile.

Tudo começou nas aulas de Filosofia, pois a Proposta Curricular do Estado de São Paulo, apresenta como assunto a ser discutido e desenvolvido nas aulas o tema Filosofia e Racismo, o qual trabalhei com os alunos do 2º ano do Ensino Médio, como pede a Proposta, desenvolvendo várias aulas interativas, com apresentação de slides, a projeção do filme “Em Defesa da Honra” que retrata um dos momentos mais importantes da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos , a reflexão sobre as músicas Black or White de Michael Jackson  e  We are The World e as sua traduções que vou mencionar no final deste artigo.

 

getattachment4Eu fui o apresentador do evento e na abertura saudei a comunidade falando sobre a importância da luta pela  igualdade social e racial. Em seguida o professor Luiz Henrique fez uma palestra sobre a importância da data como momento de reflexão sobre a igualdade racial. Depois nós tivemos a participação de um grupo de capoeira que abrilhantou o evento e causou grande alegria em nossos alunos e membros da comunidade.

A festa ainda teve uma grande exposição de trabalhos sobre personalidades negras coordenada pela 1professora Elaine de Língua Portuguesa, uma exposição de máscaras africanas confeccionadas pelos alunos do 1º ano do Ensino Médio coordenados por mim e uma exposição sobre os filmes “Homens de Honra”, “À Procura da Felicidade” e  “Um Ato de Coragem” realizada pelos alunos do 2º ano do Ensino Médio coordenados por mim e a exposição sobre o tema Filosofia e Racismo getattachment2que desenvolvi com os alunos do 2º ano do Ensino Médio, enfatizando a importância do respeito mútuo entre as pessoas para a construção de uma sociedade igualitária.

O evento foi encerrado com a peça de  teatro sobre igualdade e o desfile da beleza racial e a premiação dos vencedores,  os dois trabalhos coordenados pelo professor Rodrigo de Geografia.

getattachment31Uma das coisas mais importantes da festa foi a participação do corpo docente da escola que auxiliou na organização dos alunos e na realização dos trabalhos junto aos alunos e da comunidade que sempre participa ativamente dos eventos da escola, trazendo alegria  e descontração para todos que circundam a nossa escola.

Como eu mencionei no texto, vou anexar a esse artigo as músicas Black or White  de Michael Jackson  e  We are The World e as suas traduções.

Black or White - Michael Jackson 

I took my baby
On a Saturday bang
Boy is that girl with you
Yes we're one and the same 

Now I believe in miracles
And a miracle
Has happened tonight 

But, if
You're thinkin'
About my baby
It don't matter if you're
Black or white  
They print my message
In the Saturday sun
I had to tell them
I ain't second to none 

And I told about equality
An it's true
Either you're wrong
Or you're right 

But, if
You're thinkin'
About my baby
It don't matter if you're
Black or white 

I am tired of this devil
I am tired of this stuff
I am tired of this business
Sew when the
Going gets rough
I ain't scared of
Your brother
I ain't scared of no sheets
I ain't scare of nobody
Girl when the
Goin' gets mean 

(L. T. B. Rap performance) 
Protection
For gangs, clubs 
And nations
Causing grief in
Human relations
It's a turf war
On a global scale
I'd rather hear both sides
Of the tale
See, it's not about races
Just places
Faces
Where your blood
Comes from
Is where your space is
I've seen the bright
Get duller
I'm not going to spend
My life being a color 
 (Michael) 
Don't tell me you agree with me 
When I saw you kicking dirt in my eye  
But, if 
You're thinkin' about my baby
It don't matter if you're black or white 

I said if
You're thinkin' of  
Being my baby  
It don't matter if you're black or white 
 
I said if 
You're thinkin' of 
Being my brother 
It don't matter if you're 
Black or white 
 
Ooh, ooh 
Yea, yea, yea now 
Ooh, ooh 
Yea, yea, yea now 
 
It's black, it's white 
It's tough for you 
To get by 
It's black, it's white, whoo 
 
It's black, it's white 
It's tough for you 
To get by 
It's black, it's white, whoo

 

Black or White (Tradução)
 
Preto ou Branco
 
Levei minha garota em uma balada de sábado
Cara, essa menina está com você?
Sim, nós um e a mesma pessoa
Agora eu acredito em milagres
E um milagre aconteceu esta noite
Mas, se você está pensando em minha garota
Não importa se você é preto ou branco
 
Eles publicaram minha mensagem no Saturday Sun
Eu tive que falar pra eles, eu não estou atrás de ninguém
 
E eu falei sobre igualdade
E é verdade, esteja você certo ou errado
Mas se você está pensando em minha garota
Não importa se você é preto ou branco
 
