O Curta-metragem no Brasil e em Jacarezinho

                                  por L. C. Bragança de Pina*

 

1O Cinema nasceu curto, já que os filmes de Louis Lumière (1864-1948) realizados apartir de 1895, ano em que o cinema nasceu, não passavam de dois  minutos. Cada filme do inventor do Cinematógrafo, que não acreditou no futuro do seu invento, despertou curiosidades, principalmente de um mágico chamado Georges Méliès (1861-1938), mas sobre ele já é uma outra história, que podemos escrever num outro artigo.

Através dos anos, a duração dos filmes foi se tornando cada vez mais dilatados. Nos dias de hoje já podemos assistir a filmes com mais de quatro horas de duração. Após esse grandioso advento das imagens em movimento, ocorrido em Paris no dia 28 de dezembro, no Grand Café, sediado no Boulevard des Capucines, o homem encontraria mais um veículo para se manifestar, abrindo novas vertentes para a criação artística, que se inicia como linguagem com David Wark Griffith (1875-1948). O marco dessa nova fase do Cinema é The Birth of a Nation (O Nascimento de Uma Nação, 1915), que inscreveu o nome de Griffith na História do Cinema.

Alguns meses depois, a grande novidade chegava ao Brasil, exatamente na cidade do Rio de Janeiro e em 1899 surgem os curtas Infelicidade de um Velho na primeira noite de casamento e Uma viagem de núpcias acaba mal, ambos realizados pela “empresa de Paschoal Segreto”.

Desde então, os curtas metragens não deixariam de adquirir sofisticação, tornando-se fonte de experimentação e matriz de intentos criativos para inumeráveis histórias. Um nome reconhecido nesta evolução sofisticada da técnica do curta foi Antônio Serra, que realizaria vários curtas em 1909. Tais exemplos, mesclados com os curtas realizados hoje em dia, que são realizados com suportes sofisticados, somente nos revela que o Cinema ainda é um rio caudaloso, sempre a espera de alguém inspirado para navegar-lhe.

Podemos acompanhar, além do escrito aqui, toda a evolução do curta-metragem num verbete da Enciclopédia do cinema brasileiro (Senac, 2006). Na década de vinte, muitos curtas surgiram, dirigidos por figuras como Eduardo Abelim, Ary Severo, Jota Soares, Luiz de Barros etc. Este, em 1929, com a Sincrocinex, de São Paulo, apresentava o filme sonoro O amor não traz vantagens.

A década de trinta não ficaria indiferente. O maior nome deste período foi, sem dúvidas alguma, o de Humberto Mauro, uma das nossas maiores expressões cinematográficas. Realizador profícuo, dirigiu ficções e documentários (curtos ou longos) e, também, cinejornais.

Em 1959, na Bahia, Glauber Rocha nos concede o seu primeiro filme, o curta-metragem O Pátio. Já em 1962 surgiu Cinco vezes favela, onde cinco curtas formavam um longa, mas cada um com enredo próprio, dirigidos por cineastas hodiernamente reconhecidos e respeitados pela crítica: Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman etc.

É de Hirszman, por exemplo, a seguinte observação sobre os festivais de curta:

“Em nível nacional parece que os festivais sempre tiveram uma conotação um pouco paraturística, aquele negócio do município que vai se beneficiar com o certame, e tem um secretário de turismo e uma série de pessoas no júri que não têm nada a ver com o cinema, não entendem de cinema, o que é um absurdo.”(O Cinema em festivais e os caminhos do curta-metragm no   Brasil, de Miriam Alencar, Embrafilme/Artenova, 1988).

Certamente nos serve como um lembrete de como seguir para alcançarmos uma boa organização para um futuro festival de curtas em Santo Antônio da Platina, dentre muitos outros lembretes, é claro. Esse processo teria grandes chances de ser realizado com mais facilidade já no primeiro ano do governo da médica Maria Ana Pombo. Manifesto-me dessa forma, pois se houvesse sincero interesse do Departamento de Cultura da cidade em implantar um cineclube municipal, já teríamos formada uma boa equipe. Bem que um grupo de abnegados tentou, mas sem nenhuma estrutura e o Cineclube da Casa da Cultura Platinense durou apenas quatro sessões.

