Início » Resenha » Cultura Brasileira

Cultura Brasileira

CULTURA BRASILEIRA: UTOPIA E MASSIFICAÇÃO (1950-1980)

O professor universitário e historiador Marcos Napolitano[1], que durante dez anos foi professor da Universidade Federal do Paraná e atualmente leciona na Universidade de São Paulo, faz um panorama da cultura brasileira entre as décadas de 50 e 80, no seu livro Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980), publicado no ano de 2004 pela Editora Contexto. A obra pertence à série Repensando a História, uma coleção coordenada pelo historiador e professor titular da Unicamp Jaime Pinski que tem o objetivo de desenvolver uma análise crítica dos fatos através da reformulação e contextualização dos temas históricos, abordando questões cotidianas pensadas sob o olhar da História. O livro é dividido em cinco capítulos, nos quais Napolitano escreve sobre a historicidade da produção cultural brasileira, traçando como ela se desenvolveu ao longo dos anos 50 e 80, destacando a pluralidade de expressões artísticas que surgiram nesse período, como Cinema, Música, Artes Plásticas, Teatro e como foram veiculadas pelos meios de comunicação. Na introdução, o autor diz que o período de 1950 a 1980 foi muito importante, pois durante ele que se formou a moderna indústria cultural brasileira e que a cultura se manifestou em vários contextos e temáticas sociais, como por exemplo a necessidade de resistência ao autoritarismo do regime militar, instaurado no Brasil a partir de 1964, mostrando o auge da cultura engajada e das mudanças no âmbito da cultura popular, que inicialmente estava mais voltada para aquilo que era proveniente do povo, mas que a partir da década de 50, passou a ter temas sociais e representou o cruzamento de elementos folclóricos do Brasil rural com a cultura do Brasil urbano e industrializado.

No primeiro capítulo “Sonhando com a modernidade: a cultura brasileira nos anos 50”, Marcos escreve sobre o cinema e o rádio nos anos 50, com destaque para a eleição da rainha do rádio de 1953, que foi possível graças à importância que o rádio tinha para as massas urbanas, pois a sociedade brasileira, passava por um processo de urbanização considerável, este que se intensificou a partir dos anos 40. A população era muito heterogênea e trabalhava nas indústrias que se instalavam no país e tinha o rádio como fonte de lazer, informação e de cultura e, por isso, estimulava o imaginário individual e coletivo do povo brasileiro. Até o final dos anos 50, o rádio era um elemento obrigatório em todas as casas, desde as mais ricas as mais pobres. Desde os anos 40, a nova audiência popular girava em torno do carnaval, do cinema e do rádio, sendo que em torno do rádio e do cinema surgiram as primeiras formas da indústria cultural brasileira, apresentando conteúdos do cotidiano popular, pois a urbanização estava crescendo.

A música popular também sofreu algumas mudanças, porque as músicas dançantes como o Baião passaram a ter espaço nas rádios, com temas de luta contra a seca e a dignidade do homem. Um ponto importante dessas mudanças ocorridas na cultura é que o real e o imaginário se cruzaram e isso possibilitou uma nova forma de se pensar o seu povo e a sua cultura. São Paulo destacou-se em três áreas principais: teatro, cinema e artes plásticas, enquanto o Rio de Janeiro tinha a música popular como maior destaque na área cultural. No que se refere à cultura de elite, o autor aponta que na visão desta, o problema não era o veículo de transmissão da cultura, mas os conteúdos e os tipos humanos veiculados, na maioria das vezes pobres, lutando pela vida ou malandros que fugiam às normas de conduta da burguesia. Com base nisso, a idéia era que alguns setores da sociedade passaram a buscar um novo projeto de cultura, que deveria mostrar a face educada da população brasileira. Enquanto o Rio de Janeiro tinha como foco principal o povo urbano , São Paulo estava mais voltada para a cultura de elite. Em São Paulo, o Teatro Brasileiro de Comédia, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz e a Criação do Museu de Arte Moderna, do Museu de Arte de São Paulo e da Bienal de Artes Plásticas, foram as formas mais significativas deste processo de modernização da cultura brasileira.

A partir do final dos anos 40, a burguesia paulista transformou a sua hegemonia econômica em hegemonia cultural, entrando em uma rivalidade com o Rio de Janeiro. Na área do cinema, enquanto o Rio de janeiro tinha as chanchadas populares, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz pretendia conquistar o povo mais voltado para os padrões norte-americanos, mas devido às dificuldades de distribuição dos seus filmes, faliu em 1954. Quando escreve sobre a arte engajada, Marcos Napolitano salienta que depois da Segunda Guerra Mundial, o Partido Comunista Brasileiro foi o partido mais prestigiado pelos artistas e intelectuais tendo uma grande influência no trabalho dos literatos, músicos, jornalistas e sindicalistas.