Eu estou cansado desse demônio
Eu estou cansado dessa coisa
Eu estou cansado desse negócio
Improviso quando a coisa fica preta
Eu não tenho medo do seu irmão
Eu não tenho medo de nenhum jornal
Eu não tenho medo de ninguém
Menina, quando a coisa fica feia
 
(L.T.B)
Proteção contra gangues, clubes e nações
Causando aflição nas relações humanas
É uma guerra de territórios numa escala global
Eu preferiria ouvir os dois lados dessa história...
Veja, não se trata de raças,
Apenas lugares, rostos,
De onde vem seu sangue, é onde fica o seu lugar
Eu já vi o brilhante ficar mais opaco
Eu não vou passar a minha vida sendo uma cor
 
Não me diga que concorda comigo
Quando eu te vi chutando poeira em meu olho
Mas, se você está pensando em minha garota
Não importa se você é preto ou branco
 
Eu disse, se você está pensando em ser minha garota
Não importa se você é preta ou branca
 
Eu disse, se você está pensando em ser meu irmão
Não importa se você é preto ou branco
 
Ooh, ooh!
Yea, yea, yea agora...
Ooh, ooh!
Yea, yea, yea agora...
 
É preto, é branco
É duro para todos sobreviver
É preto, é branco, whoo!
 
É preto, é branco
É duro para todos sobreviver
É preto, é branco, whoo! 

We are the World
 
There comes a time when we heed a certain call
When the world must come together as one
There are people dying
Oh, and it's time to lend a hand to life
The greatest gift of all
 
 
We can't go on pretending day by day
That someone, somewhere will soon make a change
We are all a part of God's great big family
And the truth, 
you know, love is all we need
 
We are the world, we are the children
We are the ones who'll make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
Oh, Send them your heart
So they'll know that someone cares
And their lives will be stronger and free
As God has shown us by turning stones to bread
And so we all must lend a helping hand
 
We are the world, we are the children
We are the ones who'll make a brighter day
So let's start giving
Oh, there's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
When you're down and out, there seems no hope at all
But if you just believe there's no way we can fall
Well, well, well, well let us realize that a change
can only
come
When we
stand together as one
 
Chorus:
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
 
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
Chorus:
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
Chorus:
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
Chorus:
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
 
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
 
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
Chorus:
We are the world, we are the children
We are the ones who make a brighter day
So let's start giving
There's a choice we're making
We're saving our own lives
It's true we'll make a better day
Just you and me
We are the World 
Nós Somos o Mundo
 
Chega um momento, quando ouvimos uma certa chamada
Quando o mundo tem que vir junto como um só 
Há pessoas morrendo
E está na hora de dar uma mão a vida
O maior presente de todos
 
Nós não podemos continuar fingindo todos os dias
Que alguém, em algum lugar irá mudar
Todos nós somos parte da grande família de Deus
E a verdade
Você sabe que o amor é tudo que nós precisamos
 
Refrão:
Nós somos o mundo, nós somos as crianças
Nós que fazemos um dia mais brilhante
Assim comecemos nos dedicando
Há uma escolha que nós estamos fazendo
Nós estamos salvando nossas próprias vidas
É verdade que nós faremos um dia melhor, só você e eu
 
Lhes envie seu coração assim eles saberão que alguém se preocupa
E as vidas deles serão mais fortes e independentes
Como Deus nos mostrou transformando pedras em pão
E por isso todos nós temos que dar uma mão amiga
 
Refrão:
Quando você está acabado, e não aparece nenhuma esperança
Mas se você acredita que não há nenhum modo que nós faça cair
Nos deixa perceber que uma mudança só pode vir
Quando nós nos levantamos junto como um só
Refrão: ( quatro vezes).
Refrão (quatro vezes) 

A Ditadura Derrotada

29 Outubro, 2008

Professor Danilo Freire

O jornalista Elio Gaspari aborda no seu terceiro volume da Série “As Ilusões Armadas” “A Ditadura Derrotada”[1], que pertence ao tríptico intitulado O Sacerdote e o Feiticeiro, as vidas dos dois personagens enfatizados por ele , ao longo de sua obra ( Geisel e Goubery ), motivo pelo qual segundo ele, ela não pode ser classificada como uma história do regime militar. Ele relata os caminhos que os dois percorreram para chegar ao poder , a formação do governo e o seu caminho até a eleição de 1974, quando uma inesperada vitória da oposição mudou o curso da ditadura.

