Depois que Marcel Duchamp enviou um Urinol para o Salão dos Independentes, em Nova York (1917), o conceito de arte ampliou-se, sendo hoje, praticamente impossível definirmos o que de fato é ou não é arte. Em vista deste fato, temos inúmeros artistas que criam obras ininteligíveis e as completam com nomes criativos, fantasiosos de tamanha complexidade que nem eles conseguem explicar ao público o que de fato produziram. Sua grande arte consiste na criação do nome e de tal conceito.
Vejamos um exemplo: o artista joga em uma tela branca uma tinta vermelha e afirma que sua maravilhosa obra representa as dores da guerra, as grandes paixões humanas (qualquer semelhança com a tela exposta na Pinacoteca é mera coincidência). Ninguém o contradiz, entretanto, para o público é impossível compreender tal obra se não houver um texto explicativo, o qual na maior parte das vezes não é nada didático de maneira que as pessoas se sentem integrantes do grande conto “A roupa nova do rei”, de Hans Christian Andersen. Todos os pseudointelectuais da atualidade não questionam a obra, pois demonstraria que não a puderam compreender e assim perderiam respeito. A população nada compreende, mas o artista dirá que sua arte não é para os simples.
Ora convenhamos, arte que não se compreende é apenas arte decorativa e esta as crianças a partir de 2 anos fazem muito bem. Não estou, caro leitor, afirmando que a arte precisa ser reduzida a meros manuais autoexplicativos, entretanto temos de ter clareza que nenhuma arte fará sentido se não for legível, compreensível ao público. Fazer arte para poucos é justificar com uma desculpa esdrúxula a incapacidade de se fazer compreender de um dito artista e, para estes, haverá sempre “intelectuais” de plantão para estabelecer sentido à obra produzida.
Duchamp, apesar de pintor ficou conhecido mundialmente por seu urinol, o qual foi visto por alguns críticos como uma representação psicanalítica do corpo feminino, mas para o grande público ele continua sendo um urinol comum, de porcelana branca, dos encontrados em banheiro masculino. A grande capacidade do pintor foi estabelecer para sua obra um novo nome o ready-made, o qual conceituou como sendo a utilização de objetos do cotidiano fora de seu contexto de utilização. Acompanhado ao nome deu ao ato um parecer de protesto. Quem eram os críticos para definirem o que é arte? Seguindo a maravilhosa lógica podemos levar ao Museu mais próximo nossas panelas amassadas e dizer que representam a libertação feminina. Entretanto, como a ideia já deixou de ser inovadora fará com que a exposição não seja aceita.
A atitude democrática e inovadora de Marcel Duchamp certamente abriu espaço para que a arte fosse questionada, entretanto, abriu também caminho para que muita pseudo-arte se produza no mundo. Logo, cabe a nós não sermos meros expectadores e agirmos tal qual a criança do conto de Andersen, erguemos nossos dedos, ainda que timidamente e afirmar o que todos veem e possuem medo de dizer: Isto de fato é arte?
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Daiana Fonseca é professora da rede pública do Município de São Paulo, formada em Letras e Filosofia, é também autora do livro “Janelas Descobertas”.







Excelente questionamento que, em um mundo pós-moderno dissimulado e sem memória, põe o dedo na ferida e toca na questão central. O mundo da arte está invadido de mistificação e fetiches derivados diretamente do triunfo da mercadoria. Pseudovanguarda. Pseudocontestação.