Em julho deste ano tivemos apoio da diretora do Colégio Tia Ana Maria (CTAM), Márcia Veiga Freitas Calheiro e lá vamos formando nosso grupo e conversando sobre possíveis projetos audiovisuais na cidade, dentre eles, uma mostra de filmes curtos.  Pois bem, tarefa que poderíamos ter realizado aqui em Santo Antônio da Platina, já foi levado à prática pela rapaziada de Jacarezinho, liderada por João Lucas e Gustavo Gatzke (o Guga), com apoio da prefeitura, do dia 26 ao dia 30 de novembro deste ano.

Jacarezinho, cidade do Norte Pioneiro paranaense com um pouco mais de 40 mil habitantes, foi agraciada por uma primeira mostra de curtas-metragens. Agora, para nós platinenses, nos resta apoiar a iniciativa. Da minha parte, sem cobrar um tostão, como forma de contribuir com a expansão da cultura cinematográfica na região, proferi uma palestra no dia 30 daquele mês, último dia da mostra, sobre alguns apontamentos marcantes para a história dessa arte.

Essa mostra é muitíssimo significativa devido a dois pontos basilares: 1- com a mostra, ficará mais fácil de adquirir patrocínio para um futuro Festival de Curtas; 2 – as perspectivas estão abertas para a formação de uma, digamos, Cooperativa de Cinema do Norte Pioneiro.

Enfim, o formato curto foi, reconhecidamente, o espaço conveniente para que muitos cineastas pudessem desenvolver os seus talentos como aprendizado ou exercício estético, servindo-nos como fonte de novos talentos. Aqui na nossa região temos esses talentos que vem se manifestando na marra e realizando os seus curtas, e até mesmo um  longa-metragem, sem apoio de ninguém.

Bem, retomando a trajetória apontada aqui, a década de oitenta seria marcada com o advento de novos talentos: Carlos Gerbase, autor do excelente livro Direção de Ator, realizou Aulas muito particulares (1989); Carla Camurati, A mulher fatal encontra o homem ideal; Beto Brant com Dov’è Meneghetti?; Tata Amaral, Viver a vida; Eliana Caffé, O Nariz; Jorge Furtado, com Ilha das Flores, premiado em 1990 como o melhor curta metragem no Festival de Berlim e tantos outros.

Com o avanço do formato, era natural que por todo o país se organizassem festivais dedicados, exclusivamente, ao curta-metragem, que desde da década de 60, com o Festival Brasileiro de Cinema Amador (1965 e 1970), que trocaria de nome em 1971, passando a se chamar Festival Brasileiro de Curtametragem, que prosseguiria nos anos de 1972, 1973, 1975 e 1977. Outro festival conhecido era o Festival JB-Mesbla, onde despontaria nomes que se tornaram importantes para o cinema brasileiro, como é o caso, por exemplo, de Rogério Sganzerla. Em 1972 se iniciaria na capital da Bahia, as Jornadas Brasileiras de Curtas Metragens.

Os anos passam e o curta continua revigorado e revelando cineastas que concedem motivos para novíssimos festivais: o Festival Internacional de Curta Metragem, realizado em São Paulo e a Mostra Curta Cinema, que ocorre no Rio de Janeiro, dentre outros. Novos filmes são revelados, premiados e reconhecidos: Socorro Nobre, de Water Salles; , de Beto Brant; Amar!, de Roberto Torero; Amar, de Carlos Gregório; dentre outros.  E não devemos nos esquecer das várias páginas na internet dedicadas ao curta-metragem, onde podemos acompanhar diversas realizações e filmes que antes era difícil de serem assistidos.

 

E vivemos agora, com os novos suportes tecnológicos, a facilidade de realizar curtas seja num celular, numa mini-dv, enfim, a oportunidade também de realizarmos inúmeras experimentações audiovisuais. Onde isso vai dar, sinceramente, não sei. Mas o Cinema é assim, quando pensamos que ele está morto, surge algo que contraria a sentença e novos caminhos são iluminados para novíssimas aventuras.

 

*Especialista em História do Século XX, jornalista, professor, roteirista e cineasta (lcbpina@hotmail.com)

Deixe uma resposta