O livro é dividido em quatro partes, subdivididas em cinco títulos e 26 subtítulos e está intitulado O Sacerdote e o Feiticeiro, título que Gaspari daria ao seu ensaio quando iniciou sua pesquisa no Wilson Center For International Scholars, do qual ganhou uma bolsa de três meses em 1984. O seu objetivo era relatar em cem páginas como Geisel e Goubery entre 1974 e 1979 destruíram a ditadura que ajudaram a construir em 1964.

Na primeira parte, o autor fala sobre as vidas de Geisel e Goubery, Geisel o sacerdote e Goubery o feiticeiro, apresentando que o relacionamento dos dois era exclusivamente profissional, começava e terminava no Palácio do Planalto. Geisel era o presidente e Goubery o seu chefe de Gabinete Civil. Esta parte do livro é dividida em dois títulos. No primeiro, Gaspari apresenta uma biografia de Geisel da infância até a presidência e no segundo relata a vida de Goubery, o feiticeiro, enfatizando as sua capacidade intelectual.

Na segunda parte do livro, Elio Gaspari disserta sobre a sucessão do presidente Médici, destacando a importância do voto de Orlando Geisel, que foi fundamental para que Ernesto Geisel fosse lançado como candidato à Presidência da República, pois o presidente tinha um candidato para cada situação. Para um país conflagrado, indicaria o seu amigo Ministro do Superior Tribunal Militar Adalberto Pereira dos Santos. Num país com problemas, Geisel, e num país de perfeita calma, o chefe do Gabinete Civil, Leitão de Abreu. Mas no final, Geisel foi quem mereceu de Médici, o voto que o tornou presidente da República.

Após ser eleito, Geisel passou a enfrentar as primeiras dificuldades, como formular uma equipe e um projeto para governar o país, pois até então não tinha nada disso.Outro problema que encontrou pela frente, foram as denúncias de tortura por parte da Igreja Católica, que passou a combater o regime de todas as formas possíveis. A mãe de todas as encrencas, foi a crise do petróleo de 1973, que reduziu em 6% o PIB americano e dobrou a taxa de desemprego. O petróleo abriu um buraco na economia brasileira, porque aumentou de US$ 2,90 para US$ 11,65 o barril, e o Brasil importava 80% dos combustíveis fósseis que queimava. O grande problema é que o Brasil comprava o petróleo a US$ 18 e o vendia refinado a US$ 3. Ainda nesta parte, o autor escreve sobre as dificuldades de Geisel com a sua equipe, dizendo que ele não abriu mão do AI-5 e, além disso, temia o fracasso do seu governo.

Na terceira parte “No Planalto”, Gaspari nos apresenta o panorama mundial em que Geisel assumiu o poder. A crise do petróleo, e um mundo difícil marcado por ditaduras. Só na América do Sul eram sete países que viviam em regimes ditatoriais. Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Venezuela e Brasil. O autor ainda refere-se às relações entre Igreja e Estado, deixando claro que Geisel queria evitar contatos com a CNBB, e que Goubery almoçou com Dom Paulo Evaristo Arns , Arcebispo de São Paulo na época, com o objetivo de manter sob o controle do governo as denúncias encaminhadas pela Igreja.

No item “O porão intocado”, Elio nos revela que Geisel sabia das torturas e perseguições do governo e as apoiava, pedindo apenas para que os torturadores não deixassem nenhum vestígio das suas ações. O regime era implacável e Geisel era o epicentro de tudo, mas pretendia acelerar a economia para que o PIB crescesse 10% ao ano para que ele pudesse repetir o feito de Médici.

Na última parte, o jornalista disserta sobre a derrota que mudou o curso da ditadura nas eleições para o legislativo de 1974, nas quais o MDB ( partido de oposição )elegeu dezesseis senadores e fez a maioria nas Assembléias Legislativas de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Após a derrota, o presidente Ernesto Geisel disse que o povo não entendia nada de governo. Essa foi a desculpa para a derrota, que teve como principal conseqüência o sepultamento do projeto autônomo de distenção.

A Ditadura Derrotada é um livro revelador que nos possibilita ter o contato com notícias jamais reveladas pelos meios de comunicação, graças à inteligência e dedicação do jornalista Elio Gaspari, que ao longo de dezoito anos de pesquisa examinou com cuidado e paciência a bibliografia, os documentários e, sobretudo, os arquivos e fitas cedidas por Goubery, Geisel e Heitor de Aquino Ferreira . Elio Gaspari representa um grande sinal de compromisso com o jornalismo e com a população brasileira, demonstrando ao povo a importância e o valor do jornalismo brasileiro.



[1] GASPARI, Elio. A ditadura derrotada.São Paulo: Companhia das Letras, 2002. ( As Ilusões Armadas ).