Ainda no primeiro capítulo, o autor argumenta que o teatro e o cinema, a partir da influência do Partido Comunista tiveram um papel muito importante na renovação das artes de espetáculo nos anos 50. O filme Rio Zona Norte foi uma das expressões mais destacadas da cultura engajada de esquerda da década de 50. No final do capítulo, ele escreve sobre a Bossa Nova, o gênero musical que chegou até as universidades do Rio de Janeiro e São Paulo e gerou a mania da Bossa Nova, como a geladeira Bossa Nova, o automóvel Bossa Nova e até o presidente Bossa Nova (Juscelino Kubtischek). A Bossa Nova começou a ser exportada e os líderes estudantis, com a intenção de criar uma arte engajada, disseram uma alternativa para atingir esse objetivo era politizá-la. Isso aconteceu no início dos anos 60, quando surgiu a moderna MPB com Chico Buarque, Elis Regina, Edu Lobo e outros compositores.

No segundo capítulo “A cultura a serviço da revolução (1960-1967), Napolitano destaca o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE como uma entidade que influenciou as ações dos intelectuais e artistas da época. O objetivo do CPC era desenvolver no povo uma consciência social, ensinando-os a fazer política. O manifesto do CPC tinha a idéia de que o artista burguês deveria abandonar o seu mundo para se engajar, pois para eles, ser povo era uma opção obrigatória a todo artista que tinha como meta o compromisso com a libertação nacional. Marcos escreve também sobre o Cinema Novo argumentando que com a instauração do regime militar, a preocupação inicial não foi com os artistas e intelectuais, e sim com a dissolução das organizações populares (estudantes, sindicatos, operários), e que de 1964 a 1968, mesmo sob o olhar dos militares, houve uma liberdade de criação e expressão artística.

No campo do teatro, inúmeras peças destacaram a parte musical. A parte importante da indústria cultural brasileira foi a veiculação da música pela televisão, que ampliou definitivamente o público da MPB, pois os programas que destacavam a música, como o Fino da Bossa, o Bossaudade e o Jovem guarda, cada um com público diferente trouxeram um público novo para a TV. Os festivais da canção foram os programas de maior audiência na televisão brasileira.

O capítulo “O radical é chic (1968 no Brasil)” é marcado pelo surgimento, apogeu e queda do Tropicalismo, que apesar de ter levantado e ampliado o mercado cultural brasileiro, recebeu muitas críticas. No ano de 1968, houve uma massificação da TV e o Festival Internacional da Canção bateu o recorde de público e a canção de Geraldo Vandré “Para não dizer que falei das flores” também conhecida como caminhando, foi a grande vencedora e se tornou um hino revolucionário, sendo cantada em vários protestos.

O autor encerra o capítulo com o AI-5, que foi uma agressão à cultura brasileira, gerando um vazio cultural, porque a partir do decreto desse Ato Institucional, os artistas, intelectuais e críticos do regime passaram a ser duramente perseguidos, e o governo militar assumiu de vez o controle sobre a sociedade brasileira.

No quarto capítulo “Desbunde, diversão e resistência: a cultura nos anos de chumbo (1970-1975)”, O historiador aborda um dos períodos mais difíceis da história política, econômica e social do Brasil, devido a perseguição dos militares amparados pelo AI-5 ter sido grande. A MPB por exemplo, passou por dificuldades devido à crítica que os compositores faziam ao regime. Muitos artistas brasileiros foram exilados e, no período de 1969-1974, houve um processo de rearticulação da produção cultural brasileira. No último capítulo “Contra todas as ditaduras (1976-1980)” o professor disserta sobre o período de abertura política do governo Geisel e os reflexos desta na área cultural, apresentando a MPB como a trilha sonora da abertura, as mudanças na programação da televisão, e as renovações do cinema e do teatro brasileiro.

O livro é muito interessante e cativa os leitores, pois o autor escreve de forma clara e mapeia os vários caminhos pelos quais a cultura brasileira transitou entre as décadas de 1950 e 1980, destacando a pluralidade de expressões artísticas que surgiram ao longo do período, além de deixar uma referência vasta de textos para teatro da época, filmes, todos disponíveis em vídeo, álbuns fonográficos e uma bibliografia excelente sobre o assunto abordado no livro. A obra é destinada aos profissionais da área de Ciências Humanas, e aos amantes da história e da cultura brasileira, pois aborda vários assuntos como a historicidade da produção cultural e artística e a cultura como instrumento de apoio e de crítica à ditadura, mas acredito que seria extremamente importante que cada cidadão brasileiro se interessasse pela leitura da obra, porque é uma maneira de conhecer mais a história do nosso país e passar o conhecimento adquirido para as futuras gerações, para que todos possam perceber que a história e a memória são coisas extremamente importantes para a nossa vida, pois o tempo é fator de mudança e transformação, e isso nos ajuda a compreender o desenvolvimento humano ao longo dos anos.

——-
[1]
NAPOLITANO, Marcos. Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980) 2ºed. São Paulo: Contexto, 2004. 133 p. (Repensando a História).

______
Texto: Danilo Freire
(Graduado em Filosofia) UNIFAI 

About these ads

9 Comentários

  1. Guilherme disse:

    Boa Noite Professor Danilo Freire,

    Sou graduando em História e na disciplina de Brasil V estamos estudando o período do Regime Militar no Brasil. A professora está utilizando justamente este livro do Naplitano.
    Não lí por inteiro, mas concordo com sua colocação ao final da resenha, de que todos os brasileiros deveriam ler esta obra, e ainda complemento, que todos nós deveríamos nos interessar mais ainda por nossa cultura, afim de criarmos a identidade brasileira mais profunda.

    Parabéns

  2. Professor Danilo Freire disse:

    Valeu Guilherme,
    Agradeço o seu comentário e seu elogio. É muito bom saber que estou contribuindo para ampliar os conhecimentos dos visitantes do site. Indique ele para os seus colegas de classe.Tem uma outra resenha que fiz sobre o primeiro livro da série “As Ilusões Armadas “do Elio Gaspari sobre a ditadura, intitulado a ditadura envergonhada. Pretendo publicar a resenha de mais outros dois :A ditadura escancarada e a ditadura derrotada.
    Um abraço.

  3. taina disse:

    li, li, li, li bastante

    e ñ entendi nda

    Ola minha querida!
    Deixe sua duvida postada… que retornaremos para vc!
    A leitura por mais repetitiva que seja… as vezes não funciona sem uma explicação!
    Ass: Junior!

  4. Kelcyanne Pessoa disse:

    Adoreiii a imagem UTOPIA E MASSIFICAÇÃO (1950-1980)
    e bem criativoo isso!=]
    ____________________________
    A publicaçao estaa mt Boaa
    Parabens peloo Trabalhoo

    =*****

  5. TAMIRES DA SILVA disse:

    Não gostei nenhum pouco , porque não entendi! OBRIGADO PELA ATENÇÃO!!!!BEIJOKAS TAMIRES!

  6. pablo disse:

    gostei do assunto mais queria o assunto mais rezumido

  7. waldenia disse:

    gostei do assunto mas nao è o que eu estou procurando ainda obj!!

  8. lucas disse:

    EM PRIMEIRO LUGAR EU NÃO ENTENDI ESSI CARA COM O CÚ NO XÃO
    PARECE QUE ELE TA CAGANDO NA ORTIGA

  9. licurgo neto disse:

    LICURGO NETO ARTISTA PLÁSTICO

    Conheçam o site do grande artista plástico Licurgo Neto, baiano de Esplanada.
    Licurgo foi o criador do espaço Varanda das Artes em Paquetá, onde se realiza um projeto para um centro cultural de artes plásticas.
    Licurgo utilizou diversos estilos de pintura para mostrar o seu talento, e através de exposições em diversos países, tornou-se conhecido internacionalmente.
    Seu estilo retratava a simplicidade de seu povo, suas origens, sua terra, os problemas sociais.

    Visite o site sobre a vida e a obra do artista plástico Licurgo Neto, com fotos, vídeos, depoimentos, e muito mais.
    Temos também dicas culturais atualizadas: programação de cinema, teatro, shows, restaurantes, etc.
    Guia de museus e galerias de arte do Brasil.
    Biografia dos grandes mestres da pintura, através de enciclopédia virtual.

    Acessem: http://www.licurgonetoartistaplastico.com.br
    http://www.licurgonetoplasticartist.com

    Siga-nos no Twitter:
    https://twitter.com/licurgoneto

    ORKUT: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?rl=mp&uid=12342826574339554112

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Artigos por Mês

Nossa Editora

Revista Sob Um Novo Olhar 2

Livro Filosofia & Educação

Radio Claretiana

CURSOS ONLINE

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 142 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: